domingo, 8 de junho de 2025

Os primeiros passos

    Quando eu tinha quatro anos de idade, estava no final do Jardim 1, era em 2004. Num dia, li um cartaz na parede, sozinho, então minha mãe chamou os professores para mostrar que eu era capaz de ler já nesta idade. Como consequência, fui pulado direto para a Alfabetização, onde cursei sem problemas, mesmo tendo ficado tão doente que as memórias da enfermidade simplesmente foram apagadas de minha mente, sem deixar vestígios. Se não fosse por minha mãe me contando, eu nunca saberia que um dia estive assim. Logo você perceberá que minha mente se tornou profissional em apagar estes momentos até os cinco anos de idade, mas, em algum ponto, apagou junto o código de como executar esta operação, deixando os novos traumas guardados e relembrando-os amiúde. Conto porém um que ficou parcialmente vivo, com trechos vívidos e outros que sumiram sem deixar rastros. Talvez tenha sido melhor assim, pelo que contam e o que lembro, as coisas não acabariam bem, do contrário.

    Ninguém imaginava que eu, ainda na Alfabetização e, depois, na Primeira Série, passaria os piores dias escolares de minha vida. Uma das pedagogas tinha distúrbios psicológicos e até falava sozinha na rua, perdia fácil a paciência e descontava em seus alunos, será que tinha parentesco com a senhorita Trunchbull? Talvez. Um dia que eu terminei a atividade de classe antes da largada, não suportei ficar quieto sentado na banca, queria minha liberdade, ocupar minha mente com algo, nunca gostei de ficar parado. Decidi, então, por me levantar e caminhar pela sala, só queria gastar energia e tempo enquanto esperava ser liberado, mas, aparentemente, isto era um crime de guerra previsto pela convenção de Genebra, pois logo fui caçado implacavelmente por ela, que me perseguiu pela sala de um lado ao outro. Tomei isso como um desafio e comecei a correr, tentando escapar dela o máximo possível, mas minha inexperiência não me fez durar muito. Foi então que eu descobri que também não podia me divertir fora de casa, quando ela segurou forte meu braço, até machucar, gritou em meu ouvido, até ensurdecê-lo, e me arrastou pela sala enquanto me debatia. A cada esforço que eu fazia, seus dedos fincavam mais, com tanta força que até hoje os sinto. Sua mão apertava meu braço esquerdo e puxava, parecia que o arrancaria, não sei como minhas juntas aguentaram, bem que dizem que crianças são resistentes. De lá, o destino foi a sala do Jardim 1, minha velha companheira que tanto brinquei e vi filmes infantis, mas hoje eu não pertencia a ali, apenas fui jogado lá pois a tal educadora não era competente o bastante para lidar comigo, terceirizando então para alguém que podia, creio eu. Lá, por mais contraditório que possa parecer, eu estava calmo, analisando o lugar e vendo as crianças brincando, tendo nostalgia e novidade misturados. O choque não me permitia esboçar muita reação, eu percebi que não era mais brincadeira, era algo diferente, seriedade, mas não sentia medo, pensava em como ser mais eficiente na próxima vez.

    Pode acreditar que eu tentei melhor nas próximas vezes. No começo, ela só me arrastava para a sala do Jardim 1, foi assim até o meio da Primeira Série, quando ela começou a se tornar mais truculenta, me segurando pelos dois braços e chacoalhando para todos os lados, eu tentava me libertar, mas nada dava jeito. Também tinha vezes que ela me pegava pela cabeça com as duas mãos e me balançava, gritando comigo e reclamando, acho até que uma vez ela me disse que eu deveria morrer. Mas isso não acontecia mais na sala de aula, ela me levou, arrastado, para lugares sem ninguém, não consigo lembrar bem o que ela fez comigo lá, mas, numa das vezes, ela me levou para a quadra, arrastado pelas escadas, eu topava o joelho em cada degrau, doía. De lá, não lembro mais o que ela fez, mas foi algo tão terrível que minha mente simplesmente apagou. Então, acabei por aprender técnicas para dificultar seu trabalho, dentre elas, bati no braço dela que me segurava, entendi como fazer meu corpo parecer mais pesado, me arrastando pelo chão, nem sabia de atrito, mas já usava seus conceitos, tentei pular e me debater para todos os lados, me segurei na porta e em qualquer coisa que conseguisse agarrar para que ela não me levasse, até pedir por favor e me demonstrar submisso, cada dia testando uma técnica diferente, mas nada me salvou do destino, como se cada dia fosse uma repetição e eu tentasse achar um novo jeito de fugir dela. Outra vez ela me trancou no almoxarifado, acho que por diversas vezes, tenho uma memória bem vívida de lá, consigo descrever o cenário de cabeça. Ficava sentado numa cadeira giratória, que ficava girando de tédio por um tempo. À minha frente, a porta azul, de tranca larga e antiquada, contrastava com as cores pastel debotadas das paredes. À esquerda uma janela de metal, com várias divisões, e uma escrivaninha, mas não olhava muito para este lado, não queria que a tentação da liberdade caísse sobre mim. À direita, um fichário com quatro ou cinco gavetas, de cor cinza azulada, com algumas pastas de papel branco e amarelo escuro sobre ele. Logo mais à direita, um birô, que no dia desta memória, estava com uma maquete de uma orla, cheia de coqueiros, bebês de plástico pequenos com roupas de papel crepom, simulando uniformes de times de futebol, fazendo o papel pedestres, alguns prédios e uma avenida à beira-mar, parecia imitar Piedade ou Boa Viagem. Tudo isso estava construído sobre uma folha de isopor toda pintada, com direito a um mar. Prestei atenção até nas estruturas metálicas que seguravam a mesa, os canos dobrados, a cor branca deles. Minha mãe demorou para descobrir as punições, pois eles me tiravam do castigo antes dela chegar, mesmo quando descobriu, demorou uma semana, me vendo punido todos os dias, para fazer algo. Já perto do fim da Primeira Série, eu, que sempre amei ir à escola, me trancava no quarto para não ir, fazia de tudo para não chegar neste caos que minha vida se tornou. No começo, ela achava que eu estava sendo desobediente e birrento, mas minha tia e uma vizinha, ao qual ela foi pedir conselhos, a alertaram, uma semana depois de eu ter feito esse escândalo diário, de que talvez alguém estivesse mexendo comigo na escola. Só então ela clareou a mente e intercedeu por mim. O diretor, porém, sabia de tudo e jogava a culpa nas crianças, não na professora, nitidamente com distúrbios mentais. Com isso, minha mãe esperou que eu terminasse o ano letivo e me colocou noutra escola. Quando cheguei na outra instituição, a professora quis pegar no meu braço, sem nenhuma intenção ruim, apenas para me guiar, mas isso me fez sacodir o braço violentamente e gritar: "NÃO ENCOSTA EM MIM!". Então elas perceberam o que eu passei.

    Te digo que não sei suas motivações para me tratar tão mal, porém tenho teorias em conjunto com minha mãe. Ela tinha dado aula ao meu primo alguns anos antes, este sim foi um terror e causou o caos na escola, talvez ela esperava que eu fosse do mesmo jeito e queria descontar em mim tudo que não conseguiu descontar nele, que já não estudava mais lá. De certa forma, eu perdoo a professora em questão, pois ela, nitidamente, tinha distúrbios psicológicos e não respondia bem por si. Aquele que não posso perdoar é o diretor, que, alegadamente, sadio, sabia das atrocidades que ocorriam em sua escola e ainda acobertava-as, colocando a culpa nos alunos. Pois crianças de quatro a oito anos de idade são perfeitamente responsáveis pelos seus atos, enquanto adultos e idosos não, segundo sua mentalidade impecável. Ele já faleceu e não, não foi por minhas mãos, não sou esse tipo de pessoa. Imagino quem foi o próximo bode expiatório quando eu saí daquele inferno. Sinceramente, hoje, só de imaginar que pessoas sofrem coisas piores que isso me dá vontade de vomitar, como as pessoas conseguem ser tão cruéis a este ponto? Ou pior, acobertar tal crueldade? A ignorância é uma dádiva apenas quando ela não nos afeta. Depois, disso tudo, ainda experienciei muitas prisões, desta vez em meu quarto, pois minha mãe fazia isso quando não queria me bater, mas também não queria me deixar impune. Eu já lutava pela minha liberdade nesta época, jogando meu ombro contra a porta e colocando todo o meu peso para tentar quebrá-la, sem sucesso. Pensava até em pular da janela, que ficava no primeiro andar, e cair dos cinco metros de altura no chão para escapar do cárcere. Nada disso me livrava de ficar lá, naquele vazio branco, preso, até minha mãe voltar, passando horas ali assim como passei na escola, quem diria.

    Ajudar a superar, nada vai, porém meço hoje os impactos de tais ações. Na época, eu era só uma criança, na minha visão, não existia certo ou errado, apenas real, essa era a minha realidade. Eu não sabia que o que ela fazia era errado, nem que ela não tinha esse direito, afinal, minha mãe também me punia de diversas formas quando eu fazia algo que a desagradava, mesmo que eu não entendesse o motivo. Hoje em dia, ainda sinto as consequências dessa realidade, se alguém segurar forte no meu braço, é capaz de levar um soco ou uma reação violenta de mim, é automático, fora do meu controle. Ainda consigo ouvir os gritos dela em meus ouvidos, ecoando nos meus pesadelos. Com isso, acabei por perder toda aquela vontade e energia que eu tinha, me tornando frio e contido, inerte talvez, agora sou punido por isso, pelo mundo que deixa para trás aqueles sem atitude ou iniciativa. Hoje tenho dificuldades de tomar decisões sem a comprovação dos outros, como se ainda temesse ser punido por agir naturalmente, fora dos padrões da sociedade. Tenho medo de magoar as pessoas, talvez porque penso que elas virão até mim e farão o mesmo que ela fez. Quando era pequeno, fui punido por ser muito ativo, energético e alegre, hoje sou punido por ser inerte, quieto e triste. Afinal, o que preciso fazer para não ser punido? Qual versão de mim consegue viver em paz? Pois, ao que o mundo me mostrou, nenhuma.



Toinho Stark do Cangaço, 03-08/06/2025

(Eu era só uma criança, na minha visão, não existia certo ou errado, apenas real)

(Quando era pequeno, fui punido por ser muito ativo, energético e alegre, hoje sou punido por ser inerte, quieto e triste. Afinal, o que preciso fazer para não ser punido? Qual versão de mim consegue viver em paz? Pois ao que o mundo me mostrou, nenhuma.)

(Sinceramente, hoje, só de imaginar que pessoas sofrem coisas piores que isso me dá vontade de vomitar)

(Eu perdoo a professora em questão, pois ela, nitidamente, tinha distúrbios psicológicos e não respondia bem por si. Aquele que não posso perdoar é o diretor, que, alegadamente, sadio, sabia das atrocidades que ocorriam em sua escola e ainda acobertava-as, colocando a culpa nos alunos. Pois crianças de quatro a oito anos de idade são perfeitamente responsáveis pelos seus atos, enquanto adultos e idosos não, segundo sua mentalidade impecável.)

(Então, acabei por aprender técnicas para dificultar seu trabalho, dentre elas, bati no braço dela que me segurava, entendi como fazer meu corpo parecer mais pesado, me arrastando pelo chão, nem sabia de atrito, mas já usava seus conceitos, tentei pular e me debater para todos os lados, me segurei na porta e em qualquer coisa que conseguisse agarrar para que ela não me levasse, até pedir por favor e me demonstrar submisso, cada dia testando uma técnica diferente, mas nada me salvou do destino, como se cada dia fosse uma repetição e eu tentasse achar um novo jeito de fugir dela)

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