Esta é mais uma carta que escrevo aos meus familiares, que jurei proteger lutando pela minha pátria. Um dia fui criança, vi paz, felicidade e cuidado dos meus pais, mas, conforme fui crescendo, a Nação começou a desmoronar ao meu redor. Tensões políticas, brigas e protestos rodeavam cada praça que passava, como se o som dos pássaros fosse substituído por balbúrdia. Aquilo que mais me agradava, agora era meu tormento, as pessoas que admirava, agora perderam o encanto, enquanto eu me tornava as pessoas que criticava.
Guerra, foi o que derivou de tudo isso. Um mundo sem amor e respeito, onde ideais moveram tropas a marchar cegamente contra as outras. Eu, como Bocelli, fui até lá com um sorriso no rosto. Fui ensinado que este era meu dever e devo cumpri-lo acima de tudo, mas mal sabia até onde isto iria. Com isso, meu pequeno mundo de paz, assim como o de muitos outros, onde o Sol nos banhava de vida e os ventos acariciavam nosso rosto, se tornou frio, nublado e barulhento. E pensar que eu viria parar numa cidade que tanto quis visitar, mas não posso aproveitar meio segundo dela, veja, estou vivendo meu sonho, mãe.
É que agora o mundo ganhou um novo rosto, com escombros pelas cidades e fogo pelas planícies. Onde antes tocava música, agora ecoam disparos e explosões, onde haviam crianças brincando, balões, algodão doce e animais correndo, agora se vê tensão, medo e arrependimento. Eu, que na paz tinha nome, família, amigos e liberdade, sou apenas um número dentre os diversos outros que me cercam. Me pergunto como vim parar aqui? Não lembro direito do caminho, somente da partida e do presente. Os estridentes disparos de artilharia que caem ao meu lado são substitutos às propagandas de televisão que me interrompiam, incomodando-me sem proposta alguma.
Como chegamos a isto? Por que reinou desgraça ao mundo que florescia alegria? Nesta guerra, não vale mais a pena lutar, o que estamos ganhando? Avançamos e voltamos como peças num tabuleiro, mas continuamos presos nestas barreiras. É cansativo a rotina de ir e voltar sem ganhar nada, é desumano que este seja meu dia-a-dia. Não parece ter sentido toda esta luta, estou fazendo tudo isso para que alguém que nem conheço ganhe, é isto? É como se tudo que sustenta o peso dessa guerra fossem roldanas de papel, frágeis, mas prendendo-nos às cordas que nos levam para todos os lados, sem sair daquele caminho pré-determinado. Sinto que estou aqui apenas pelos outros, com valor insignificante, um coadjuvante. Só agrado aos que me veem, mas, de resto, não sou visto como humano.
A situação neste caos é complicada, perdemos a cada dia o valor e sentido da vida, com cada morte pesando menos em nossos corações. Parece que nos acostumamos a perder, a tal ponto que até a vitória não significa mais nada, sabemos que depois haverá outra derrota. E, quem diria, ainda estou vivo, mas sinto como se fosse melhor eu ter saído com uma medalha de Coração Púrpura no peito, ao menos estaria longe desse inferno para sempre. A terra não tem mais vida, da forma que as coisas seguem, talvez até a Terra não terá mais vida, se é que não já a perdeu quando largou sua humanidade em prol deste cenário.
Vida e morte se misturam como os escombros de onde, um dia, foram prédios. Cercado aqui por pessoas que viram o fim da guerra, me pergunto como é estar no lugar deles, queria ter a paz que eles têm. Às vezes rezo a quem quer que me ouça para que eu não acorde amanhã, que caia uma bomba em meu alojamento ou uma bala perdida me encontre, pois sei o que George Santayana disse. No estado em que me encontro, somente assim terei, novamente, felicidade.
Toinho Stark do Cangaço, 14/09/2025
(Nesta guerra, não vale mais a pena lutar, o que estamos ganhando? Avançamos e voltamos como peças num tabuleiro, mas continuamos presos nestas barreiras)
(É como se tudo que sustenta o peso dessa guerra fossem roldanas de papel, frágeis, mas prendendo-nos às cordas que nos levam para todos os lados, sem sair daquele caminho pré-determinado)
(Eu, que na paz tinha nome, família, amigos e liberdade, agora sou apenas um número)
(E, quem diria, ainda estou vivo, mas sinto como se fosse melhor eu ter saído com uma medalha de Coração Púrpura no peito, ao menos estaria longe desse inferno para sempre)
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