sábado, 11 de abril de 2026

Não há culpados

    Ninguém sabe o que o futuro aguarda. Foi por isso que, quando conheci uma dona moça, que um amigo meu tinha apresentado, não sabia o que o destino nos traria. Começando do começo, temos eu, uma pessoa depressiva e que, mesmo com amigos, se sentia extremamente vazio. O problema é que eles não supriam nem a presença física, nem o carinho e o romance que faltavam em minha vida, por isso que não eram suficientes, nunca poderiam ser. Daí, após anos procurando alguém, após uma pessoa que só foi desgraça em minha vida porque eu baixei minha guarda (movido pelos conselhos dos meus amigos), após diversas outras que eu me afastei antes que pudessem se tornar um desastre, veio uma que não tinha nada disso.

    Errou porém minha intuição. Ela era perfeita, nossas conversas fluíam bem e nós tínhamos muitos gostos e interesses em comum. Mesmo o que não concordávamos, maduramente conversávamos, era uma pessoa sem redflags. Nas três semanas que interagimos a partir daquela primeira conversa, fomos muito felizes e eu fui criando os laços com ela. Até nos encontramos pessoalmente e foi tudo bem, rimos, nos divertimos e não senti ter feito nenhum mal a ela. Ela também não me causou mal algum. Conversamos muito depois disso.

    Mas foi justamente na noite após o encontro que aconteceu o primeiro "problema". A questão é que ela já dava sinais de que não estava pronta para voltar a um relacionamento. Depois de tantos tóxicos que ela já tinha passado recentemente, talvez não teria como consertar as dores com um novo amor, mas sim com introspecção. Ainda tentamos resolver as coisas, eu fiz o possível e impossível para manter a fogueira acesa, mas era fútil desde o começo, apenas não percebi.

    Eu vi o fim se aproximando, sem nenhum de nós ter realmente errado. Ela então disse que não pretendia entrar em um relacionamento sério tão cedo. Me disse até que seria injusto para mim se eu ficasse me esforçando, o que demonstra que ela tem bom senso e apenas estava tentando entender o que se passava com seus sentimentos. Não havia mais barganha neste ponto, só aceitação. Ela realmente precisava deste tempo para pensar em si e eu respeito. Tudo isso apenas me faz pensar o que a levou procurar um relacionamento desde o começo, a esperança de que alguém poderia consertar algo que só ela tinha as ferramentas? Não a culpo, tal qual Jesus disse: "Perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem".

    Paguei com meu tempo todo esse aprendizado. Como se alguém, que controla os pauzinhos na Terra, quisesse que eu passasse por mais um sofrimento, apenas trazendo uma novidade para a mesa. Estou, de novo, só, triste e mais desesperançoso que antes. Vi uma oportunidade perfeita se perder sem nenhum de nós ter errado. Olhando para trás, se era para terminar nesta conclusão, seria melhor nem ter começado, o tempo não volta atrás e as cicatrizes não desaparecem. Porém entendo que dela não veio intenção alguma de me ferir, são apenas consequências das circunstâncias. Espero, do fundo do meu coração, que ela possa ser feliz no caminho que trilhar. Já eu, se não encontrar amor, nunca serei feliz no meu.


Toinho Stark do Cangaço, 12/04/2026, 02:33-02:50



sexta-feira, 10 de abril de 2026

O peso da bondade

    Ser uma pessoa boa é o que nos define em caráter. Porém, digo com convicção que é, também, o maior desafio que uma pessoa pode passar. Como se sua Via Crucis fosse a própria vida, uma pessoa boa parece atrair pessoas ruins. Tal qual a Lua atrai a água e causa as marés, os bons atraem os maus e os fazem crescer e prosperar.

    Bom cidadão, no sentido mais cru, é estar à mercê da maldade alheia, ser explorado, abusarem de sua gentileza, ser feito de trouxa e/ou ser apenas um degrau na escada. Digo de experiência própria, se afirmo que 90% das pessoas que encontrei neste mundo são ruins, é porque estou sendo generoso, pois aposto que 5% dos que estão do lado bom nem são tão bons assim, talvez eu só não tive tempo o bastante com estas pessoas para colocá-las do outro lado.

    É desta maldade que tanto falo, renitentemente, mesmo sem ser entendido. De tantas pessoas que conheci e só me exploraram e de tantas que meus amigos conheceram e tiveram o mesmo fim, me fazem crer que a honestidade é sinônimo de perda. E sei que quando acho uma pessoa boa, esta não há de querer-me ao lado, mesmo pensando o mesmo de mim.

    Uma pessoa boa neste mundo é difícil. Atesto que procurei tantas, mas estas já têm seus círculos de relacionamento bem fechados e eu não posso pertencer a eles. Dentre as exceções, estão meus poucos e seletos amigos, aos quais são como nitrogênio em minha vida. Estão presentes em tudo, mas se tenho somente eles, serei sufocado por esta falta imensa de algo tão vital. Por isso é uma jornada tão difícil arrumar uma namorada. Pois de todas as vinte e poucas mulheres solteiras que conheci desde quando comecei a procurar, somente duas me permiti tentar algo, as outras eram claramente problemáticas. Destas, uma foi tão ruim, que nem sei como deixei se prolongar tanto, já a outra não estava no tempo certo.

    Tortura é procurar pessoas boas num mundo tão ruim. Um mundo que, se explodisse amanhã, seria um feito utilitarista ao Universo. Dito isto, a procura continua, mas é difícil acreditar que hei de encontrar alguém que me trate com o mínimo de dignidade que um cachorro mereceria e que queira estar comigo.


Toinho Stark do Cangaço, 10/04/2025, 03:54-04:11


(É estar à mercê da maldade alheia, ser explorado, abusarem de sua gentileza, ser feito de trouxa e/ou ser apenas um degrau na escada)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Música: Minha queda

[Verso 1]

Me sinto perdido

Num oceano vazio

Com ombro caído

E de presença vil


Na cama eu penso

Levantar não posso

Me sinto mais tenso

Porém sem remorso


[Ponte]

Sou uma mensagem apagada

Sou uma palavra não dita

Efêmero na memória

Ser cortado da história


[Refrão]

Em queda livre!

Um cemitério de trens

Um pássaro que vive

Na gaiola de quem?


Sou camada de ozônio

O mendigo na sarjeta

Fugaz como seu Antônio

PP-SPD


[Verso 2]

A caixa no canto

Parece castigo

"Não é para tanto"

Disse meu amigo


Sou mão anônima

No cimento fresco

Olho para cima

Procuro contexto


[Ponte]

Sou borboleta no para-brisa

Sou o semáforo queimado

Também sou o amigo que avisa

E, mesmo assim, é ignorado


[Refrão]

Eu não sou livre

E não me sinto bem

A dor que contive

Não dói em ninguém


Sou os contrails

Uma vela que queima

Largado a meus meios

PP-SPD



Letra: Toinho Stark do Cangaço, 06/04/2026, 14:04-14:39


6-10 SP

(PP-SPD)

sábado, 4 de abril de 2026

Tal qual a estação

    Quando pensei que as coisas tinham se organizado em minha vida, descobri que, novamente, tenho um texto de resposta a um texto bonito e esperançoso que escrevi no passado. Quem diria que, desta vez, não foram os espinhos da flor, as mentiras da pessoa ou o ódio que eu tive contra sua maldade. Desta vez foi porque mesmo com tudo para dar certo, as coisas simplesmente não puderam ser. Como diz Ney Matogrosso em "Sangue latino": "Os ventos do Norte não movem moinhos".

    Que a vida gosta de ser ingrata comigo, acho que muitos textos meus já falaram. De tudo que já passei e todo mal que alguém já me fez ou que o azar me condenou, parece que nada foi feito para dar certo. Cada dia mais me aproximo de, fielmente, acreditar no que Fagner disse na música "Noturno (Coração alado)". Sinto que esta luz que havia em cada ponto de partida está, aos poucos, me deixando e não consigo evitar. A esperança de que uma pessoa que seja boa o bastante e queira ficar comigo se esvai aos poucos a cada passo em falso.

    Vai correndo meu tempo, pelas minhas mãos, enquanto tento entender onde chegar. Não tenho outras ambições senão formar uma família, porque todo o resto me parece vazio e sem sentido sem o objetivo principal. Não adianta que eu seja uma pessoa boa, nem se eu fosse perfeito, pois precisaria achar outra pessoa que, além de boa, gostasse de mim. Mas onde que eu acharia uma mulher boa, solteira e que tivesse interesse num relacionamento agora? Pessoas boas e solteiras são como uma rua que a COMPESA não esburacou ou um lugar não abandonado no Recife Antigo.

    Dar o esforço necessário e ser infrutífero é algo clichê em minha vida. Tantas pessoas ruins que eu consegui evitar um relacionamento antes mesmo de começar, tantas outras que eu evitei que os sentimentos escalassem por ver que a pessoa era ruim. Tudo isso para chegar numa pessoa perfeita, incrível e que também me vê dessa forma e então os sentimentos dela mudarem por ela buscar outros objetivos na vida. É como se não importa o quão perfeito fosse esse encaixe, ainda assim haveria algo que não permitiria acontecer. Não consigo imaginar um cenário em que alguém conseguisse ter uma chance maior de dar certo que este, como terei esperanças?

    Certo de que terei de buscar outra pessoa, me encho de incertezas quanto ao caráter de quem encontrarei no futuro. Já que esta foi a única exceção dentre centenas de mulheres solteiras que cruzei o caminho ou pude conversar que realmente valeria a pena. Cada partida, despedida ou sumiço associo com uma música. Seja a Picolé (Calcinha Preta - Um degrau na escada), Raposa (Leonardo Sullivan - Motivos), Condessa (Djavan - Se...) ou a Depressiva (Altemar Dutra - Que queres tu de mim). Às vezes até mudo qual música se encaixa melhor, conforme vou pensando em alternativas, mas, desta vez, nem sei qual música associar. Pensei em "Chris Isaak - Wicked game", talvez seja a mais próxima até o momento. Mas, o fato é que, tal qual dizia Adoniram Barbosa, em "Bom dia tristeza": "Já estava ficando até meio triste de estar tanto tempo longe de você". A tristeza e a solidão se reencaixam em minha vida, tomando, de volta, seu lar por vinte e cinco anos. Então não se preocupem, minha vida voltou a ser ruim, então vou continuar escrevendo. Provavelmente por um bom tempo.


Toinho Stark do Cangaço, 04/04/2026, 16:01-16:49


Pós-nota: O título é porque, tal qual a estação Caruaru, eu fico vendo os outros enquanto estou ali, negligenciado. Quando alguém, finalmente, liga para mim de forma positiva e não predatória, faz uma obra paliativa e me devolve à mercê do antigo destino que estava. E eu acabei esquecendo de adicionar um trecho no texto que fizesse referência a isso.


(Então não se preocupem, minha vida voltou a ser ruim, então vou continuar escrevendo. Provavelmente por um bom tempo.)

(Cada partida, despedida ou sumiço associo com uma música, seja a Picolé (Calcinha Preta - Um degrau na escada), Raposa (Leonardo Sullivan - Motivos), Condessa (Djavan - Se...) ou a Depressiva (Altemar Dutra - Que queres tu de mim). Às vezes até mudo qual música se encaixa melhor, conforme vou pensando em alternativas, mas, desta vez, nem sei qual música associar. Pensei em "Chris Isaak - Wicked game", talvez seja a mais próxima até o momento.)


04/04/2026

domingo, 29 de março de 2026

Um dia em Caruaru

    Um sábado de Sol, foi como tudo começou. Com um trajeto cheio de obras, na BR-232, que me atrasaram mesmo quando saí de casa mais de meia hora antes do normal. Perdi a conta de quantas borboletas se chocaram contra o para-brisas do carro no trajeto, mas sinto muito por elas. Passando por Vitória de Santo Antão, Pombos, Serra das Russas, Gravatá, Bezerros, Encruzilhada de São João e, finalmente, Caruaru. Foram mais de 130km de viagem até chegar no Pátio de Eventos Luiz Gonzaga. De lá, caminhei até a antiga estação ferroviária de Caruaru, ao qual essa história começa a ser contada por fotos.

    Dia tão diferente e único: Um sábado, 28 de Março. Pela primeira vez na vida fui encontrar alguém que nunca tinha visto pessoalmente, mas que tinha o poder de virar minha vida ao avesso. Eram, porém, 14:24 e ela não estava lá, combinamos às 14:00. Às 14:50 ela me avisa que ainda está no ônibus, que tinha demorado para passar, e que chegará em quinze minutos. Pacientemente esperei até que o Torino S número 3659, da Coletivo Transportes, chegasse à parada, sem nem saber em qual ônibus viria. A vi de azul e preto, vindo sorridente para me acompanhar, enquanto eu descia a escadaria. O alívio de saber que estava tudo certo era mais forte do que minha capacidade de conter o sorriso. Me oferecendo a mão, sorridente me olhava, esta pessoa que tanto me cativava e cujo semblante demonstrava empolgação. Ali começava uma jornada. Logo depois, me ofereceria também alguns chicletes e pirulitos, mas acabei, cordialmente, recusando.

    Para as escadarias do Monte do Bom Jesus nos dirigimos, enquanto ela jogava comigo uma adivinhação do meu nome verdadeiro. Conseguindo adivinhar numa das esquinas que dava no começo da subida. Subimos com algumas paradas para descanso, enquanto conversávamos sobre a vida e o dia. Ao chegarmos no topo, nos dirigimos ao mirante, que ficava à esquerda, enquanto comentávamos sobre como o lugar era propício para esquartejar alguém. Talvez nosso humor seja mesmo quebrado, mas e daí? Seguimos até lá, ainda de mãos dadas. Subimos uma escada apertada, dando um jeito de manter unidos os dedos. Lá conversamos e criamos coragem. Pude beijar sua bochecha e pedi que deitasse em meu colo. Pude acariciar seus cabelos, endurecidos por creme, com um cheiro adocicado que me cativava. Era como se o tempo parasse ali, até que outras pessoas chegaram e decidimos nos endireitar. Olhamos a vista, tirei algumas fotos e voltamos, eventualmente, para a frente da igreja. Já haviam sinais de chuva e nos apressamos para ver o cemitério que ficava do outro lado do morro.

    Se a chuva deu sinais, é porque ela vem. Nos molhando aos poucos, se tornando cada vez mais intensa. Corremos para a cobertura das árvores, que não podiam proteger por completo. Enxuguei seus braços com minha camisa e cuidei para que não se resfriasse. Quando a chuva acalmou, nos viramos para descer a escadaria enquanto eu cantava "Dia Branco" do Geraldo Azevedo para ti. Tomávamos cuidado com a água para não escorregar, enquanto descíamos lentamente, de mãos dadas. No caminho, enquanto ela ajeitava a calça que vivia caindo, peguei uma flor de uma das árvores, que já vinha tentando encontrar há um tempo, e dei a ela, para ter de recordação. Caminhamos e vimos um portão com uma escrita bem peculiar que talvez indicasse que era uma garagem, não tenho certeza, não ficou muito claro [ALÉRGICOS: Contém ironia]. Até que sentamos numa plataforma perto da estação, onde pudemos conversar e refletir bastante. Onde pude dizer a ela que os medos nos paralisam, nos impedem de viver e que a única coisa que devemos temer somos nós mesmos.

    Lembrar de tudo foi incrível, dali levantamos e fomos à parada de ônibus, onde esperei com ela até que a linha 136 passasse novamente. Com muita espera, conversa e mãos dadas, esperamos por mais de meia hora até que dois ônibus passassem, juntos, da mesma linha. Ela, ironicamente, acabou pegando o 3639, que era o que chegou atrás, mas não antes de me dar um beijo na testa de despedida. Dois, na verdade. Se ela tivesse pego o da frente, iria no mesmo ônibus que veio até aqui, mas as coincidências nem sempre acontecem. Com isso pude voltar para casa numa longa jornada, tentando processar tudo que aconteceu neste dia. Depois nos conversamos mais por chamada de voz, mas aí são outras águas, movendo outros moinhos.


Toinho Stark do Cangaço, 29-30/03/2026








segunda-feira, 16 de março de 2026

Música: No time (Epitaph of a young adult)

[Verse 1]

Life's been complicated

Lots of broken dreams

That had me baited

To success, as it seems


If love would grow on trees

I'd have a forest of delusions

Pleading, on my knees

For merciful relations


[Bridge]

So much time was wasted

So many lies I've heard

Jobs that I've worked

Weighing my world


[Chorus]

When you're adolescent, there's no time

And there's no time like adolescence


[Verse 2]

Suffocated by tasks

I lie on the bed

Hands on my chest

Why is it so bad?


Now I'm so exhausted

I've got so much to do

But the old is unresolved

And now there's something new


[Bridge]

I've delayed until now

Because they told me so

How can they be so foul?

Now I've got nowhere to go


[Chorus]

When you're adolescent, there's no time

And there's no time like adolescence


[Verse 3] (More intense voice)

Should've never waited

Should've never changed

Should've never listened

Should've never delayed


I knew what I wanted

I knew what I loved

I knew it all the way

I knew it all the way


[Chorus]

When you're adolescent, there's no time

And there's no time like adolescence


[Whispered]

(Forest of delusions, lies and wasted time)

(Why have I waited? Why even try)



Toinho Stark do Cangaço, 14-15/03/2026


(When you're adolescent, there's no time; and there's no time like adolescence)

(If love grew on trees, I'd have a forest of delusions)


    A origem dessa frase, ao qual eu repito na música, é bem peculiar. Tive um sonho que já tinha tido antes, mas, desta vez, levei mais a sério.

    No sonho eu estava mexendo em objetos pessoais de outra pessoa. Não sei de quem, exatamente, mas, pelo comportamento das pessoas que estavam comigo no sonho e o sentimento que pairava no ar, parecia ser de alguém que já tinha falecido. Algum jovem adulto, amigo de um dos meus primos.

    Nos pertences dele, dentro de umas sacolas plásticas de supermercado, eu encontrava uma tira de papel (Como se fosse rasgada de um caderno), com uma frase escrita à caneta, em caixa alta, dizendo "When you're adolescent, there's no time and there's no time like adolescence" (Quando você é adolescente, não tem tempo; e não tem tempo/momento igual à adolescência). Estava junto a um trenzinho em escala N, que eu pegava e analisava, era na cor azul e parecia ser um modelo europeu (Tinha uma locomotiva elétrica e vários vagões prancha). No trem tinha algumas alavancas minúsculas para mexer e operar e, dessa segunda vez que eu sonhei, eu decidi tentar mexer. Quando coloquei no chão, ele começou a ir para frente, parar e ir para trás, quase não saía do lugar, repetindo este ciclo.

domingo, 1 de março de 2026

A maravilha da solidão

    Eu não consigo explicar para as pessoas como que "estar sozinho", para mim, não é a mera ausência de alguém ao meu lado, mas sim um quadro quase clínico, onde experiencio algo que o DOI-CODI não usava por achar cruel demais. Talvez porque isso é tão parte da minha rotina que eu achava que todo mundo sentia as mesmas coisas quando ficava sozinho, mas, pelo visto, eu tenho o dom de ser acometido pelas piores combinações possíveis, do mesmo jeito que nasci no Nordeste e com alergia a poeira. Eu cansei de tentar explicar que ficar sozinho é como uma tortura para mim, então vou, minunciosamente, descrever o que eu passo quando fico sozinho. Porque eu achei que seria senso comum ver a solidão como uma agonia maior que um tinido nos ouvidos ou acertar o dedo mindinho na quina repetidas vezes. Mas, pelo visto, existem pessoas que romantizam a solidão, então te convido a experienciar, comigo, estes maravilhosos sintomas.

    Detesto ficar sozinho, mas é porque meu corpo continua, desesperadamente, procurando algo para se conectar. Quando não é hora de dormir, mas não tenho ninguém para conversar, fico andando pela casa, conversando comigo mesmo, organizando as coisas que já estão no lugar, procurando algo para fazer para que meu cérebro não hiper-foque em alguma besteira ou volte ao ciclo do que acontece à noite. Ando para um lado, depois para o outro, bufo, escalo o sofá, tento tocar o teto pela milésima vez, procuro imperfeições microscópicas na parede, planejo mil coisas que eu provavelmente nunca irei fazer, começo a estudar um assunto que nunca me interessou ou faço qualquer coisa. Eu só preciso me distrair para não transformar essa crise de ansiedade em ataque de pânico. Depois disso vem a noite, quando meus amigos já foram dormir e só tenho a mim, nesta casa. Se bem que daqui a pouco meu pai se acorda e ele é a única pessoa que me faz preferir estar só do que acompanhado. 

    Estar na cama, só, é uma resenha à parte. Acho incrível que tem gente que só deita numa cama e dorme, sem passar por uma ou duas horas de tortura, às vezes cinco. São todas as noites que estou deitado e me sento do nada, esmurrando os lençóis e bagunçando o cabelo, gritando em silêncio e tentando entender o que se passa na minha cabeça que não consigo me acalmar. Mas tudo isso só acontece quando estou sozinho. Às vezes me contorço, é contra minha vontade, às vezes meu corpo treme por alguns minutos, rolo da cama para cair no chão de propósito, coloco o travesseiro no lado oposto à cabeceira, viro para um lado e para o outro, para ver de qual lado meu nariz está menos entupido, tenho dificuldade de respirar, que fica cada vez mais pesado, meus olhos viajam sem rumo, em alta velocidade, pelo quarto, fico irritado, angustiado ou frustrado. Este é um resumo de coisas que acontecem quando estou tentando dormir sozinho. De tanto que, enquanto tentava dormir, soquei a parede para descarregar essa raiva que eu nem sei de onde vem, começo a achar que as dores em meu punho não são artrite, são consequência. Quando finalmente consigo dormir, ainda acordo diversas vezes, virando para os lados ou eufórico. Posso fechar ou abrir os olhos, não muda, demoro a voltar a dormir. Às vezes tenho paralisia do sono, que, por ventura, gosta de acontecer quando estou sufocando, sem conseguir respirar por alguma obstrução na garganta, talvez causada pela posição nada ergonômica que consegui dormir ou pela asma que já conheço de infância. Por muitas vezes pensei que morreria ali, mas consegui me mexer pouco antes de apagar completamente, por sorte, talvez.

    Sozinho no quarto, tudo fica melancólico, vazio e sem sentido. É o momento que mais me pergunto se viver vale a pena, porque todos estes maravilhosos sintomas me fazem querer fugir disso ao máximo possível. Na minha vida tem um conceito bem nítido, chamado de "dormir de tristeza", é quando estou tão triste que o peso da emoção me faz pegar no sono para não ver as consequências dela. É quando deixou de ser só tristeza e se tornou um peso que me impede de levantar, me deixando imóvel, mas este perdura até quando acordo. O acordar, por sinal, é quando não sinto vontade de levantar da cama, me sinto mais cansado do que quando fui dormir, talvez desmotivado. Um dia acho que só vou decidir não levantar mais e ficar lá até alguém vir me tirar do quarto. Já dormir com minha mãe em locais que tinham poucos quartos para muita gente e não senti nada disso, então sei que me falta companhia. Sei que a culpada disso tudo sempre foi a solidão. Se ela existisse como entidade física, digo com convicção que iria para a cadeia sorrindo se pudesse assassiná-la qualificadamente, com requintes de crueldade. Mas sei que para algumas pessoas, tudo que passo é "só um momento curto, que logo vai se acabar". Porque, para estas pessoas, este período é curti, mas, para mim, é o mais longo do dia.


Toinho Stark do Cangaço, 02/03/2026, 04:20-04:54


(Às vezes me contorço, é contra minha vontade, às vezes meu corpo treme por alguns minutos, rolo da cama para cair no chão de propósito, coloco o travesseiro no lado oposto à cabeceira, viro para um lado e para o outro, para ver de qual lado meu nariz está menos entupido, tenho dificuldade de respirar, que fica cada vez mais pesado, meus olhos viajam sem rumo, em alta velocidade, pelo quarto, fico irritado, angustiado ou frustrado. Este é um resumo de coisas que acontecem quando estou tentando dormir sozinho.)

(De tanto, enquanto tentava dormir, soquei a parede para descarregar essa raiva que eu nem sei de onde vem, acho que as dores em meu punho não são artrite, são consequência)

(Acho incrível que tem gente que só deita numa cama e dorme, sem passar por uma ou duas horas de tortura. São todas as noites que estou deitado e me sento do nada, esmurrando os lençóis e bagunçando o cabelo, gritando em silêncio e tentando entender o que se passa na minha cabeça que não consigo me acalmar. Mas tudo isso só acontece quando estou sozinho)

(Na minha vida tem um conceito bem nítido, chamado de "dormir de tristeza", é quando estou tão triste que o peso da emoção me faz pegar no sono para não ver as consequências dela. É quando deixou de ser só tristeza e se tornou um peso que me impede de levantar, me deixando imóvel, mas este perdura até quando acordo)

(Quando não é hora de dormir, mas não tenho ninguém para conversar, fico andando pela casa, conversando comigo mesmo, organizando as coisas que já estão no lugar, procurando algo para fazer para que meu cérebro não hiper-foque em alguma besteira ou volte ao ciclo do que acontece à noite)

(Iria para a cadeia sorrindo se pudesse assassinar qualificadamente a solidão, com requintes de crueldade)