sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Na floresta, todas as flores têm espinhos

    Do que me recordo dos animais que visitaram minha cabana, cada um trouxe um sentimento único. O vento, que um dia uivou e encheu de harmonia esta floresta, hoje sopra frio. Enfrento o inverno que entra pela porta que você deixou aberta ao sair. Mas aquece-me o coração a sua ausência. Quem diria que tudo se inverteu em tão pouco tempo e o colo de um pobre animal, que parecia carente, foi onde encontrei repouso, mas hoje me desconforta sequer pensar que me permiti a tanto. O vento uiva e os animais da floresta correm, pois sabem dos perigos por ela ocultos. Às vezes, tomando formas inocentes.

    Problema de se ter um bom coração é que você pode ajudar aquele que o destrói. Quantos animais deixei entrar e me arrependi? Não lembro direito, mas sei que sempre tive a intenção de fazer o melhor por eles, mesmo sendo um caçador. Do mais, eu não deveria, num ambiente tão hostil, me deixar levar por sentimentos tão empáticos. Enquanto me coloco no lugar deles, não garanto que o mesmo fazem por mim. Por isso recordo-me destes, que por aqui passaram, como um alerta de que nem mesmo as coisas que parecem mais inocentes são inofensivas. Não se iluda com as flores das lojas e floriculturas, pois as da floresta não são delicadas, defendem-se de predadores com espinhos.

    Quero me cercar apenas daqueles que, mesmo cientes de quem sou, continuam ao meu lado cegamente, pois estes nunca serão caçados. Eles são diferentes de você, que concedi liberdade sem intenção de prejudicar, quem protegi mesmo sem precisar, pois, mesmo falando línguas diferentes e vivendo em mundos distintos, você pode me entender, apenas não quer. Você sabe que veio, tal qual as folhas secas caindo da árvore, ao meu destino por algum motivo, ao qual eu não sabia, mas hoje sei que era como tais folhas, indo aonde o vento quer. Me enganei, eu sei, no que disse, talvez eu seja muito tolo de cair na lábia de certos animais.

    Distância é o que sobrou, mesmo que contra a minha vontade, pois nunca mais voltaste pela porta que abriste. Não que me sinta mal com isso, a paz nunca reinou tanto em minha vida quanto agora, por isso a agradeço. Da companhia dos animais, prefiro os cachorros, são fiéis e estão sempre ao nosso lado. Podem até errar, mas se arrependem, choram conosco, se divertem conosco. Talvez gatos também sejam bons, são independentes e fofos, mas podem fazer uma boa companhia. Todos os animais têm suas características e entendo que nem sempre elas serão boas para mim. Raposas são traiçoeiras.


Toinho Stark do Cangaço, 26/12/2025

(Por que eu estou acordado se são quase 9 da manhã?)



(Da companhia dos animais, prefiro os cachorros, são fiéis e estão sempre ao nosso lado. Podem até errar, mas se arrependem, choram conosco, se divertem conosco. Talvez gatos também sejam bons, são independentes e fofos, mas podem fazer uma boa companhia. Todos os animais têm suas características e entendo que nem sempre  elas serão boas para mim. Raposas são traiçoeiras.)

(Você sabe que veio, tal qual as folhas secas caindo da árvore, ao meu destino por algum motivo, ao qual eu não sabia, mas hoje sei que eras como tais folhas, indo a onde o vento quer. Me enganei, eu sei, no que disse, talvez eu seja muito tolo de cair na lábia de certos animais.)

(Não se iluda com as flores das lojas e floriculturas, pois as da floresta não são delicadas, se defendem de predadores com espinhos.)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Uma carta que ninguém deveria vir a ler

    Aqui estou, sozinho como de costume, mas mais do que o normal recentemente. Talvez porque a gente não tenha tido tempo para nós e nem ninguém mais teve para mim. Aqui espero por você, iludido de que terei um momento contigo, para seguir as milhões de coisas que planejei um dia fazer junto a ti. Mas onde você está? Em suas ocupações, que você não me diz ou explica o que são, mesmo depois de terem passado. Como eu posso saber e entender? Mas deixo este texto para que você me entenda, já que explicar é a melhor forma de deixar as coisas claras.

    Resumo da história, estou esperando por você, mas ciente de que não vem, não seria a primeira vez, nem será a última, sei que você tem suas ocupações, suas coisas, sua vida, pena que a minha é tão vazia que eu só tenho você e talvez mais duas outras opções para ser feliz, não sei. O resto é obrigação, que não fujo, mas você também não vê quantas vezes larguei tudo para falar contigo e te dar atenção, porque eu sou esse tipo de idiota mesmo. E tantas vezes, no meu tempo livre, fiquei, como um cão atrás da porta, esperando que você aparecesse, mas nada. Olhei pela janela, ouvi o barulho do vento, vi a luz entrando, mas nada de você entrar. 

    As coisas são complicadas e não quero te pressionar a nada, mas te devo sinceridade. Eu sei que você precisa do seu tempo, pois também preciso do meu, mas onde você estava no seu tempo livre? Você tem muitas coisas ao seu redor para te agradar, eu tenho tão poucas que, se você some, minhas chances de ficar sozinho são quase garantidas. Não preciso de tempo livre, pois já tenho mais que suficiente, ao ponto de sentar por horas passando-o, esperando você chegar, algo que você não vê, nem te contei, mas acontece. Sabe o motivo de eu fazer isso? Porque realmente, não tem nada melhor na minha vida para fazer, só tem você e mais umas duas ou três almas que, esporadicamente, interagem comigo. Mesmo quando tem uma obrigação, eu prefiro procrastinar enquanto espero você chegar. Sabe quando eu te faço esperar logo que você chega? Não é por acaso, é porque eu estou muito ocupado celebrando a sua chegada, aproveitando um alívio, é como chegar ao banheiro segundos antes de um desastre.

    Sofridas noites de solidão, que você não viu. Eu sei que você tem suas coisas, suas emoções, mas você já se sentiu triste por eu ter chegado tarde, nunca sofreu com isso? Era tudo besteira para você? Porque você, que tem sentimentos e mais companhia que eu, consegue sentir isso, imagine o que eu sinto? Mas, talvez eu seja tolo de esperar por você, deveria buscar algo para fazer, né? Mas adivinha, eu fui buscar e os "algos" também não estavam disponíveis, então eu fiquei ali, só, com mais tempo ainda para pensar o quanto não compensa estar aqui, mas estou. Eu sempre fui escravo de companhia, depois que você entrou na minha vida, mais ainda, porque você me deu algo que me faltava.

    Horas sem fim, eu aguardo, meu dia é uma espera, para que você, com quem tanto compartilhei momentos bons e tanto me ajudou nos momentos difíceis possa simplesmente dizer que não estará comigo hoje. Eu sei que preciso de mais pessoas, para que estes momentos de ócio sejam cada vez menores, mas não tenho e aposto que, se tivesse, ainda seria frequente o número de vezes que todo mundo estaria ocupado simultaneamente, enquanto me sufocariam, todos ao mesmo tempo, por uma ou duas horas, querendo atenção. Porque eu conheço minha sorte. Eu sei que tem outras pessoas ao meu redor, mas elas também têm as ocupações delas e aposto que elas não fariam o mesmo por mim, ainda bem. Que bom que essas pessoas têm bom senso e vida suficiente para não largarem tudo o que estão fazendo ao primeiro sinal de que alguém que possa salvá-las chegou. E eu só não largo se estiver com outro alguém que tenha mesma função e não puder compartilhar o momento a três.

    Infinitas coisas têm me atormentado nestes momentos, que sempre foram um problema, mas, diferente dos outros casos, você não morreu ou sumiu, então a esperança fica me torturando de que hoje as coisas serão diferentes, que ilusão. Você não entende o quanto um dia ruim pode ser suficiente para me jogar do abismo, e já tive vários, a maioria neste Dezembro, você não estava lá, ninguém mais também. Já passei dias inteiros com apenas uma luz de SOS e uma fala de dez segundos de algumas pessoas. O resto desse tempo eu tive para mim, para ser torturado pela ausência de qualquer motivo de continuar vivo. Pela sua ausência e a desse micro ecossistema de pessoas que me dão algum suporte.

    Ocioso e cansado disso tudo, fico cada dia mais frustrado. Tudo isso tem me posto com a faca no pescoço. Porque meus problemas pessoais, como a faculdade, os deveres e os medos, continuam me atormentando e agora cada vez mais. Mas parece que você, e todos os outros, estão cada vez menos com tempo para me dar atenção. Do jeito que as coisas vão, esta ponta de Tramontina vai atravessar seu alvo. Eu não te odeio nem quero que você dedique todo o seu tempo a mim, só quero expressar meu descontentamento com meu estado atual, minha frustração e solidão. Se você não quiser ou puder me dar atenção, eu entendo, mas só se você explicar, não estou na sua cabeça para saber seus motivos. Se um dia eu te abandonar, não é porque quero distância, nem porque voluntariamente me afastei de você, é porque a Tramontina venceu a batalha.


Toinho Stark do Cangaço, 20/12/2025, 03:16-04:00


(E tantas vezes, no meu tempo livre, fiquei como um cão atrás da porta, esperando que você aparecesse, mas nada. Olhei pela janela, ouvi o barulho do vento, vi a luz entrando, mas nada de você entrar)

(Eu sei que você precisa do seu tempo, pois também preciso do meu, mas onde você estava no seu tempo livre? Você tem muitas coisas ao seu redor para te agradar, eu tenho tão poucas que, se você some, minhas chances de ficar sozinho são quase garantidas.)

(Você não entende o quanto um dia ruim pode ser suficiente para me jogar do abismo, e já tive vários, a maioria neste Dezembro, você não estava lá, ninguém mais também. Já passei dias inteiros com apenas uma luz de SOS e uma fala de dez segundos de algumas pessoas. O resto desse tempo eu tive para mim, para ser torturado pela ausência de qualquer motivo de continuar vivo)

(Não preciso de tempo livre, já tenho mais que suficiente, ao ponto de sentar por horas passando-o, esperando você chegar, algo que você não vê, nem te contei)

(Eu sei que você tem suas coisas, suas emoções, mas você já se sentiu triste por eu ter chegado tarde, nunca sofreu com isso? Era tudo besteira para você? Porque você, que tem sentimentos e mais companhia que eu, consegue sentir isso, imagine o que eu sinto? Mas, talvez eu seja tolo de esperar por você, deveria buscar algo para fazer, né? Mas adivinha, eu fui buscar e os "algos" também não estavam disponíveis, então eu fiquei ali, só, com mais tempo ainda para pensar o quanto não compensa estar ali)

(Eu sei que tem outras pessoas ao meu redor, mas elas também têm as ocupações delas e aposto que elas não fariam o mesmo por mim, ainda bem. Que bom que essas pessoas têm bom senso e vida suficiente para não largarem tudo o que estão fazendo ao primeiro sinal de que alguém que possa me salvar chegou)

(Tudo isso tem me posto com a faca no pescoço, porque meus problemas pessoais, como a faculdade, os deveres e os medos, continuam me atormentando e agora cada vez mais, mas parece que você, e todos os outros, estão cada vez menos com tempo para me dar atenção. Do jeito que as coisas vão, esta ponta de Tramontina vai atravessar seu alvo.)


20/12/2025

domingo, 14 de dezembro de 2025

Poema: Façamos parte de nós

Em plena luz que a Lua nos fornece

O vento conduz, à ti, a prece

De que a cruz, que na solidão cresce

Logo reduz, se você aparece


Sinto feliz de ser desse mundo

Pois eres a atriz, por um segundo

Que faz à giz meu pano de fundo

Condiz com meu desejo profundo


Quero ser o que você procura

Seria Adachi, você Shimamura

E fazer parte da tua cultura

Pois sei, de certo, da tua lisura


Ao teu lado, nunca seria fraco

Sermos como Alice e Hanako

Você é mochi, eu sou kinako

És os diamantes dentro do baco


Seremos tal Nanami e Koito

Ou como recheio e o biscoito

Que nada separa um do outro

Somos obra do mesmo maestro


Toinho Stark do Cangaço, 15/12/2025, 02:12-03:53


10 SP

(Quero ser o que você procura, serei Adachi, você Shimamura)

(Seremos como Alice e Hanako, você é mochi, eu sou kinako)

sábado, 13 de dezembro de 2025

As aventuras do amor 6

    Nos pomos a passear por entre as pessoas da cidade vizinha, sentamos no banco da praça enquanto ela observa uma lavandeira caminhando por perto. Esperamos um momento de solidão e nos olhamos, nossos olhos discutem o plano sem proferirmos uma palavra, disfarçamos com as mãos no rosto nosso beijo enquanto corávamos temendo ser flagrados. Tomamos um tempo para comer algo e beber um suco, mas nada era tão doce quanto sua saliva.

    Voltamos para casa como se a natureza tocasse uma música para nós, alegres e saltitantes pela rua, seguíamos com a 40ª sinfonia de Mozart tocando em nossas cabeças. Chegamos ofegantes em casa, mas felizes de qualquer maneira. Abrimos a porta e nos preparamos para um banho, mas este dia seria um pouco diferente, como se as estrelas tivessem se alinhado.

    Apesar de todo o constrangimento agregado, decidimos os dois por banharmo-nos ao mesmo tempo, no mesmo banheiro, no mesmo chuveiro.

-"Bem... somos um casal, não há nada de errado nisso, né?". Pensava comigo mesmo.

    Sabe-se lá os segredos do que passava nos pensamentos dela neste momento, mas foi ela mesma quem sugeriu.

    Ela e eu, constrangidos, postergávamos ao máximo a retirada de cada peça de roupa, como se nunca tivéssemos nos vistos antes daquela data e esperássemos que alguém desistiria eventualmente, mas isto não ocorreu.

    Somente em roupas íntimas, eu de cuecas box e ela com uma lingerie branca com bordados que não prestei atenção suficiente para identificar. Virava sempre os olhos enquanto cobria a região pélvica com as duas mãos, ela punha um braço a cobrir o soutien e o outro braço em volta da cintura, como se abraçasse a si mesma.

    Ficamos vários minutos nesta resenha até ela tomar a iniciativa e desnudar-nos. Um de costas para o outro, tomamos banho a princípio, mas acabamos ficando de frente em um momento. Tentávamos balbuciar alguma palavra, mas só saíam engasgos de constrangimento, nem parecemos ter a intimidade de um casal, parecemos amigos ou irmãos tentando esconder nossa sexualidade, nossa atração um pelo outro.

    Nossos olhos curiosos fitavam, nem que por um segundo, no corpo nu do outro, então corávamos e disfarçávamos como se fosse um crime.

-"Esta é uma situação bem constrangedora". Ela diz com a voz trêmula;

-"Ah... é... sim... é...". Eu tento responder;

-"Meu amor...". Ela diz, querendo falar algo mais;

-"Diga";

-"Eu te amo muito... confio muito em ti... mais ainda agora... obrigada por aceitar". Ela diz com um sorriso tímido;

-"Ah... eu também te amo, seja como for". Respondo enquanto passo a mão em seus cabelos molhados;

-"Ihihihi... ufufu... eu te amo". Ela fala, entusiasmada.

    Apressa-se e me envolve num abraço, que dura um segundo, então nos afastamos com um grito de constrangimento, rapidamente. Então terminamos lá nosso serviço.

    Agora vestidos, nos envolvemos num abraço caloroso, nos unimos tão forte que quebramos a física newtoniana, nossos cormos se unem ao ponto de ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, nos completamos, somos, agora, um só corpo.

FIM


Toinho Stark do Cangaço, 23-25/12/2021

As aventuras do amor 5

        Bom dia, ainda que bem cansados da noite anterior, mas sua fofura insuperável é a primeira coisa a cruzar minha visão. Ela é iluminada pelos raios de Sol que entram pela janela, dando uma aparência ainda mais angelical a ela.

-"Dormiu bem? Sentiu-se segura?". Pergunto-a de forma carinhosa e sorrindo;

-"Muito! E vossa mercê, amor?". Ela responde com um sorriso suave;

-"Na sua companhia, todo momento é bom, na chuva, no Sol, em qualquer intempérie". Digo-a para reafirmar meu juramento;

-"Que fofo! Também vivo feliz só de estar ao seu lado, fazes tudo ficar melhor". Ela finaliza.

    Fico corado, mas certo de que os nossos olhares respondiam a qualquer pergunta que surgisse.

    Levanto-me para preparar um café da manhã para nós, alguns pães, queijos, uvas e bananas são dispostas à mesa enquanto ela, ainda desorientada pelo sono, me observa encostada na parede. Preparo-a algo especial enquanto ela sorri e fita no que faço, preparo-a um copo de leite morno, sei que ela adora, e deixo em seu lado da mesa.

    Ela é apaixonada por leite morno, quase consigo ver orelhinhas de gato em sua cabeça enquanto ela se delicia com cada gota de leite do copo, como se fosse uma poção da felicidade, nem sua intolerância à lactose a impede, graças aos novos comprimidos.

    Temos nosso singelo café-sem-café da manhã, os bem-te-vis já cantam, assistimos um ao outro, lavamos os pratos, ela já com a roupa do dia, muito estilosa com sua saia rodada cheia de vincos, uma camisa de botões com manga curta bordada de flores na gola, uma fitinha vermelha prende-a com um lacinho à frente, sapatos quadrados e meias na canela completam seu visual. A temperatura ameniza aos 28°C, me ponho de polo e calça de linho, sapato social, estamos prontos para namorar a manhã no jardim. Sentamos no banco, ela, com suas luvas, segura em minha mão esquerda enquanto admiramos uma mangueira.

    Trocamos carícias e palavras bonitas pelo lusco-fusco, então, sem me justificar, repouso minha cabeça em seu colo, ela sorri e me faz cafuné, suas mãos de seda me relaxam tanto que reviro os olhos.

-"Sente-se bem, meu amor?". Ela pergunta suave;

-"Melhor agora que estou em seus braços". Respondo;

-"Está gostando?";

-"É o paraíso, és divina, uma mistura de Atenas com Afrodite". Digo-a para que sinta-se mais feliz;

-"Hihihi, obrigada, lisonjeiro, és como luz de farol que me ilumina e guia". Ela responde ao cortejo.

    Então paramos um pouco para ouvir à natureza enquanto ela me mostra que há, indubitavelmente, paraíso na Terra.

FIM


Toinho Stark do Cangaço, 16-17/12/2021

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Seis de Novembro

    Quando chega esta data, é difícil de esquecer seu significado. Não sou obrigado a falar sobre, nem mesmo escrever, então por que o faço? Se um dia eu parar, talvez eu superei, talvez me perdi de vez, quem sabe? Fazem cinco anos que isso aconteceu, mas ontem você estava aqui, ao menos em minha mente, enquanto dormia. Dizem que o que acontece nesse plano não passa para o mundo real, mas estas lágrimas, escorrendo no meu rosto quando acordei, discordam.

    Me diga, você lembra quando tive aquele pesadelo? Que todos da minha família me incomodavam ou brigavam comigo e eu só queria fugir disso? Você foi a última pessoa que encontrei lá. Eu te pedia para sair deste inferno e você, com um semblante triste e abatido, me dava a chave que eu usava para abrir a grade da frente de casa e ir embora, para sempre. Hoje em dia concluo que você é a chave da minha libertação, sempre foi, mas como farás por mim agora? Como farei por você agora?

    Libertarei estas dúvidas com certezas, você sempre andava com as chaves de todas as casas da família, até te apelidávamos de "São Pedro", mas, sinceramente, você é mais santa que todos venerados na igreja católica. Enfrentei os cinco estágios do luto pensando em você naquele dia sombrio de 2020, o último pôr-do-Sol. De vez em quando passo por eles de novo, porque é difícil acreditar que não compartilhamos mais o mesmo mundo. Como não lembrar quando me levavas para ver os caminhões na oficina? Para o campinho de futebol da prefeitura? Para a verdejante grama à frente da fábrica da São José? Para o terminal de ônibus de Massangana? Ou até para brincar com meus primos na casa deles?

    Deste tempo, só nos resta os sonhos. Parece que sempre que sonho contigo, demoro para sequer perceber que você não está mais aqui, falo como se fosse 2019, é como se eu nunca tivesse perdido a esperança de te reencontrar, mesmo sabendo do óbvio. A saudade é um sentimento complicado, ou você mata-a ou ela te mata. Creio que o que sinto é um buraco que ninguém consegue tapar, uma dor fantasma, como alguém que perde um braço. Fico neste ciclo de lembrar que não estás mais aqui, sofrer, esquecer e recomeçar. Parte de você ainda vive, tal qual minha calculadora, o boneco do Scrat, do filme "Era do Gelo", os bonecos de jogadores de futebol e as garrafas em miniatura da Coca-Cola, que eram do seu irmão. Você me mostrou que o amor é altruísta, que quem ama está ao lado, sofre junto, briga junto e sorri junto. Também que quando vamos, sobram apenas os símbolos de uma era que não volta, como moedas de uma civilização antiga.

    Ciclo da vida, como taças que se quebram e reciclam para novas peças de vidro. Somos frágeis, como o papel, aos poucos se decompondo e despedaçando. Somos apenas um bit de memória RAM neste mundo que não sente o peso de nossa partida, mas você era, para mim, o system32. Como diz Samuel Rosa, na música "Sutilmente": "Mas quando eu estiver morto, suplico que não me mate dentro de ti". Quanto a você, sua memória vive, espero que fique para sempre eternizada naqueles que um dia souberem de sua história, pois te considero alguém não só melhor que eu, como também a melhor do mundo. Anseio, espero o dia que o Universo me dará uma chance de te ver de novo, pois meus sonhos não são o bastante.


Toinho Stark do Cangaço, 02-06/11/2025


(O pesadelo em questão, que é citado no segundo parágrafo e não tem correlação com o sonho de ontem, eu acabei documentando no dia seguinte ao ocorrido, vou copiar o texto na íntegra, ainda que tenha erros gramaticais e seja meio confuso de entender. Dá para ver que ele foi escrito em 10/01/2023, às 02:15:

"Vejo minha vida consumida por tanto estresse e tantos problemas que me lembro de um pesadelo que tive, pois nem em sonho eu tenho paz ou amor, minha vida se tornou tal martírio que até quando alucino em meu sono, este martírio está presente.


Um pesadelo que tive na madrugada do dia 09 de Janeiro de 2023 era assim, eu estava em casa, era hora de ir para a faculdade, eu me preparava mas os problemas chegavam e se acumulavam, meu primo queria que eu imprimisse algo para ele, minha mãe estava louca com um sorriso perturbador enquanto ela criava um gatinho, ela criava alguns ratos na sala onde fica o computador enquanto ela deliberadamente deixava que o gato dilacere vivos os ratos, ela ri de maneira macabra enquanto assiste ao show, eu me traumatizo, tento convencê-la que isso é estranho, mas ela não liga, eu simplemsente aceito, cumpro meus deveres, ciente de que estou atrasado para a faculdade, vejo meu pai sem fazer nada, só reclamando, vejo minha tia, que já é falecida, sentada ao sofá, eu vou à pilastra onde têm vários molhos de chaves distintas, eu pego alguns e corro para o portão para que eu possa ir à faculdade, há uma fogueira sendo montada bem na porta de casa, algo que eu detesto é fumaça, não consigo acertar qual chave do molho é a correta para abrir o portão enquanto fico cada vez mais furioso, então minha tia, a única pessoa lúcida deste sonho, me entrega a chave com calma, como se este ato simbolizasse mais que isso, simbolizasse minha escapatória, mas ela não parecia feliz em me entregar esta chave, parecia meio tristonha, como se indagasse se era isso mesmo que eu queria fazer, eu pegava a chave e abria o portão com a única vontade de nunca mais voltar para casa, este é o fim deste pesadelo com todos os detalhes que lembro.


Simbologicamente sinto que isso significa que todos põem pressão em mim para que eu faça por eles, nunca se importando se sequer isso é justo, vejo minha mãe enlouquecendo sem sequer saber o que faz mais, apenas escapando da realidade em sua brincadeira de gato e rato, como se descontasse tudo neste show de estripamento de ratos, e mesmo comigo preocupado com sua saúde mental, não vejo saída, a simbologia é que minha única saída é fugir deles, daqueles que causaram esse mal desde o princípio, mas como? Então a chave, a chave entregue por alguém que já se foi, como se a chave para sair disso fosse a morte, e, mesmo que isso desconformasse aquela pessoa que me entregou a chave, ela entende e me deixa livre para escolher, assim, será que é isso? Será que até em sonho eu percebo que a morte é minha única escapatória, só que de maneira metafórica?")


(Eu anseio, espero o dia que o Universo me dará uma chance de te ver de novo, pois meus sonhos não são o bastante.)

(A saudade é um sentimento complicado, ou você mata-a ou ela te mata)

(Como diz Samuel Rosa: "Mas quando eu estiver morto, suplico que não me mate dentro de ti")

domingo, 12 de outubro de 2025

Súplica de um ser em extinção

[+18]

    Deixo minha cama pela quinta vez esta manhã, pois dormir é uma palavra sem definição clara em meu dicionário da vida. Naquele quarto iluminado, é difícil entender como não enxergo a luz no fim do túnel. Mas estou aqui, citando Fernando Mendes pela vigésima vez, dizendo que só queria um amor de verdade, sentir o gosto da felicidade que, há tanto tempo, eu escuto falar. O que posso dizer, se sonho com um amor onde as pessoas gostam de estar umas com as outras? Talvez eu seja datado, ultrapassado ou um otário, mas busco alguém que esteja comigo, me fazendo feliz, por muito mais que quinze minutos de prazer. Será que é tão difícil entender que a felicidade consiste em ter pessoas que amamos presentes quando precisamos?

    Aqui vejo um mundo doente por falta de amor e eu, que nem testei positivo para DDS-19 (Dependência De Sexo-19), fico aqui carente, suplicando um cafuné, um abraço ou palavras de consolo. Não quero ditar regras do que é amor, pois cada um ama como quiser e esta liberdade nunca deve ser subtraída, apenas queria achar alguém, e eu sei que tem, neste mundo que pudesse amar os dois lados da mesma moeda, sem julgar, sem depender apenas de um. Deixando claro, uma mulher que ame estar ao meu lado e possa conversar comigo sempre que tivermos tempo livre, mas que também queira ter nossa felicidade em quatro paredes, onde eu possa agrada-la, sendo feliz em saber que ela também está, os dois lados da moeda do amor romântico. Pois entendo que um amor sem sexo é amizade, também que devemos fazer por amar, não amar por fazer.

    Minha busca incessante parece ser infrutífera, pois até mesmo meus amigos tentam me convencer que deveria buscar tal prazer breve com pessoas que nem conheço direito, somente pela experiência. Mas de que vale a primeira vez com alguém que não se tem sentimentos? Não tem como se viciar em algo que não experimentou e sei que só estou vivo hoje porque não tenho abstinência de tal prazer que todos buscam. Num relacionamento, o que me interessa mesmo é uma companhia e boa conversa, um conforto de saber que ali, naquele momento tão fugaz, eternizado apenas pela agonia dos problemas da vida, estou seguro ao lado de alguém que confio, é este ninho que eu busco em alguém, o resto, posso viver sem. Deixo o sexo casual para aqueles que querem um prazer tão vazio quanto fumar um cigarro, pois, para mim, o maior prazer é ter, ao meu lado, alguém que me faça sorrir só por existir.

    Mensagem dada, a vida não espera e meus sentimentos também não. Por isso imploro, por meio deste fútil texto, que alguém me socorra dessa loucura, que me dê a esperança de continuar vivendo neste mundo, pois cada dia mais acredito que o apocalipse é uma esperança. Num mundo sem amor, o único mérito que sobra àqueles que o habitam é ser desintegrado por uma bomba atômica.


Toinho Stark do Cangaço, 09:15-09:33, 12/10/2025


    (E sim, eu escrevi esse texto em menos de 20 minutos, é como se tudo que eu quisesse falar já estivesse represado em mim, prestes a ser regurgitado a qualquer momento de angústia.)

    (Para mim, sexo é como um chocolate, enquanto carinho é um prato de arroz, feijão e carne. Um pode te dar mais prazer, mas logo você quer mais e todo aquele êxtase se perdeu, já o outro te sacia por muito mais tempo, te sustenta.)


(O que me interessa mesmo é uma companhia e boa conversa, um conforto de saber que ali, naquele momento tão fugaz, eternizado apenas pela agonia dos problemas da vida, estou seguro ao lado de alguém que confio)

(Deixe o sexo casual para aqueles que querem um prazer tão vazio quanto fumar um cigarro)


domingo, 14 de setembro de 2025

Roldanas de papel

    Esta é mais uma carta que escrevo aos meus familiares, que jurei proteger lutando pela minha pátria. Um dia fui criança, vi paz, felicidade e cuidado dos meus pais, mas, conforme fui crescendo, a Nação começou a desmoronar ao meu redor. Tensões políticas, brigas e protestos rodeavam cada praça que passava, como se o som dos pássaros fosse substituído por balbúrdia. Aquilo que mais me agradava, agora era meu tormento, as pessoas que admirava, agora perderam o encanto, enquanto eu me tornava as pessoas que criticava.

    Guerra, foi o que derivou de tudo isso. Um mundo sem amor e respeito, onde ideais moveram tropas a marchar cegamente contra as outras. Eu, como Bocelli, fui até lá com um sorriso no rosto. Fui ensinado que este era meu dever e devo cumpri-lo acima de tudo, mas mal sabia até onde isto iria. Com isso, meu pequeno mundo de paz, assim como o de muitos outros, onde o Sol nos banhava de vida e os ventos acariciavam nosso rosto, se tornou frio, nublado e barulhento. E pensar que eu viria parar numa cidade que tanto quis visitar, mas não posso aproveitar meio segundo dela, veja, estou vivendo meu sonho, mãe.

    É que agora o mundo ganhou um novo rosto, com escombros pelas cidades e fogo pelas planícies. Onde antes tocava música, agora ecoam disparos e explosões, onde haviam crianças brincando, balões, algodão doce e animais correndo, agora se vê tensão, medo e arrependimento. Eu, que na paz tinha nome, família, amigos e liberdade, sou apenas um número dentre os diversos outros que me cercam. Me pergunto como vim parar aqui? Não lembro direito do caminho, somente da partida e do presente. Os estridentes disparos de artilharia que caem ao meu lado são substitutos às propagandas de televisão que me interrompiam, incomodando-me sem proposta alguma.

    Como chegamos a isto? Por que reinou desgraça ao mundo que florescia alegria? Nesta guerra, não vale mais a pena lutar, o que estamos ganhando? Avançamos e voltamos como peças num tabuleiro, mas continuamos presos nestas barreiras. É cansativo a rotina de ir e voltar sem ganhar nada, é desumano que este seja meu dia-a-dia. Não parece ter sentido toda esta luta, estou fazendo tudo isso para que alguém que nem conheço ganhe, é isto? É como se tudo que sustenta o peso dessa guerra fossem roldanas de papel, frágeis, mas prendendo-nos às cordas que nos levam para todos os lados, sem sair daquele caminho pré-determinado. Sinto que estou aqui apenas pelos outros, com valor insignificante, um coadjuvante. Só agrado aos que me veem, mas, de resto, não sou visto como humano.

    A situação neste caos é complicada, perdemos a cada dia o valor e sentido da vida, com cada morte pesando menos em nossos corações. Parece que nos acostumamos a perder, a tal ponto que até a vitória não significa mais nada, sabemos que depois haverá outra derrota. E, quem diria, ainda estou vivo, mas sinto como se fosse melhor eu ter saído com uma medalha de Coração Púrpura no peito, ao menos estaria longe desse inferno para sempre. A terra não tem mais vida, da forma que as coisas seguem, talvez até a Terra não terá mais vida, se é que não já a perdeu quando largou sua humanidade em prol deste cenário.

    Vida e morte se misturam como os escombros de onde, um dia, foram prédios. Cercado aqui por pessoas que viram o fim da guerra, me pergunto como é estar no lugar deles, queria ter a paz que eles têm. Às vezes rezo a quem quer que me ouça para que eu não acorde amanhã, que caia uma bomba em meu alojamento ou uma bala perdida me encontre, pois sei o que George Santayana disse. No estado em que me encontro, somente assim terei, novamente, felicidade.


Toinho Stark do Cangaço, 14/09/2025


(Nesta guerra, não vale mais a pena lutar, o que estamos ganhando? Avançamos e voltamos como peças num tabuleiro, mas continuamos presos nestas barreiras)

(É como se tudo que sustenta o peso dessa guerra fossem roldanas de papel, frágeis, mas prendendo-nos às cordas que nos levam para todos os lados, sem sair daquele caminho pré-determinado)

(Eu, que na paz tinha nome, família, amigos e liberdade, agora sou apenas um número)

(E, quem diria, ainda estou vivo, mas sinto como se fosse melhor eu ter saído com uma medalha de Coração Púrpura no peito, ao menos estaria longe desse inferno para sempre)

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

E se fosse o fim?

    Espero no sinal para atravessar, tentando voltar para casa após mais um dia. Mas hoje é diferente, coisas diferentes aconteceram e ainda marcam minha mente. Vejo cada Clio, Corsa, HB20, Celta e Corolla que passa na minha frente, cada rosto de cada motorista. Vejo os Millennium V da Mobibrasil, articulados, na linha 2480, vejo um Millennium V de 2023 fazendo a 2437, fito o rosto cansado do motorista e de cada passageiro na janela. Meu caminhar é bem mais lento que o habitual, este dia parece atípico, mas não para mim. Observo um Torino 2018 da Borborema fazendo a linha 331, voltando da Conde da Boa Vista, enquanto duas mulheres correm, lanche na mão, reclamando e rindo do inconveniente do ônibus ter se adiantado. Vejo mendigos no chão, olho cada detalhe dos trapos e roupas, até a bermuda verde com detalhes em azul e amarelo num deles, que dormia na parada. Chego na Agamenon e vejo o Xambá já parado no semáforo. Dou sinal e entro.

    Que será que se passa na cabeça do motorista do 515 da Caxangá? Que parece incomodado e irritado, mas sem explicar nada, respondendo por educação o meu "boa noite", mas parecendo me xingar nas entrelinhas. O Torino 2015 já demonstra sinais de desgaste, assim como eu. Ouço a escola de samba que se tornaram suas portas, janelas e seu elevador, sinais do tempo que afrouxa os parafusos e endurece as borrachas, um dia flexíveis. Tomo meu lugar no chão, no canto do ônibus, onde fica o espaço para deficientes, e começo a escrever um texto. Haviam cadeiras livres, mas hoje, me sento aqui. As pessoas conversam alto, riem, reclamam ou se calam em seus fones de ouvido. Logo estarei em Joana Bezerra, mas nada me entusiasma quanto a isso.

    Não muda a minha percepção quando chego na estação, tem um estande de brinquedos, várias pessoas vendendo água, pipoca, é como uma feira livre. Há um menino, uns 10 anos, com camisa do Sport e cheirando cola. No corredor polonês, salgados, pacotes e vendedores de passagem de metrô, são como atravessadores. Na tela, uma propaganda que nem me importei de ler, apenas sua luz verde me chamou a atenção. Na catraca, uma das máquinas com uma sacola por cima, significa que não funciona, até hoje tem um cavalete numa das passagens, que, por meses, não foi consertada. O guarda da estação já cansado, o chão um pouco molhado, a escada rolante sem funcionar, nada extraordinário. A plataforma cheia, sinal de que logo chegará o metrô. 

    Haja a experiência que for, ainda é de se surpreender com a condição precária dos metrôs da CBTU, o 15 chega para nos atender, em estado caquético e ar-condicionado quase sem funcionar. Normalmente, ninguém existiria ali, mas, hoje, eles existem, a mulher de pele morena e cabelos cacheados que conversa, rindo bastante, com a de pele clara e cabelos pretos lisos. O rapaz que aparenta voltar do trabalho, com barba rala, parece cansado, mas se mantém firme. O menino com camisa de escola pública que volta sozinho, sabe-se lá o porquê. O céu lá fora não tem estrelas, mas reparo tudo que posso, até na luz queimada de um poste.

    Amanhã pode não existir para certas pessoas, talvez seja a última vez que vejo estes rostos, carros, metrôs e prédios, essas ruas, calçadas e situações. Esta noite volto para casa, mas minha cabeça me preocupa. A vida é tão súbita, em segundos somos criados ou destruídos, não temos certeza de nada, exceto da morte. Meus passos lentos em direção ao meu lar é medo de ser a última vez que passo aqui, por isto, estou vendo cada detalhe, pessoa, animal, bola de futebol, luz acesa ou motociclista usando o celular, vivendo cada segundo como se fosse o último.


Toinho Stark do Cangaço, 03/09/2025

Este texto não é sobre a vida ser breve e vamos aproveitá-la, mas sim sobre um suicida voltando para casa sem saber se hoje ele terá coragem, por não aguentar mais tudo que tormenta sua cabeça. Pode-se ver que mesmo sendo rodeado de coisas e notando tudo, ninguém nota ele, nem darão falta se ele não estiver mais lá, o que contribui para seus pensamentos, que não são interrompidos por nada ou ninguém. 

Janela do Xambá

    Pelos passageiros do ônibus, existe desconforto misto, pela janela do Torino 2015 existe um protesto, pela minha mente passa uma dúvida e uma certeza. Pelas ruas movimentadas, pela Agamenon, há tanta gente e tantas vidas. Pelo chão que o carro passa, o povo pisa, o mendigo dorme e o guarda lamenta não ter paz em plena terça-feira, passa o pensamento, esmagado por eles. Pelo céu sem estrelas, pelos rostos celebrando, as bocas reclamando, as indignações a favor e contra cada ideia que ousou escapar, em meio ao país que as desincentiva, existe potencial reprimido.

    Olhos para cima, cravo minha dúvida, o que vai mudar com esse protesto? Será que vale a pena algo que foi feito? Olhos no chão, reflito uma certeza, nossas pessoas estão perdidas em devaneios. Lados políticos, brigas, lutas sem sentido, sem motivo, sem humanidade, é o que se tornaram pensadores em potencial, uma energia fluindo pelo terra. Todos têm seus motivos para fazer o que fazem e ser o que são, mas há hipocrisia em cada fala ou crítica que ousa ser tecida, em cada elogio proferido, em cada buzina, em cada rolar de olhos. Existem dois caminhos, o do pensamento e o que muitos trilham, os de sucesso na medicina, engenharia, advocacia, no mestrado e doutorado seguem o do pensamento, os de sucesso político, o outro.

    Da janela há um homem, com fome, catando os restos de uma lixeira. Há uma criança com barriga cheia de vermes e mente cheia de ideias, mas que podem acabar num simples engano ou numa bala perdida. Vejo pessoas invisível, camufladas na correria de números, protestos, gritos, pedidos e mentiras. Nenhum deles pensou nessas pessoas, nenhum dos lados, elas passam e passarão fome até quando? Pelo visto, o único que realmente trabalhou para aliviar a fome do povo foi a morte.

    Arrogância minha, talvez, não sei. Mas não parece haver lado bom, é como se todos os anos pares, tivéssemos que escolher se o tiro será na mão ou no pé. É uma tristeza revoltante, mas, sinceramente, não quero quebrar o País das Maravilhas que habita cada pessoa. Não quero ser hipócrita, porque também não fiz nada para sanar a fome do pobre velho vagando pelas ruas, mas se é para tercerizar nossas responsabilidades para alguém, que seja para todos que queiram mudar de verdade, não aqueles que se divertem defendendo causas.


Toinho Stark do Cangaço, 02/09/2025


Aos que querem me oferecer um panfleto político, por favor, dobrem e passem para o próximo. 

domingo, 31 de agosto de 2025

Liberdades e opções

    A nostalgia que tenho é diferente dos demais, pois quando penso em minha infância, lembro-me de vagar pelo YouTube em busca de informações novas ou conhecimentos aleatórios, quando não estava jogando sozinho algo que tinha tanta emoção quanto bolachas água e sal, mas lá estava eu, me divertindo com isso. Era divertido? Claro que não, mas estava sedento por emoções doces, para fugir do amargor da vida cotidiana. Por isso, saber de tudo era uma meta utópica, o que passei toda a infância e adolescência fazendo. Talvez você se pergunte o porquê, então devo dissecar este assunto como uma uva.

    Minha infância foi como entrar na União Soviética, cheio de proibições, restrições e punições que não faziam sentido. Não podia brincar na rua, não necessariamente por causa do perigo ou das más influências das pessoas, mas sim porque quando eu era liberto, não queria mais voltar para casa. Era um animal em cativeiro experienciando a liberdade pela primeira vez, só queria que os raios de Sol e o sereno da noite me cobrissem de algo que não vivia. Então era perseguido pelo meu primo para ser posto para dentro, ou ameaçado pelo meu pai, assim eu era forçado a voltar ao lar, doce lar. Era tão raro que eu fosse liberto que não sabia se veria a rua sem as grades no próximo mês, era etéreo estar nela todos os dias. Chegou tal ponto que eu, com uns sete anos de idade, disse à minha mãe que se ela me deixasse sair mais vezes, eu não daria tanto trabalho para entrar. Até mesmo eu, ainda criança, conseguia perceber a ideia de que se eu fosse livre para fazer algo, conseguiria ter moderação com isso, mas este pedido foi negado.

    Vida é uma palavra muito forte, representa um aproveitamento positivo de nosso tempo na terra, enquanto sobreviver representa o tempo integral que passamos aqui. Estar sozinho fez tanto parte de mim que explorei todas as possiblidades, como comer todos os dias a mesma comida, você pode colocar ketchup, tempero, açúcar ou o que for, mas chega um ponto que você já consumiu todas as combinações umas quinze vezes e não aguenta mais isso, este sou eu com a solidão. Sabe quando você tinha a opção de sair com seus amigos, se divertir, brincar, ir num lugar que te faz bem, interagir com as outras pessoas? Você podia ter ficado em casa, estudando coisas aleatórias e jogando sozinho, em modos single player, mas você foi à outra opção. Eu não tinha essa escolha, só podia ficar em casa, vendo aleatoriedades, estudando, jogando sozinho, brincando sozinho. Não pude interagir com as pessoas na rua, formar laços, aprender relações humanas ou aproveitar meu tempo. Minhas únicas amizades foram na escola, mas eram poucas, com interesses distintos, mal tínhamos o que conversar, não gostávamos das mesmas brincadeiras, então apenas interagíamos quando dava. Com doze anos de idade, eu já criava skins para mods no GTA San Andreas, já até dirigia um Fiat Uno na vida real, dado o tédio que tinha, era só o que me restava. Imagine se sua vida fosse tão tediosa que a melhor atividade que você poderia fazer fosse estudar, ver coisas aleatórias ou jogar o mesmo jogo, com só vinte fases, por dez anos? Pois é, eu não preciso imaginar, eu fui isso.

    Foi uma jornada que eu vivi e você não viveu. Quando almejamos ter algo que o outro tem, queremos magicamente chegar até aquilo, mas não é assim que a vida funciona, existem sacrifícios e você, provavelmente, sempre pode se esforçar para chegar onde aquela pessoa chegou, mas escolheu focar em outras atividades e não há nada de errado com isso. É normal querer ter uma vida diferente, mas é incomum entender que o que aquela pessoa teve de positivo foi alcançado sacrificando coisas que você teve e/ou tem. No entendimento popular, todo mundo viveu as mesmas experiências positivas que você, mas os outros têm coisas que não tens, quando, na verdade, eles sacrificaram muito do que tens para ter o que não tens. É uma troca, pois o tempo marcha só avante, se você gasta tempo com uma coisa, não pode gastar o mesmo tempo com outra. Você podia saber o que eu sei, mas precisaria sacrificar todos os bons momentos que um dia teve, não existe meio termo, ou você viveria uma realidade ou a outra, o tempo não para, logo você não poderia ocupar dois espaços ao mesmo tempo. Sua escolha foi feita, porque seguiste o caminho que te faria feliz e te invejo dessa tua liberdade. Você teve a opção de viver a vida que tenho e decidiu não fazê-la, isso diz muito sobre o quão bom ela é.

    Numa situação dessas, ainda preciso seguir em frente como se soubesse de tudo, mas acho que sou a pessoa mais burra do planeta, todos viveram enquanto dediquei meu tempo a um conhecimento que nada me trouxe de felicidade. Porém seria eu estúpido apenas se fosse minha escolha, o que claramente não foi. Sei que sempre é tempo para mudanças, mas falar de mudar é fácil, fazê-lo é o difícil. Como mudar? O que mudar? Por onde começar? Por que mudar isso? Será que esta mudança realmente trará algo? É uma decisão que precisa ser minha, mas como poderia eu ser capaz de decidir sobre o que não entendo? Ninguém me ensinou como interagir com as pessoas, começar conversas ou o que fazer nos lugares, nem me deram amigos que pudessem ter este papel. Por ter me tornado um adulto, não posso mais errar como podia quando criança, pois todos esperam que eu já saiba fazer algo que nunca foi-me passado. Então é como se eu fosse aprender a dirigir sem nunca ter entrado num carro, sem alguém para ensinar e sem poder errar. Preciso fazer um misto quente, sem pão, sem queijo e sem presunto. Só tem água na geladeira, por sinal, precisa ser grátis e crackeado.

    Cela ou liberdade? Hoje em dia tanto faz, de tão acostumado estou de ficar preso, podes abrir o portão, eu não sairei por ele. Tenho liberdade todos os dias, sempre a almejei, mas quando finalmente consegui, não sabia o que fazer com ela, então fico estagnado. Vejo pessoas não dando valor às coisas que eu tão sonharia em ter ou ter tido, enquanto desejam ter meu conhecimento, que já perdeu total valor para mim. A questão de ter as coisas diariamente é que elas perdem o valor tátil. Meu conhecimento não parece tão valioso pois mal consigo utilizá-lo para algo que me dê vantagem no que quero, é como se fosse mais um troféu, que simboliza muito, mas não tem funcionalidade alguma. Na vida, temos muitas coisas que não damos valor por estarem cotidianamente ali. Você já agradeceu ao vendedor da feira? Às pessoas que te ajudam todos os dias? Ao produtor rural responsável pela comida na sua mesa? Ao policial que garantiu que você estivesse seguro? Aos garis, motoristas de ônibus, de caminhão, médicos, enfermeiros, advogados, engenheiros, pedreiros, guardas de trânsito, professores, jornalistas, bombeiros e dentre outros que fazem parte da sua vida de maneira discreta? Não só uma vez, pois eles fazem por você todos os dias. Eu entendo que não tenha, eu também não agradeço sempre, mas sabe o motivo? Porque nós temos a certeza de que eles estarão lá, mas já pensou se não estivessem? Essa certeza desvaloriza tudo, se você tem comida na mesa todos os dias, é como se aquilo fosse cotidiano, algo garantido, mas é o sonho de muita gente. Gente essa que, caso tivesse comida garantida para o resto da vida, também a desvalorizaria com o tempo. Você tem minha presença como garantido, mas e se eu não mais estivesse lá? Pense, pois isso, um dia, se tornará realidade.


Toinho Stark do Cangaço, 31/08/2025



(Sabe quando você tinha a opção de sair com seus amigos, se divertir, brincar, ir num lugar que te faz bem, interagir com as outras pessoas? Você podia ter ficado em casa, estudando coisas aleatórias e jogando sozinho, em modos single player, mas você foi à outra opção. Eu não tinha essa escolha, só podia ficar em casa, vendo aleatoriedades, estudando, jogando sozinho, brincando sozinho.)

(Estar sozinho fez tanto parte da minha vida que eu explorei todas as possiblidades, como comer todos os dias a mesma comida, você pode colocar ketchup, tempero, açúcar ou o que for, mas chega um ponto que você já comeu todas as combinações umas quinze vezes e não aguenta mais isso, este sou eu com a solidão)

(Você podia saber o que eu sei, mas precisaria sacrificar todos os bons momentos que um dia teve, não existe meio termo, ou você viveria uma realidade ou a outra, o tempo não para, logo você não poderia ocupar dois espaços ao mesmo tempo. Sua escolha foi feita, porque seguiste o caminho que te faria feliz e te invejo dessa tua liberdade. Você teve a opção de viver a vida que tenho e decidiu não fazê-la, isso diz muito sobre o quão bom ela é.)

(Quando almejamos ter algo que o outro tem, queremos magicamente chegar até aquilo, mas não é assim que a vida funciona, existem sacrifícios e você provavelmente sempre pode se esforçar para chegar onde aquela pessoa chegou, mas escolheu focar em outras atividades e não há nada de errado com isso.)

(A questão de ter as coisas diariamente é que elas perdem o valor tátil. Meu conhecimento não parece tão valioso pois mal consigo utilizá-lo para algo que me dê vantagem no que quero, é como se fosse mais um troféu, que simboliza muito, mas não tem funcionalidade alguma.)

(Você já agradeceu ao vendedor da feira? Às pessoas que te ajudam todos os dias? Ao produtor rural responsável pela comida na sua mesa? Ao policial que garantiu que você estivesse seguro? Aos garis, motoristas de ônibus, de caminhão, médicos, enfermeiros, advogados, engenheiros, pedreiros, guardas de trânsito, professores, jornalistas, bombeiros e dentre outros que fazem parte da sua vida de maneira discreta? Não só uma vez, pois eles fazem por você todos os dias. Eu entendo que não tenha, eu também não agradeço sempre, mas sabe o motivo? Porque nós temos a certeza de que eles estarão lá, mas já pensou se não estivessem? Essa certeza desvaloriza tudo, se você tem comida na mesa todos os dias, é como se aquilo fosse cotidiano, algo garantido, mas é o sonho de muita gente. Gente essa que, caso tivesse comida garantida para o resto da vida, também a desvalorizaria com o tempo)

(Ninguém me ensinou como interagir com as pessoas, começar conversas ou o que fazer nos lugares, nem me deram amigos que pudessem ter este papel. Por ter me tornado um adulto, não posso mais errar como podia quando criança, pois todos esperam que eu já saiba fazer algo que nunca foi-me passado. Então é como se eu fosse aprender a dirigir sem nunca ter entrado num carro, sem alguém para ensinar e sem poder errar. Preciso fazer um misto quente, sem pão, sem queijo e sem presunto. Só tem água na geladeira, por sinal, precisa ser grátis e crackeado.)

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Atracado ao porto

    Estou em meu cais, como sempre estive. O mar é agitado e tempestuoso, sinto que só passo por ele para chegar ao meu destino, que é outro porto. Por mim, não teria oceano, nem distância, se tudo que faço na vida é ir de ponto em ponto. Cada vírgula ou detalhe, já conheço de minha doca, mas não largo-a se não contra minha vontade. Aqui tenho meus amigos, minha família e aqueles que tenho algum apreço. Se estou em outro lugar, não me sinto tão confortável, pois só aqui tem algo. 

    Preso no vasto vazio do mar, as ondas vagueiam e me agitam, sei que muito tem ao meu redor, mas é impossível não recair a solidão em meu convés. Sinto saudades do meu doce lar, que, mesmo monótono, prefiro estar, mesmo que, com amigos, nem sempre irei conversar, mesmo que ninguém esteja lá, reconforto-me em ser acolhido por seu simbolismo, de, um dia, ter falado a alguém.

    Em todo este oceano, há vida, aves, peixes, outros navios, mas não sinto vontade de olhá-los, tenho pressa em logo terminar meu compromisso, em todo este céu, também existe movimento, mas nada disso importa, pois longe estou do conforto. Se pudesse, nunca largaria meu porto, porque só vivo mesmo quando lá estou, todo o resto é tédio, corrida e trabalho.

    Minha missão é incessante, mas sinto que não desbravaria o infinito azul se não me obrigassem. Se tivesse, porém, companhia de alguém, sinto que notaria em cada detalhe, cada toninha e baleia que me cerca neste turquesa abaixo, cada gaivota que adeja no ciano acima. Notaria cargueiros, cruzeiros e iates, deixando para trás só espuma e a tristeza. O mesmo Atlântico seria tão mais bonito em sua companhia. A beleza sempre esteve lá, mas só você pode despertá-la.

    Casa, na qual tanto sonhei voltar, sempre me apressou a chegar, por isso a jornada não me gera entusiasmo, pois sei que só lá tenho felicidade. Quem sabe se um dia, um certo alguém me libertasse, minha nova habitação seria o vasto atlas deste mundo, pois sei que sozinho irei mais rápido, porém contigo, iria mais longe, à distância correspondente ao nosso amor, ao infinito.


Toinho Stark do Cangaço, 11/08/2025, 04:53-05:44


(Calma, eu não fui sequestrado por ninguém, além de mim mesmo, pois meu "porto" é meu cativeiro. Não consigo aproveitar as caminhadas que dou ou as viagens que faço, pois sinto pressa em apenas voltar logo para casa, onde tenho minhas boas companhias, meus amigos no Discord. Por isso escrevi esta súplica, de um dia ter alguém que me dê gosto de estar nestes lugares, para que eu possa aproveitar a viagem e não só o ponto de partida.)

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Sentido da vida

    Queria estar agora deitado sobre a grama, ao fim da noite, iluminado apenas pela Lua, vendo as estrelas pingando o negro do céu, com seus pontos de luz perfurando a escuridão desta cela, o mundo que nos prende. Estaria sorrindo, ouvindo Clair de Lune, de mãos dadas com você, me sentindo imenso, por ter tua presença, e pequeno, por estar irrestrito de um teto, exposto à imensidão deste universo. Queria que aqueles que chamo de "amigo" pudessem nos rodear e admirar este paraíso conosco. 

    Que sei, meus olhos deixariam correr lágrimas num momento tão puro e lindo que poderia descrever isso apenas como "viver", pois palavras seriam pequenas ante aos sentimentos que carregaria. Sentiria na pele que estes minutos teriam mais valor que todos os anos que passei na Terra. Queria compartilhar com todos que considero especiais tal momento de felicidade, pois sei que também merecem a paz de espírito que proporciona.

    Você estaria ao meu lado, tal qual aquela lua ao céu, orbitaria sua vida e te traria inspiração. Como toques nas teclas de um piano trazem música, que meu toque em seus dedos te traga conforto, do mesmo nível que sinto ao som de Debussy. De costas ao solo, de forma que somente o som da noite e da natureza acariciasse nossos ouvidos, compenetrando-nos de que tal arpejo é nosso utópico paraíso.

    Fosse eu capaz de passar um dia assim, me convenceria de que cumpri a vida. E pensar que algo tão simples sempre esteve lá e, enquanto houver planeta, ainda estará, grátis para quem quiser aproveitar. Por tal bagatela, é absurdo pensar que tantos não farão isso antes de seu tempo se acabar. Tal qual o céu, estaria rodeado de estrelas, que trazem brilho à minha vida, mesmo quando tão distantes. Com seus nomes começando com A, D, L ou qualquer outra letra, fazem a constelação da minha vida.

    Meu recurso mais valioso é o tempo, pois sei que dele não posso acumular, nem ganhar, apenas me foi dada uma quantia desconhecida e estou obrigado a gastar. Dito isto, gastaria todo ele com você, sem me arrepender, pois estou pagando ninharia por tamanho valor que é te ter ao meu lado. Queria caminhar numa floresta, com o luar penetrando suas folhas, segurando sua elegante mão, sentindo, pela primeira vez, que venci na vida.

    Sentido, talvez, a vida não tenha, mas somos nós que buscamos dá-lo, então ditamos a ela nossas interpretações. Tudo isto que falei parece ter tanto significado, ser puro, imaculado, talvez até requintado, mas nada disso teria sentido sem você ao meu lado.


Toinho Stark do Cangaço, 04/08/2025, 04:50-05:30. 

domingo, 8 de junho de 2025

Os primeiros passos

    Quando eu tinha quatro anos de idade, estava no final do Jardim 1, era em 2004. Num dia, li um cartaz na parede, sozinho, então minha mãe chamou os professores para mostrar que eu era capaz de ler já nesta idade. Como consequência, fui pulado direto para a Alfabetização, onde cursei sem problemas, mesmo tendo ficado tão doente que as memórias da enfermidade simplesmente foram apagadas de minha mente, sem deixar vestígios. Se não fosse por minha mãe me contando, eu nunca saberia que um dia estive assim. Logo você perceberá que minha mente se tornou profissional em apagar estes momentos até os cinco anos de idade, mas, em algum ponto, apagou junto o código de como executar esta operação, deixando os novos traumas guardados e relembrando-os amiúde. Conto porém um que ficou parcialmente vivo, com trechos vívidos e outros que sumiram sem deixar rastros. Talvez tenha sido melhor assim, pelo que contam e o que lembro, as coisas não acabariam bem, do contrário.

    Ninguém imaginava que eu, ainda na Alfabetização e, depois, na Primeira Série, passaria os piores dias escolares de minha vida. Uma das pedagogas tinha distúrbios psicológicos e até falava sozinha na rua, perdia fácil a paciência e descontava em seus alunos, será que tinha parentesco com a senhorita Trunchbull? Talvez. Um dia que eu terminei a atividade de classe antes da largada, não suportei ficar quieto sentado na banca, queria minha liberdade, ocupar minha mente com algo, nunca gostei de ficar parado. Decidi, então, por me levantar e caminhar pela sala, só queria gastar energia e tempo enquanto esperava ser liberado, mas, aparentemente, isto era um crime de guerra previsto pela convenção de Genebra, pois logo fui caçado implacavelmente por ela, que me perseguiu pela sala de um lado ao outro. Tomei isso como um desafio e comecei a correr, tentando escapar dela o máximo possível, mas minha inexperiência não me fez durar muito. Foi então que eu descobri que também não podia me divertir fora de casa, quando ela segurou forte meu braço, até machucar, gritou em meu ouvido, até ensurdecê-lo, e me arrastou pela sala enquanto me debatia. A cada esforço que eu fazia, seus dedos fincavam mais, com tanta força que até hoje os sinto. Sua mão apertava meu braço esquerdo e puxava, parecia que o arrancaria, não sei como minhas juntas aguentaram, bem que dizem que crianças são resistentes. De lá, o destino foi a sala do Jardim 1, minha velha companheira que tanto brinquei e vi filmes infantis, mas hoje eu não pertencia a ali, apenas fui jogado lá pois a tal educadora não era competente o bastante para lidar comigo, terceirizando então para alguém que podia, creio eu. Lá, por mais contraditório que possa parecer, eu estava calmo, analisando o lugar e vendo as crianças brincando, tendo nostalgia e novidade misturados. O choque não me permitia esboçar muita reação, eu percebi que não era mais brincadeira, era algo diferente, seriedade, mas não sentia medo, pensava em como ser mais eficiente na próxima vez.

    Pode acreditar que eu tentei melhor nas próximas vezes. No começo, ela só me arrastava para a sala do Jardim 1, foi assim até o meio da Primeira Série, quando ela começou a se tornar mais truculenta, me segurando pelos dois braços e chacoalhando para todos os lados, eu tentava me libertar, mas nada dava jeito. Também tinha vezes que ela me pegava pela cabeça com as duas mãos e me balançava, gritando comigo e reclamando, acho até que uma vez ela me disse que eu deveria morrer. Mas isso não acontecia mais na sala de aula, ela me levou, arrastado, para lugares sem ninguém, não consigo lembrar bem o que ela fez comigo lá, mas, numa das vezes, ela me levou para a quadra, arrastado pelas escadas, eu topava o joelho em cada degrau, doía. De lá, não lembro mais o que ela fez, mas foi algo tão terrível que minha mente simplesmente apagou. Então, acabei por aprender técnicas para dificultar seu trabalho, dentre elas, bati no braço dela que me segurava, entendi como fazer meu corpo parecer mais pesado, me arrastando pelo chão, nem sabia de atrito, mas já usava seus conceitos, tentei pular e me debater para todos os lados, me segurei na porta e em qualquer coisa que conseguisse agarrar para que ela não me levasse, até pedir por favor e me demonstrar submisso, cada dia testando uma técnica diferente, mas nada me salvou do destino, como se cada dia fosse uma repetição e eu tentasse achar um novo jeito de fugir dela. Outra vez ela me trancou no almoxarifado, acho que por diversas vezes, tenho uma memória bem vívida de lá, consigo descrever o cenário de cabeça. Ficava sentado numa cadeira giratória, que ficava girando de tédio por um tempo. À minha frente, a porta azul, de tranca larga e antiquada, contrastava com as cores pastel debotadas das paredes. À esquerda uma janela de metal, com várias divisões, e uma escrivaninha, mas não olhava muito para este lado, não queria que a tentação da liberdade caísse sobre mim. À direita, um fichário com quatro ou cinco gavetas, de cor cinza azulada, com algumas pastas de papel branco e amarelo escuro sobre ele. Logo mais à direita, um birô, que no dia desta memória, estava com uma maquete de uma orla, cheia de coqueiros, bebês de plástico pequenos com roupas de papel crepom, simulando uniformes de times de futebol, fazendo o papel pedestres, alguns prédios e uma avenida à beira-mar, parecia imitar Piedade ou Boa Viagem. Tudo isso estava construído sobre uma folha de isopor toda pintada, com direito a um mar. Prestei atenção até nas estruturas metálicas que seguravam a mesa, os canos dobrados, a cor branca deles. Minha mãe demorou para descobrir as punições, pois eles me tiravam do castigo antes dela chegar, mesmo quando descobriu, demorou uma semana, me vendo punido todos os dias, para fazer algo. Já perto do fim da Primeira Série, eu, que sempre amei ir à escola, me trancava no quarto para não ir, fazia de tudo para não chegar neste caos que minha vida se tornou. No começo, ela achava que eu estava sendo desobediente e birrento, mas minha tia e uma vizinha, ao qual ela foi pedir conselhos, a alertaram, uma semana depois de eu ter feito esse escândalo diário, de que talvez alguém estivesse mexendo comigo na escola. Só então ela clareou a mente e intercedeu por mim. O diretor, porém, sabia de tudo e jogava a culpa nas crianças, não na professora, nitidamente com distúrbios mentais. Com isso, minha mãe esperou que eu terminasse o ano letivo e me colocou noutra escola. Quando cheguei na outra instituição, a professora quis pegar no meu braço, sem nenhuma intenção ruim, apenas para me guiar, mas isso me fez sacodir o braço violentamente e gritar: "NÃO ENCOSTA EM MIM!". Então elas perceberam o que eu passei.

    Te digo que não sei suas motivações para me tratar tão mal, porém tenho teorias em conjunto com minha mãe. Ela tinha dado aula ao meu primo alguns anos antes, este sim foi um terror e causou o caos na escola, talvez ela esperava que eu fosse do mesmo jeito e queria descontar em mim tudo que não conseguiu descontar nele, que já não estudava mais lá. De certa forma, eu perdoo a professora em questão, pois ela, nitidamente, tinha distúrbios psicológicos e não respondia bem por si. Aquele que não posso perdoar é o diretor, que, alegadamente, sadio, sabia das atrocidades que ocorriam em sua escola e ainda acobertava-as, colocando a culpa nos alunos. Pois crianças de quatro a oito anos de idade são perfeitamente responsáveis pelos seus atos, enquanto adultos e idosos não, segundo sua mentalidade impecável. Ele já faleceu e não, não foi por minhas mãos, não sou esse tipo de pessoa. Imagino quem foi o próximo bode expiatório quando eu saí daquele inferno. Sinceramente, hoje, só de imaginar que pessoas sofrem coisas piores que isso me dá vontade de vomitar, como as pessoas conseguem ser tão cruéis a este ponto? Ou pior, acobertar tal crueldade? A ignorância é uma dádiva apenas quando ela não nos afeta. Depois, disso tudo, ainda experienciei muitas prisões, desta vez em meu quarto, pois minha mãe fazia isso quando não queria me bater, mas também não queria me deixar impune. Eu já lutava pela minha liberdade nesta época, jogando meu ombro contra a porta e colocando todo o meu peso para tentar quebrá-la, sem sucesso. Pensava até em pular da janela, que ficava no primeiro andar, e cair dos cinco metros de altura no chão para escapar do cárcere. Nada disso me livrava de ficar lá, naquele vazio branco, preso, até minha mãe voltar, passando horas ali assim como passei na escola, quem diria.

    Ajudar a superar, nada vai, porém meço hoje os impactos de tais ações. Na época, eu era só uma criança, na minha visão, não existia certo ou errado, apenas real, essa era a minha realidade. Eu não sabia que o que ela fazia era errado, nem que ela não tinha esse direito, afinal, minha mãe também me punia de diversas formas quando eu fazia algo que a desagradava, mesmo que eu não entendesse o motivo. Hoje em dia, ainda sinto as consequências dessa realidade, se alguém segurar forte no meu braço, é capaz de levar um soco ou uma reação violenta de mim, é automático, fora do meu controle. Ainda consigo ouvir os gritos dela em meus ouvidos, ecoando nos meus pesadelos. Com isso, acabei por perder toda aquela vontade e energia que eu tinha, me tornando frio e contido, inerte talvez, agora sou punido por isso, pelo mundo que deixa para trás aqueles sem atitude ou iniciativa. Hoje tenho dificuldades de tomar decisões sem a comprovação dos outros, como se ainda temesse ser punido por agir naturalmente, fora dos padrões da sociedade. Tenho medo de magoar as pessoas, talvez porque penso que elas virão até mim e farão o mesmo que ela fez. Quando era pequeno, fui punido por ser muito ativo, energético e alegre, hoje sou punido por ser inerte, quieto e triste. Afinal, o que preciso fazer para não ser punido? Qual versão de mim consegue viver em paz? Pois, ao que o mundo me mostrou, nenhuma.



Toinho Stark do Cangaço, 03-08/06/2025

(Eu era só uma criança, na minha visão, não existia certo ou errado, apenas real)

(Quando era pequeno, fui punido por ser muito ativo, energético e alegre, hoje sou punido por ser inerte, quieto e triste. Afinal, o que preciso fazer para não ser punido? Qual versão de mim consegue viver em paz? Pois ao que o mundo me mostrou, nenhuma.)

(Sinceramente, hoje, só de imaginar que pessoas sofrem coisas piores que isso me dá vontade de vomitar)

(Eu perdoo a professora em questão, pois ela, nitidamente, tinha distúrbios psicológicos e não respondia bem por si. Aquele que não posso perdoar é o diretor, que, alegadamente, sadio, sabia das atrocidades que ocorriam em sua escola e ainda acobertava-as, colocando a culpa nos alunos. Pois crianças de quatro a oito anos de idade são perfeitamente responsáveis pelos seus atos, enquanto adultos e idosos não, segundo sua mentalidade impecável.)

(Então, acabei por aprender técnicas para dificultar seu trabalho, dentre elas, bati no braço dela que me segurava, entendi como fazer meu corpo parecer mais pesado, me arrastando pelo chão, nem sabia de atrito, mas já usava seus conceitos, tentei pular e me debater para todos os lados, me segurei na porta e em qualquer coisa que conseguisse agarrar para que ela não me levasse, até pedir por favor e me demonstrar submisso, cada dia testando uma técnica diferente, mas nada me salvou do destino, como se cada dia fosse uma repetição e eu tentasse achar um novo jeito de fugir dela)

segunda-feira, 2 de junho de 2025

O fim das traduções no blog

    Calma, baixa essa arma, vamos conversar. Depois de muito tempo, decidi tomar uma medida drástica. Não haverão mais traduções de músicas neste blog. O motivo? Eu estou criando um blog só para postar essas traduções, assim fica bem mais fácil de acompanhar as postagens que não são de música das de música. Então, lhes apresento as Traduções do DTUPA, onde você poderá acompanhar tudo que eu já traduzi e as novas traduções também. Novas traduções só serão postadas lá.

    Foi eterno enquanto durou, foi sincero nosso amor, mas chegou ao fim. Como já dizia Bell Marques.

domingo, 1 de junho de 2025

Translation: Lenine - O último pôr-do-Sol

    I love this song, the melody, the lyrics, everything is so catchy and perfect. I had to translate it to english as it's another masterpiece by the brazillian singer and composer Lenine, and I love his work, not only because we were born in the same state (Pernambuco), but also because he's such a talented singer, player and composer. His messages need to be appreciated by the whole world and there's no better way to do it than by translating it all to english. The song's name means "The last sunset", and it indeed feels like it.

    The lyrics are showing the melancholy of the lyrical subject after a break up, expressing his sorrow whilst everything around him is a reminder of his beloved one. That feeling that the World is all gone and you feel abandoned, alone amidst a crowd, unimportant. The lyrical subject is clearly missing that beloved one, feeling like the last man in the world, on the day that "the Sun" (The light that illuminates his heart) died.

    This song gives me goosebumps when I hear. Also, there's a great play on words that can't work that well in englsih, so I'll explain it here: "A Lua nascendo por entre os fios dos teus cabelos, por entre os dedos da minha mão passaram certezas e dúvidas". The hard part of translating it is that there are several messages within the same string of lyrics. Literally, it means "The Moon rising between the wires/strands of your hair, between the fingers in my hands, passed certanties and doubts". But there are several sentences in subtext, like: "The Moon rising between the (pole) wires", "The Moon rising between the strands of your hair", "The Moon rising between my fingers", "The strands of your hair between my fingers", "Between my fingers passed certanties and doubts", "Between the strands of your hair passed certanties and doubts". That is a mastery of words that I'm yet to get close to, but I admire profoundly.

    With no further ado, let's translate:


Literal translation:

The wave still breaks at the beach

Sea foam mixes with the wind

On the day that you went away

I kept on missing what wasn't even gone

Even remembering what I didn't live

Thinking on the two of us


On the day that you went away

I kept on missing what wasn't even gone

Even remembering what I didn't live

Thinking on the two of us


I remember the shell in your ears

Bringing the sound of the sea on the sand

On the day that you went away

I stayed alone, watching the Sun die

Between the ruins of Santa Cruz*

Remembering the two of us


On the day that you went away

I stayed alone, watching the Sun die

Between the ruins of Santa Cruz*

Remembering the two of us


The abandoned buildings

The empty roads

Burnt oil, the beams on the sand

The Moon rising between the strands of your hair

Between the fingers on my hand

Certanties and doubts passed 


'Cause on the day that you went away

I stayed alone in this world, without having anyone else

The last man on the day that the Sun has died

'Cause on the day that you went away

I stayed alone in this world, without having anyone else

The last man on the day that the Sun has died

'Cause on the day that you went away

I stayed alone in this world, without having anyone else

The last man on the day that the Sun has died



Translation to sing:

The wave still breaks at the beach

Sea foam mixes with the wind

On the day that you went away

I kept on missing what wasn't even gone

Remembering even what I hadn't lived

Thinking on us


On the day that you went away

I kept on missing what wasn't even gone

Remembering even what I hadn't lived

Thinking on us


I remember the shell in your ears

Bringing the sound of the sea on sand

On the day that you went away

I stayed alone, watching the Sun die

Between the ruins of Santa Cruz*

Remembering us


On the day that you went away

I stayed alone, watching the Sun die

Between the ruins of Santa Cruz*

Remembering us


The buildings all abandoned

The roads with no one

Burnt oil, the beams on the sand

The Moon rising between the strands of your hair

Between the fingers on my hand

Passed certanties and doubts


'Cause on the day that you went away

I stayed alone in this world, without having anyone

The last man on the day that the Sun has died

'Cause on the day that you went away

I stayed alone in this world, without having anyone

The last man on the day that the Sun has died

'Cause on the day that you went away

I stayed alone in this world, without having anyone

The last man on the day that the Sun has died



*It is (probably) refering to the Fort Orange (Also known as "Fort of Santa Cruz de Itamaracá", but popularly called "Fort Orange"), it's located in the island of Itamaracá, Pernambuco, Brazil. The structure was abandoned for a long time until reformed recently, still in a partially ruined state. It's a historical fort that played an important role during the dutch invasions of the portuguese colonies, in the XVII century, recaptured by brazillinas eventually.


Lyrics: Lenine / Lula Queiroga

Translation: Toinho Stark do Cangaço, 01/06/2025

Tradução: Andrea Bocelli - Con te partirò

    Esta é uma das óperas mais lindas de se ouvir. Eu não podia, simplesmente, deixar de traduzir um romance tão belo e puro, interpretado por uma das melhores vozes contemporâneas, que é o Andrea Bocelli.

    Não só passei muita roupa ao som dessa música, como cantei bastante. Sonhando com uma amada me acolhendo nos braços, enquanto nós, num navio, cortávamos os mares até o infinito azul que nos cerca, tão perfeito. Enfim, fugindo das minhas fantasias de "Liebestraum" (Que é o nome de uma música do Liszt, "Liebestraum no. 3", significa "Sonho de amor" e é uma composição belíssima, se quiser ouvir, não tem letra, então não precisa de tradução. Apenas sinta a emoção), devo dizer que os sentimentos dessa música são ímpares, composta por Francesco Sartori e Lucio Quarantotto, e expressa na perfeita voz de Bocelli. Apenas apreciem.

    Sobre Andrea Bocelli, ele tem um glaucoma congênito. Desde seu nascimento, seu nervo ótico se deteriorava. Aos 12 anos, ficou completamente cego após uma partida de futebol. Independente das dificuldades, seguiu em frente, na mesma idade em que ficou completamente cego, venceu a primeira competição musical, ganhando o prêmio Margherita d'Oro, interpretando "O sole mio". Desde então, tem uma carreira promissora e está nos seus 66 anos de idade.

    Estou colocando uma tradução para cantar como se alguém tivesse talento suficiente para ousar tentar, mas enfim, está aí, caso queira.

    Sem mais delongas, à tradução:


Tradução literal:

Quando estou sozinho

Sonho com o horizonte

E fico sem palavras

Sim, eu sei que não há luz

Num quarto quando falta o sol

E você não está aqui comigo, comigo


Acima, nas janelas

Mostra a todos o meu coração

Que acendestes

Fechado dentro de mim

A luz que

Você encontrou pela estrada


Contigo partirei

A países que eu ainda não

Vi e vivi com você

Agora os viverei

Contigo partirei

Em navios pelo mar

Que eu sei

Não, não, não existem mais

Contigo eu os viverei


Quando estás distante

Sonho com o horizonte

E fico sem palavras

E eu, sim sei

Que estás comigo, comigo

És minha lua, tu estás aqui comigo

Meu sol, tu estás aqui comigo, comigo

Comigo, comigo


Contigo partirei

A países que eu ainda não

Vi e vivi com você

Agora os viverei

Contigo partirei

Em navios pelo mar

Que eu sei

Não, não, não existem mais

Contigo eu os viverei

Contigo partirei

Em navios pelo mar

Que eu sei

Não, não, não existem mais

Contigo eu os viverei

Contigo partirei

Eu, contigo!


Tradução para cantar:

Quando estou sozinho

Sonho com o horizonte

E fico sem palavras

Sim, eu sei que não há luz

Num quarto quando falta o sol

E aqui não estás tu comigo, comigo


Acima, nas janelas

Mostra a todos o meu coração

Que acendestes

Preso dentro de mim

A luz que

Encontraste pela estrada


Com ti, partirei

A países que eu ainda não

Vi e vivi com você

Agora os viverei

Com ti, partirei

Em navios pelo mar

Que eu sei

Não, não, não existem mais

Contigo eu os viverei


Quando estás distante

Sonho com o horizonte

E fico sem palavras

E eu, sim sei

Que estás comigo, comigo

Tu és minha lua, estás aqui comigo

Meu sol, estás aqui comigo, comigo

Comigo, comigo


Com ti, partirei

A países que eu ainda não

Vi e vivi com você

Agora os viverei

Com ti, partirei

Em navios pelo mar

Que eu sei

Não, não, não existem mais

Contigo eu os viverei

Com ti, partirei

Em navios pelo mar

Que eu sei

Não, não, não existem mais

Contigo eu os viverei

Com ti, partirei

Eu, contigo!


Letra: Francesco Sartori / Lucio Quarantotto

Tradução: Toinho Stark do Cangaço, 01/06/2025