A vida parece tão incompleta do jeito que a levo. Sinto como se faltasse metade de mim, então vou explicar, aos mínimos detalhes, esta divisão. É como uma dor fantasma, machucando por ausência, pesando como uma barra, fazendo cair meus ombros. Berro e sangro pois amo algo que não tenho, desde sempre. Se algo faz falta por um mês, um ano ou uma década, imagine por vinte e seis anos? Desde sempre tive amigos, o maior tempo que fiquei sem foi cerca de um ano, começando quando um sumiu e terminando quando um novo apareceu. Não tive tempo o bastante para abstinência e acho que sofri mais por achar ter perdido o que sumiu do que realmente por não ter ninguém. Na época da escola, os amigos eram só para conversar, sempre durante o período escolar. Quando voltava para casa, ficava sozinho, jogando no computador pois meus pais não me permitiam brincar na rua. Me acostumei a jogar sozinho e buscar este tipo de diversão no modo single player. Mas namorada, amor romântico, beijos, dormir de conchinha, alguém sanar minhas inquietudes com um abraço ou cafuné, isto nunca tive. Não confio o suficiente nos meus pais os contar dos meus problemas e meus amigos estão sempre tão longe. O céu bíblico parece tão perto quanto eles, algo bom, porém distante.
Metade de meus sentimentos são dedicados a um tipo de relacionamento, enquanto a outra metade, ao outro. Nos cinquenta por cento de um lado, eu tenho meus amigos, minha família e conhecidos que fazem parte da minha vida. É um relacionamento de respeito, sem desejo sexual, às vezes sem presença física, com diversas limitações lógicas, que ambos concordam em ter. É neste lado que ficam as pessoas que interajo por um amor não romântico ou por coleguismo. Todas suprindo, mais ou menos, a mesma função, isto é: Nos divertirmos juntos em jogos, conversas, estudos ou eventos em grupo. Existe um certo intimismo, podemos debater sobre problemas pessoais, no caso de algumas pessoas, outras eu não confio tanto, como é o caso dos meus pais. Mas o retrato geral é que as pessoas deste grupo têm uma função de me ajudar e serem ajudadas por mim, se divertir juntos em certas atividades, enquanto nada podem fazer em outras.
Que sobra do outro lado? O amor romântico, desde o cafuné, os abraços e encontros, até o lado sexual, que, sendo bem franco, para mim não é tão importante assim. É a presença feminina, de traços que meus amigos não têm ou sentiriam vergonha de demonstrar. Este sorriso bobo ao cruzar olhares, este sentimento de vergonha no começo, que depois se torna desejo, estas flores que brotam na cabeça ao ver uma pessoa tão linda e gentil e saber que esta está em um relacionamento contigo. Esta pessoa doce e meiga que busca uma desculpa para me dar um carinho, tentando conseguir para si um pouco de felicidade e, em troca, me alegrando também. Um toque feminino nesta vida tão majoritariamente masculina, pois aprecio em demasia os traços tipicamente delas. Aprecio suas roupas, seus sapatos, seus estilos de cabelo, suas meias três quartos, sua cintura diferente, pescoço sem gogó, maxilar sutil e mãos menores, delicadas, sua elegância mesmo quando totalmente desarrumada. Pois a beleza feminina é agradável e única, algo que nenhum amigo meu tem e que não adianta minha mãe ter, já que não sou do Alabama.
Me vem, porém, o problema, o lado romântico não tem ninguém, no máximo com uma desilusão que eu já sabia que daria errado antes mesmo de começar. O ponto é que este lado está, por completo, lutando contra mim, por estar vazio. Tal falta faz com que a única forma de manter esta balança equilibrada seria se todas as pessoas do outro lado estivessem, o tempo todo, agindo ao meu favor, sem nunca errarem ou fazerem algo que me deixe mal. O problema é que isto é impossível por dois motivos: O primeiro é que isto é inviável, todos têm suas vidas e seus problemas, seria até injusto cobrar que fizessem tanto por mim, além de ser egoísta e insensível com os problemas que eles também enfrentam; O segundo é que, mesmo se fossem dedicar tanto para equilibrar esta balança, nada impediria que somente uma destas pessoas fizesse algo que desbalanceasse tudo novamente, considerando a natureza falha humana. Inclusive, o segundo motivo já acontece bastante, com meu pai sempre dando um jeito de arruinar meu dia e minha paciência, com a faculdade me drenando emocional e fisicamente, com alguns amigos meus tendo, também, seus problemas e acabando por não poderem me suprir com suas amizades durante aquele tempo. Tudo isso é natural, inevitável.
Falta uma ideia menos colossal, mais lógica. Então, a solução mais simples é achar alguém que preencha este outro lado, para que esta pessoa possa lutar junto de quem está do lado de cá em equilibrar a balança, tirando parte do peso que está no lado romântico, talvez até removendo-o por completo, de tal forma que ela conseguiria, sozinha, jogar a balança para o lado da felicidade, mesmo quando meus amigos não puderem nada me fazer. Mas, talvez, esta última expectativa seja tão irrealista quanto a de meus amigos serem suficientes para equilibrar esta balança, sozinhos. Queria que todos os meus amigos entendessem isso, que o motivo de eles não serem suficientes é porque realmente não dá, estão tentando fazer mais papéis do que qualquer pessoa seria capaz. Também queria que ninguém desmerecesse o quanto essa falta me machuca, que não "menosprezassem minha escolha de ir a uma faculdade de artes, querendo me prender a eles e me fazer desistir do meu sonho" (Quem assistiu "Look Back" sabe da cena que estou falando). Quando se tenta assumir papéis demais, não se faz nenhum bem.
Toinho Stark do Cangaço, 23/02/2026, 03:43-04:47
(Sinto como se faltasse metade de mim, então vou explicar, aos mínimos detalhes, esta divisão)
(Nos cinquenta por cento de um lado, eu tenho meus amigos, minha família e conhecidos que fazem parte da minha vida. É um relacionamento de respeito, sem desejo sexual, às vezes sem presença física, com diversas limitações lógicas, que ambos concordam em ter. É neste lado que ficam as pessoas que interajo por um amor não romântico, todas suprindo, mais ou menos, a mesma função, isto é: Nos divertirmos juntos em jogos, conversas ou eventos em grupo. Existe um certo intimismo, podemos debater sobre problemas pessoais, no caso de algumas pessoas, outras eu não confio tanto, como é o caso dos meus pais. Mas o retrato geral é que as pessoas deste grupo têm uma função de me ajudar e serem ajudadas por mim, se divertir juntos em certas atividades.)
(O ponto é que o lado do romance está, por completo, lutando contra mim, por estar vazio. Tal falta faz com que a única forma de manter esta balança equilibrada seria se todas as pessoas do outro lado estivessem, o tempo todo, agindo ao meu favor, sem nunca errarem ou fazerem algo que me deixe mal. O problema é que isto é impossível por dois motivos: O primeiro é que isto é inviável, todos têm suas vidas e seus problemas, seria até injusto cobrar que fizessem tanto por mim, além de ser egoísta e insensível com os problemas que eles também enfrentam; O segundo é que, mesmo se fossem dedicar tanto para equilibrar esta balança, nada impediria que somente uma destas pessoas fizesse algo que desbalanceasse tudo novamente, considerando a natureza falha humana. Inclusive, o segundo motivo já acontece bastante, com meu pai sempre dando um jeito de arruinar meu dia e minha paciência, com a faculdade me drenando emocional e fisicamente, com alguns amigos meus tendo, também, seus problemas e acabando por não poderem me suprir com suas amizades durante aquele tempo. Tudo isso é natural, inevitável.)
(Então, a solução mais simples é achar alguém que preencha este outro lado, para que esta pessoa possa lutar junto de quem está do outro lado em equilibrar a balança, tirando parte do peso que está no lado romântico, talvez até removendo-o por completo, de tal forma que ela conseguiria, sozinha, jogar a balança para o lado da felicidade, mesmo quando meus amigos não puderem nada me fazer. Mas, talvez, esta última expectativa seja tão irrealista quanto a de meus amigos serem suficientes para equilibrar esta balança, sozinhos.)