Por um momento decidi escrever um texto sobre o que não deve ser falado, sobre o tão pessoal que nunca deveria ser dito, mas não tem como evitar. Desta vez o assunto é tão pessoal que nem posso descrever com a riqueza de detalhes que costumo, por isso, vai o enigma que não deve ser decifrado, pois o que importa são os sentimentos contidos nele.
Que a solidão me assola constantemente é algo que já virou senso comum. Qualquer um que me conheça sabe bem disso. O que ninguém sabe, porque não saio contando aos quatro ventos, são os mecanismos que eu uso para lidar com isso quando sou só eu ali. O que faço para remediar esta dor tão forte? O que uso para tentar trazer sentimentos positivos quando tudo está mais negativo que um ânodo? Como transmito minha negatividade para o cátodo? Bem, é através deste ato complexo e, por muitas vezes, dolorido que eu consigo uma gota do que realmente quero.
Machuca bastante, tanto durante e, principalmente, depois. É raro que não sangre, sendo bem honesto. Os tecidos costumam ser bem ásperos e é fácil haver uma queimadura por abrasão vindo deles. Se eu quiser receber o alívio da felicidade, sendo bem honesto, preciso de horas. Toda a preparação, todo o cenário imaginado, todas as dificuldades e cuidados. Até porque é meio complicado remover uma mancha de sangue do tecido. É extremamente cansativo e desencorajador preparar tudo, sendo bem honesto, mas é tudo que eu tenho, então, querendo ou não, é como um fumante guardando o cigarro noutro bairro e ir correndo buscá-lo por não aguentar mais a abstinência.
Ser dependente de tudo isso é complicado. Na verdade, nem sinto mais felicidade com tudo isso porque sou constantemente lembrado, durante toda a execução, que eu só faço isso por conta da solidão. É o mal do saber. Passo o tempo todo lutando contra minha própria vontade de desistir por saber que aquilo não é o que eu quero, apenas a única coisa que tenho no momento. Tem horas que eu só vou até o final pela falácia do custo afundado, porque a vontade de desistir é forte.
Feliz de ter sobrevivido a mais uma sessão, mas triste por todo o resto, sigo minha vida. Não tenho outra forma de conseguir estes sentimentos ainda que nem eu saiba o porquê de precisar tanto tê-los. Existe uma dor implícita em cada tentativa, mas, mesmo ciente de tudo, eu continuo. Depois essa dor vira explícita, no sangue, nos ardores e inflamações. Alguém consegue entender que, se eu parar com isso, eu paro com a única coisa que me dá os sentimentos bons que eu busco? Queria levar uma vida em que não precisasse sangrar para ser feliz, mas como explicaria isso para alguém?
Toinho Stark do Cangaço, 29/10/2026, 14:54-15:16
Pós nota: Eu não sei como descrever isso sem falar, até porque não é só uma coisa, são várias, que causam os mesmos sentimentos bons e ruins. O mais difícil de esconder são as bochechas, porque, apesar de serem muito mais resistentes à abrasão, são a mais aparente quando ficam raladas. Será que a pele de outra pessoa causaria abrasão suficiente para chegar ao mesmo resultado? E quanto a mais eu precisaria esfregar até chegar? São tantas perguntas. Eu só queria ter o lado positivo sem o lado negativo.