quarta-feira, 3 de setembro de 2025

E se fosse o fim?

    Espero no sinal para atravessar, tentando voltar para casa após mais um dia. Mas hoje é diferente, coisas diferentes aconteceram e ainda marcam minha mente. Vejo cada Clio, Corsa, HB20, Celta e Corolla que passa na minha frente, cada rosto de cada motorista. Vejo os Millennium V da Mobibrasil, articulados, na linha 2480, vejo um Millennium V de 2023 fazendo a 2437, fito o rosto cansado do motorista e de cada passageiro na janela. Meu caminhar é bem mais lento que o habitual, este dia parece atípico, mas não para mim. Observo um Torino 2018 da Borborema fazendo a linha 331, voltando da Conde da Boa Vista, enquanto duas mulheres correm, lanche na mão, reclamando e rindo do inconveniente do ônibus ter se adiantado. Vejo mendigos no chão, olho cada detalhe dos trapos e roupas, até a bermuda verde com detalhes em azul e amarelo num deles, que dormia na parada. Chego na Agamenon e vejo o Xambá já parado no semáforo. Dou sinal e entro.

    Que será que se passa na cabeça do motorista do 515 da Caxangá? Que parece incomodado e irritado, mas sem explicar nada, respondendo por educação o meu "boa noite", mas parecendo me xingar nas entrelinhas. O Torino 2015 já demonstra sinais de desgaste, assim como eu. Ouço a escola de samba que se tornaram suas portas, janelas e seu elevador, sinais do tempo que afrouxa os parafusos e endurece as borrachas, um dia flexíveis. Tomo meu lugar no chão, no canto do ônibus, onde fica o espaço para deficientes, e começo a escrever um texto. Haviam cadeiras livres, mas hoje, me sento aqui. As pessoas conversam alto, riem, reclamam ou se calam em seus fones de ouvido. Logo estarei em Joana Bezerra, mas nada me entusiasma quanto a isso.

    Não muda a minha percepção quando chego na estação, tem um estande de brinquedos, várias pessoas vendendo água, pipoca, é como uma feira livre. Há um menino, uns 10 anos, com camisa do Sport e cheirando cola. No corredor polonês, salgados, pacotes e vendedores de passagem de metrô, são como atravessadores. Na tela, uma propaganda que nem me importei de ler, apenas sua luz verde me chamou a atenção. Na catraca, uma das máquinas com uma sacola por cima, significa que não funciona, até hoje tem um cavalete numa das passagens, que, por meses, não foi consertada. O guarda da estação já cansado, o chão um pouco molhado, a escada rolante sem funcionar, nada extraordinário. A plataforma cheia, sinal de que logo chegará o metrô. 

    Haja a experiência que for, ainda é de se surpreender com a condição precária dos metrôs da CBTU, o 15 chega para nos atender, em estado caquético e ar-condicionado quase sem funcionar. Normalmente, ninguém existiria ali, mas, hoje, eles existem, a mulher de pele morena e cabelos cacheados que conversa, rindo bastante, com a de pele clara e cabelos pretos lisos. O rapaz que aparenta voltar do trabalho, com barba rala, parece cansado, mas se mantém firme. O menino com camisa de escola pública que volta sozinho, sabe-se lá o porquê. O céu lá fora não tem estrelas, mas reparo tudo que posso, até na luz queimada de um poste.

    Amanhã pode não existir para certas pessoas, talvez seja a última vez que vejo estes rostos, carros, metrôs e prédios, essas ruas, calçadas e situações. Esta noite volto para casa, mas minha cabeça me preocupa. A vida é tão súbita, em segundos somos criados ou destruídos, não temos certeza de nada, exceto da morte. Meus passos lentos em direção ao meu lar é medo de ser a última vez que passo aqui, por isto, estou vendo cada detalhe, pessoa, animal, bola de futebol, luz acesa ou motociclista usando o celular, vivendo cada segundo como se fosse o último.


Toinho Stark do Cangaço, 03/09/2025

Este texto não é sobre a vida ser breve e vamos aproveitá-la, mas sim sobre um suicida voltando para casa sem saber se hoje ele terá coragem, por não aguentar mais tudo que tormenta sua cabeça. Pode-se ver que mesmo sendo rodeado de coisas e notando tudo, ninguém nota ele, nem darão falta se ele não estiver mais lá, o que contribui para seus pensamentos, que não são interrompidos por nada ou ninguém. 

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