Eu continuo quieto em minha cabana, no meio da mata, relaxando numa cadeira de balanço. O vento lá fora uiva, as folhas balançam e dançam pelo ar, criam uma harmonia musical como um coral e ganzás, tocando a sinfonia da paz. As folhas secas batendo na janela percussionam esta tarde morna, mas ouço junto um som diferente, um regougar que me lembra uma risada. É muito chamativo, não consigo manter minha inércia, preciso averiguar. Quando abro a porta, confirmo o que via em meus pensamentos, mas ainda é surpreendente.
Encontrei uma bela e sorridente raposa, de pelo laranja e branco, com umas bagas em sua boca, como se me trouxesse um presente. Ainda perplexo de ver tal bichinho em minha porta, decido interagir como se fosse humano. Tantos anos de solidão me fazem acreditar que minha única companhia para o resto da vida seria meu velho cão de caça, um spaniel bretão de 12 anos de idade, o segundo que tenho com essa finalidade. Me dirijo à dona raposa, que me olha com a cabeça inclinada, mas sem medo, dizendo: "Como posso lhe ajudar, coisinha fofa?". Talvez eu tenha perdido toda sanidade que me resta, estou tentando falar com um animal tão diferente de mim, praticamente em tudo. Mas, para a minha surpresa, ela entende. Claro que não fala nada, mas sua linguagem corporal diz tudo. Deixo-a entrar em meus aposentos.
Uma leve olhada ao redor para ter certeza de que pode e, logo, entra na casa como se fosse sua. Corria a pobrezinha em busca de sombra e abrigo, encontrando aqui seu aconchego. Dou dois ovos que peguei hoje cedo das minhas galinhas, ela se alimenta calmamente, pondo-os, um a um, na boca, inteiros, depois amassando-os, quebrando-os e engolindo. Fito, calmamente, o animal curioso, enquanto volto à minha cadeira. Alguns minutos depois, ela senta-se à minha frente, seus olhos arregalados parecem me pedir algo. Sinalizo, com dois tapinhas em minhas pernas, que ela pode subir, funcionava com o cachorro quando era pequeno, hoje está grande demais para isso. Ela fica com receio, mas logo sobe, se encolhendo sobre minhas coxas. Posso sentir seu calor, é aconchegante.
Raposa tão dócil que até derreto, audaz, serelepe e muito ousada, eu diria. Mesmo sem palavras dela, consigo ouvir seu coração. Ela que antes parecia tão diferente de mim, agora demonstra semelhanças, ambos querendo descansar sobre esta velha e rangente cadeira, ambos encontrando conforto no outro, quem diria que estaríamos fazendo isso agora? Aqui, juntos, vendo a luz do Sol projetar a janela na parede antes do lusco-fusco. Acaricio o seu corpo macio, aproveito este breve lapso de razão para pensar na brevidade da vida. Não há motivos para evitar algo que se queira mutuamente, por isso, acaricio este pelo macio e morno enquanto o tempo me permite. Não me sinto bem assim há tempos, talvez nunca tenha. A natureza é mesmo surpreendente, pensar que estamos aqui vivendo como um só, mesmo com tudo que nos impede.
Como se fosse mágica, talvez encanto das raposas, pego no sono com ela em meu colo, sentindo seu leve respirar. Começo a sonhar que sou jovem de novo, no auge da adolescência, caçando meus primeiros animais, com ensinamentos do meu pai. Aprendendo a dessecar e aproveitar a carne, assim podemos sobreviver bem alimentados. Então, como mágica, é dia. Acordo lentamente, sentindo a outra janela projetando os raios da alvorada. A raposinha não está mais em meu colo, mas sim andando pela casa e logo que ouve meus movimentos, vem me ver. Digo-a como se falássemos a mesma língua: "Nobre raposa, não sei como te dizer isso, mas não podemos caçar juntos... Veja, eu caço grandes animais para comer, e você pequenos roedores e frutinhas, nossos objetivos são diferentes, até os caminhos que seguiremos". Posso sentir a raposa triste, mas conformada, é como se ela entendesse tudo que digo. Como estamos nos comunicando? Como entendo sua resposta sem que ela fale nada? Não sei, mas nos entendemos e isto é o que importa.
Companhia maravilhosa, mas tenho que seguir minha sina, ou não terei o que comer no arrebol. Na verdade, não jantei na última noite por estar encantado por você, mas não sinto fome ainda. Me pergunto por onde andei enquanto você me procurava. Não sei a resposta, mas queria que nossos caminhos tivessem se cruzado antes. Lhe dou um carinho e desejo boa sorte, pois quero o seu bem, nem sei o motivo, apenas me senti conectado a ti. Com isso, me preparo para a próxima caçada, suponho que você também está com fome, então abro a porta e a digo: "Pode ir, raposinha, viva e seja livre, goze de tudo que há no mundo. Mas se precisar de um lar, esta casa estará de portas abertas, mesmo que não possas mais sentar em meu colo ou dormir em meus braços, este lugar ainda pode acolher o teu repouso.".
Toinho Stark do Cangaço, 19-20/05/2025
(Então abro a porta e a digo: "Pode ir, raposinha, viva e seja livre, goze de tudo que há no mundo. Mas se precisar de um lar, esta casa estará de portas abertas, mesmo que não possas mais sentar em meu colo ou dormir em meus braços, este lugar ainda pode acolher o teu repouso.")
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