domingo, 31 de agosto de 2025

Liberdades e opções

    A nostalgia que tenho é diferente dos demais, pois quando penso em minha infância, lembro-me de vagar pelo YouTube em busca de informações novas ou conhecimentos aleatórios, quando não estava jogando sozinho algo que tinha tanta emoção quanto bolachas água e sal, mas lá estava eu, me divertindo com isso. Era divertido? Claro que não, mas estava sedento por emoções doces, para fugir do amargor da vida cotidiana. Por isso, saber de tudo era uma meta utópica, o que passei toda a infância e adolescência fazendo. Talvez você se pergunte o porquê, então devo dissecar este assunto como uma uva.

    Minha infância foi como entrar na União Soviética, cheio de proibições, restrições e punições que não faziam sentido. Não podia brincar na rua, não necessariamente por causa do perigo ou das más influências das pessoas, mas sim porque quando eu era liberto, não queria mais voltar para casa. Era um animal em cativeiro experienciando a liberdade pela primeira vez, só queria que os raios de Sol e o sereno da noite me cobrissem de algo que não vivia. Então era perseguido pelo meu primo para ser posto para dentro, ou ameaçado pelo meu pai, assim eu era forçado a voltar ao lar, doce lar. Era tão raro que eu fosse liberto que não sabia se veria a rua sem as grades no próximo mês, era etéreo estar nela todos os dias. Chegou tal ponto que eu, com uns sete anos de idade, disse à minha mãe que se ela me deixasse sair mais vezes, eu não daria tanto trabalho para entrar. Até mesmo eu, ainda criança, conseguia perceber a ideia de que se eu fosse livre para fazer algo, conseguiria ter moderação com isso, mas este pedido foi negado.

    Vida é uma palavra muito forte, representa um aproveitamento positivo de nosso tempo na terra, enquanto sobreviver representa o tempo integral que passamos aqui. Estar sozinho fez tanto parte de mim que explorei todas as possiblidades, como comer todos os dias a mesma comida, você pode colocar ketchup, tempero, açúcar ou o que for, mas chega um ponto que você já consumiu todas as combinações umas quinze vezes e não aguenta mais isso, este sou eu com a solidão. Sabe quando você tinha a opção de sair com seus amigos, se divertir, brincar, ir num lugar que te faz bem, interagir com as outras pessoas? Você podia ter ficado em casa, estudando coisas aleatórias e jogando sozinho, em modos single player, mas você foi à outra opção. Eu não tinha essa escolha, só podia ficar em casa, vendo aleatoriedades, estudando, jogando sozinho, brincando sozinho. Não pude interagir com as pessoas na rua, formar laços, aprender relações humanas ou aproveitar meu tempo. Minhas únicas amizades foram na escola, mas eram poucas, com interesses distintos, mal tínhamos o que conversar, não gostávamos das mesmas brincadeiras, então apenas interagíamos quando dava. Com doze anos de idade, eu já criava skins para mods no GTA San Andreas, já até dirigia um Fiat Uno na vida real, dado o tédio que tinha, era só o que me restava. Imagine se sua vida fosse tão tediosa que a melhor atividade que você poderia fazer fosse estudar, ver coisas aleatórias ou jogar o mesmo jogo, com só vinte fases, por dez anos? Pois é, eu não preciso imaginar, eu fui isso.

    Foi uma jornada que eu vivi e você não viveu. Quando almejamos ter algo que o outro tem, queremos magicamente chegar até aquilo, mas não é assim que a vida funciona, existem sacrifícios e você, provavelmente, sempre pode se esforçar para chegar onde aquela pessoa chegou, mas escolheu focar em outras atividades e não há nada de errado com isso. É normal querer ter uma vida diferente, mas é incomum entender que o que aquela pessoa teve de positivo foi alcançado sacrificando coisas que você teve e/ou tem. No entendimento popular, todo mundo viveu as mesmas experiências positivas que você, mas os outros têm coisas que não tens, quando, na verdade, eles sacrificaram muito do que tens para ter o que não tens. É uma troca, pois o tempo marcha só avante, se você gasta tempo com uma coisa, não pode gastar o mesmo tempo com outra. Você podia saber o que eu sei, mas precisaria sacrificar todos os bons momentos que um dia teve, não existe meio termo, ou você viveria uma realidade ou a outra, o tempo não para, logo você não poderia ocupar dois espaços ao mesmo tempo. Sua escolha foi feita, porque seguiste o caminho que te faria feliz e te invejo dessa tua liberdade. Você teve a opção de viver a vida que tenho e decidiu não fazê-la, isso diz muito sobre o quão bom ela é.

    Numa situação dessas, ainda preciso seguir em frente como se soubesse de tudo, mas acho que sou a pessoa mais burra do planeta, todos viveram enquanto dediquei meu tempo a um conhecimento que nada me trouxe de felicidade. Porém seria eu estúpido apenas se fosse minha escolha, o que claramente não foi. Sei que sempre é tempo para mudanças, mas falar de mudar é fácil, fazê-lo é o difícil. Como mudar? O que mudar? Por onde começar? Por que mudar isso? Será que esta mudança realmente trará algo? É uma decisão que precisa ser minha, mas como poderia eu ser capaz de decidir sobre o que não entendo? Ninguém me ensinou como interagir com as pessoas, começar conversas ou o que fazer nos lugares, nem me deram amigos que pudessem ter este papel. Por ter me tornado um adulto, não posso mais errar como podia quando criança, pois todos esperam que eu já saiba fazer algo que nunca foi-me passado. Então é como se eu fosse aprender a dirigir sem nunca ter entrado num carro, sem alguém para ensinar e sem poder errar. Preciso fazer um misto quente, sem pão, sem queijo e sem presunto. Só tem água na geladeira, por sinal, precisa ser grátis e crackeado.

    Cela ou liberdade? Hoje em dia tanto faz, de tão acostumado estou de ficar preso, podes abrir o portão, eu não sairei por ele. Tenho liberdade todos os dias, sempre a almejei, mas quando finalmente consegui, não sabia o que fazer com ela, então fico estagnado. Vejo pessoas não dando valor às coisas que eu tão sonharia em ter ou ter tido, enquanto desejam ter meu conhecimento, que já perdeu total valor para mim. A questão de ter as coisas diariamente é que elas perdem o valor tátil. Meu conhecimento não parece tão valioso pois mal consigo utilizá-lo para algo que me dê vantagem no que quero, é como se fosse mais um troféu, que simboliza muito, mas não tem funcionalidade alguma. Na vida, temos muitas coisas que não damos valor por estarem cotidianamente ali. Você já agradeceu ao vendedor da feira? Às pessoas que te ajudam todos os dias? Ao produtor rural responsável pela comida na sua mesa? Ao policial que garantiu que você estivesse seguro? Aos garis, motoristas de ônibus, de caminhão, médicos, enfermeiros, advogados, engenheiros, pedreiros, guardas de trânsito, professores, jornalistas, bombeiros e dentre outros que fazem parte da sua vida de maneira discreta? Não só uma vez, pois eles fazem por você todos os dias. Eu entendo que não tenha, eu também não agradeço sempre, mas sabe o motivo? Porque nós temos a certeza de que eles estarão lá, mas já pensou se não estivessem? Essa certeza desvaloriza tudo, se você tem comida na mesa todos os dias, é como se aquilo fosse cotidiano, algo garantido, mas é o sonho de muita gente. Gente essa que, caso tivesse comida garantida para o resto da vida, também a desvalorizaria com o tempo. Você tem minha presença como garantido, mas e se eu não mais estivesse lá? Pense, pois isso, um dia, se tornará realidade.


Toinho Stark do Cangaço, 31/08/2025



(Sabe quando você tinha a opção de sair com seus amigos, se divertir, brincar, ir num lugar que te faz bem, interagir com as outras pessoas? Você podia ter ficado em casa, estudando coisas aleatórias e jogando sozinho, em modos single player, mas você foi à outra opção. Eu não tinha essa escolha, só podia ficar em casa, vendo aleatoriedades, estudando, jogando sozinho, brincando sozinho.)

(Estar sozinho fez tanto parte da minha vida que eu explorei todas as possiblidades, como comer todos os dias a mesma comida, você pode colocar ketchup, tempero, açúcar ou o que for, mas chega um ponto que você já comeu todas as combinações umas quinze vezes e não aguenta mais isso, este sou eu com a solidão)

(Você podia saber o que eu sei, mas precisaria sacrificar todos os bons momentos que um dia teve, não existe meio termo, ou você viveria uma realidade ou a outra, o tempo não para, logo você não poderia ocupar dois espaços ao mesmo tempo. Sua escolha foi feita, porque seguiste o caminho que te faria feliz e te invejo dessa tua liberdade. Você teve a opção de viver a vida que tenho e decidiu não fazê-la, isso diz muito sobre o quão bom ela é.)

(Quando almejamos ter algo que o outro tem, queremos magicamente chegar até aquilo, mas não é assim que a vida funciona, existem sacrifícios e você provavelmente sempre pode se esforçar para chegar onde aquela pessoa chegou, mas escolheu focar em outras atividades e não há nada de errado com isso.)

(A questão de ter as coisas diariamente é que elas perdem o valor tátil. Meu conhecimento não parece tão valioso pois mal consigo utilizá-lo para algo que me dê vantagem no que quero, é como se fosse mais um troféu, que simboliza muito, mas não tem funcionalidade alguma.)

(Você já agradeceu ao vendedor da feira? Às pessoas que te ajudam todos os dias? Ao produtor rural responsável pela comida na sua mesa? Ao policial que garantiu que você estivesse seguro? Aos garis, motoristas de ônibus, de caminhão, médicos, enfermeiros, advogados, engenheiros, pedreiros, guardas de trânsito, professores, jornalistas, bombeiros e dentre outros que fazem parte da sua vida de maneira discreta? Não só uma vez, pois eles fazem por você todos os dias. Eu entendo que não tenha, eu também não agradeço sempre, mas sabe o motivo? Porque nós temos a certeza de que eles estarão lá, mas já pensou se não estivessem? Essa certeza desvaloriza tudo, se você tem comida na mesa todos os dias, é como se aquilo fosse cotidiano, algo garantido, mas é o sonho de muita gente. Gente essa que, caso tivesse comida garantida para o resto da vida, também a desvalorizaria com o tempo)

(Ninguém me ensinou como interagir com as pessoas, começar conversas ou o que fazer nos lugares, nem me deram amigos que pudessem ter este papel. Por ter me tornado um adulto, não posso mais errar como podia quando criança, pois todos esperam que eu já saiba fazer algo que nunca foi-me passado. Então é como se eu fosse aprender a dirigir sem nunca ter entrado num carro, sem alguém para ensinar e sem poder errar. Preciso fazer um misto quente, sem pão, sem queijo e sem presunto. Só tem água na geladeira, por sinal, precisa ser grátis e crackeado.)

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Atracado ao porto

    Estou em meu cais, como sempre estive. O mar é agitado e tempestuoso, sinto que só passo por ele para chegar ao meu destino, que é outro porto. Por mim, não teria oceano, nem distância, se tudo que faço na vida é ir de ponto em ponto. Cada vírgula ou detalhe, já conheço de minha doca, mas não largo-a se não contra minha vontade. Aqui tenho meus amigos, minha família e aqueles que tenho algum apreço. Se estou em outro lugar, não me sinto tão confortável, pois só aqui tem algo. 

    Preso no vasto vazio do mar, as ondas vagueiam e me agitam, sei que muito tem ao meu redor, mas é impossível não recair a solidão em meu convés. Sinto saudades do meu doce lar, que, mesmo monótono, prefiro estar, mesmo que, com amigos, nem sempre irei conversar, mesmo que ninguém esteja lá, reconforto-me em ser acolhido por seu simbolismo, de, um dia, ter falado a alguém.

    Em todo este oceano, há vida, aves, peixes, outros navios, mas não sinto vontade de olhá-los, tenho pressa em logo terminar meu compromisso, em todo este céu, também existe movimento, mas nada disso importa, pois longe estou do conforto. Se pudesse, nunca largaria meu porto, porque só vivo mesmo quando lá estou, todo o resto é tédio, corrida e trabalho.

    Minha missão é incessante, mas sinto que não desbravaria o infinito azul se não me obrigassem. Se tivesse, porém, companhia de alguém, sinto que notaria em cada detalhe, cada toninha e baleia que me cerca neste turquesa abaixo, cada gaivota que adeja no ciano acima. Notaria cargueiros, cruzeiros e iates, deixando para trás só espuma e a tristeza. O mesmo Atlântico seria tão mais bonito em sua companhia. A beleza sempre esteve lá, mas só você pode despertá-la.

    Casa, na qual tanto sonhei voltar, sempre me apressou a chegar, por isso a jornada não me gera entusiasmo, pois sei que só lá tenho felicidade. Quem sabe se um dia, um certo alguém me libertasse, minha nova habitação seria o vasto atlas deste mundo, pois sei que sozinho irei mais rápido, porém contigo, iria mais longe, à distância correspondente ao nosso amor, ao infinito.


Toinho Stark do Cangaço, 11/08/2025, 04:53-05:44


(Calma, eu não fui sequestrado por ninguém, além de mim mesmo, pois meu "porto" é meu cativeiro. Não consigo aproveitar as caminhadas que dou ou as viagens que faço, pois sinto pressa em apenas voltar logo para casa, onde tenho minhas boas companhias, meus amigos no Discord. Por isso escrevi esta súplica, de um dia ter alguém que me dê gosto de estar nestes lugares, para que eu possa aproveitar a viagem e não só o ponto de partida.)

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Sentido da vida

    Queria estar agora deitado sobre a grama, ao fim da noite, iluminado apenas pela Lua, vendo as estrelas pingando o negro do céu, com seus pontos de luz perfurando a escuridão desta cela, o mundo que nos prende. Estaria sorrindo, ouvindo Clair de Lune, de mãos dadas com você, me sentindo imenso, por ter tua presença, e pequeno, por estar irrestrito de um teto, exposto à imensidão deste universo. Queria que aqueles que chamo de "amigo" pudessem nos rodear e admirar este paraíso conosco. 

    Que sei, meus olhos deixariam correr lágrimas num momento tão puro e lindo que poderia descrever isso apenas como "viver", pois palavras seriam pequenas ante aos sentimentos que carregaria. Sentiria na pele que estes minutos teriam mais valor que todos os anos que passei na Terra. Queria compartilhar com todos que considero especiais tal momento de felicidade, pois sei que também merecem a paz de espírito que proporciona.

    Você estaria ao meu lado, tal qual aquela lua ao céu, orbitaria sua vida e te traria inspiração. Como toques nas teclas de um piano trazem música, que meu toque em seus dedos te traga conforto, do mesmo nível que sinto ao som de Debussy. De costas ao solo, de forma que somente o som da noite e da natureza acariciasse nossos ouvidos, compenetrando-nos de que tal arpejo é nosso utópico paraíso.

    Fosse eu capaz de passar um dia assim, me convenceria de que cumpri a vida. E pensar que algo tão simples sempre esteve lá e, enquanto houver planeta, ainda estará, grátis para quem quiser aproveitar. Por tal bagatela, é absurdo pensar que tantos não farão isso antes de seu tempo se acabar. Tal qual o céu, estaria rodeado de estrelas, que trazem brilho à minha vida, mesmo quando tão distantes. Com seus nomes começando com A, D, L ou qualquer outra letra, fazem a constelação da minha vida.

    Meu recurso mais valioso é o tempo, pois sei que dele não posso acumular, nem ganhar, apenas me foi dada uma quantia desconhecida e estou obrigado a gastar. Dito isto, gastaria todo ele com você, sem me arrepender, pois estou pagando ninharia por tamanho valor que é te ter ao meu lado. Queria caminhar numa floresta, com o luar penetrando suas folhas, segurando sua elegante mão, sentindo, pela primeira vez, que venci na vida.

    Sentido, talvez, a vida não tenha, mas somos nós que buscamos dá-lo, então ditamos a ela nossas interpretações. Tudo isto que falei parece ter tanto significado, ser puro, imaculado, talvez até requintado, mas nada disso teria sentido sem você ao meu lado.


Toinho Stark do Cangaço, 04/08/2025, 04:50-05:30. 

domingo, 8 de junho de 2025

Os primeiros passos

    Quando eu tinha quatro anos de idade, estava no final do Jardim 1, era em 2004. Num dia, li um cartaz na parede, sozinho, então minha mãe chamou os professores para mostrar que eu era capaz de ler já nesta idade. Como consequência, fui pulado direto para a Alfabetização, onde cursei sem problemas, mesmo tendo ficado tão doente que as memórias da enfermidade simplesmente foram apagadas de minha mente, sem deixar vestígios. Se não fosse por minha mãe me contando, eu nunca saberia que um dia estive assim. Logo você perceberá que minha mente se tornou profissional em apagar estes momentos até os cinco anos de idade, mas, em algum ponto, apagou junto o código de como executar esta operação, deixando os novos traumas guardados e relembrando-os amiúde. Conto porém um que ficou parcialmente vivo, com trechos vívidos e outros que sumiram sem deixar rastros. Talvez tenha sido melhor assim, pelo que contam e o que lembro, as coisas não acabariam bem, do contrário.

    Ninguém imaginava que eu, ainda na Alfabetização e, depois, na Primeira Série, passaria os piores dias escolares de minha vida. Uma das pedagogas tinha distúrbios psicológicos e até falava sozinha na rua, perdia fácil a paciência e descontava em seus alunos, será que tinha parentesco com a senhorita Trunchbull? Talvez. Um dia que eu terminei a atividade de classe antes da largada, não suportei ficar quieto sentado na banca, queria minha liberdade, ocupar minha mente com algo, nunca gostei de ficar parado. Decidi, então, por me levantar e caminhar pela sala, só queria gastar energia e tempo enquanto esperava ser liberado, mas, aparentemente, isto era um crime de guerra previsto pela convenção de Genebra, pois logo fui caçado implacavelmente por ela, que me perseguiu pela sala de um lado ao outro. Tomei isso como um desafio e comecei a correr, tentando escapar dela o máximo possível, mas minha inexperiência não me fez durar muito. Foi então que eu descobri que também não podia me divertir fora de casa, quando ela segurou forte meu braço, até machucar, gritou em meu ouvido, até ensurdecê-lo, e me arrastou pela sala enquanto me debatia. A cada esforço que eu fazia, seus dedos fincavam mais, com tanta força que até hoje os sinto. Sua mão apertava meu braço esquerdo e puxava, parecia que o arrancaria, não sei como minhas juntas aguentaram, bem que dizem que crianças são resistentes. De lá, o destino foi a sala do Jardim 1, minha velha companheira que tanto brinquei e vi filmes infantis, mas hoje eu não pertencia a ali, apenas fui jogado lá pois a tal educadora não era competente o bastante para lidar comigo, terceirizando então para alguém que podia, creio eu. Lá, por mais contraditório que possa parecer, eu estava calmo, analisando o lugar e vendo as crianças brincando, tendo nostalgia e novidade misturados. O choque não me permitia esboçar muita reação, eu percebi que não era mais brincadeira, era algo diferente, seriedade, mas não sentia medo, pensava em como ser mais eficiente na próxima vez.

    Pode acreditar que eu tentei melhor nas próximas vezes. No começo, ela só me arrastava para a sala do Jardim 1, foi assim até o meio da Primeira Série, quando ela começou a se tornar mais truculenta, me segurando pelos dois braços e chacoalhando para todos os lados, eu tentava me libertar, mas nada dava jeito. Também tinha vezes que ela me pegava pela cabeça com as duas mãos e me balançava, gritando comigo e reclamando, acho até que uma vez ela me disse que eu deveria morrer. Mas isso não acontecia mais na sala de aula, ela me levou, arrastado, para lugares sem ninguém, não consigo lembrar bem o que ela fez comigo lá, mas, numa das vezes, ela me levou para a quadra, arrastado pelas escadas, eu topava o joelho em cada degrau, doía. De lá, não lembro mais o que ela fez, mas foi algo tão terrível que minha mente simplesmente apagou. Então, acabei por aprender técnicas para dificultar seu trabalho, dentre elas, bati no braço dela que me segurava, entendi como fazer meu corpo parecer mais pesado, me arrastando pelo chão, nem sabia de atrito, mas já usava seus conceitos, tentei pular e me debater para todos os lados, me segurei na porta e em qualquer coisa que conseguisse agarrar para que ela não me levasse, até pedir por favor e me demonstrar submisso, cada dia testando uma técnica diferente, mas nada me salvou do destino, como se cada dia fosse uma repetição e eu tentasse achar um novo jeito de fugir dela. Outra vez ela me trancou no almoxarifado, acho que por diversas vezes, tenho uma memória bem vívida de lá, consigo descrever o cenário de cabeça. Ficava sentado numa cadeira giratória, que ficava girando de tédio por um tempo. À minha frente, a porta azul, de tranca larga e antiquada, contrastava com as cores pastel debotadas das paredes. À esquerda uma janela de metal, com várias divisões, e uma escrivaninha, mas não olhava muito para este lado, não queria que a tentação da liberdade caísse sobre mim. À direita, um fichário com quatro ou cinco gavetas, de cor cinza azulada, com algumas pastas de papel branco e amarelo escuro sobre ele. Logo mais à direita, um birô, que no dia desta memória, estava com uma maquete de uma orla, cheia de coqueiros, bebês de plástico pequenos com roupas de papel crepom, simulando uniformes de times de futebol, fazendo o papel pedestres, alguns prédios e uma avenida à beira-mar, parecia imitar Piedade ou Boa Viagem. Tudo isso estava construído sobre uma folha de isopor toda pintada, com direito a um mar. Prestei atenção até nas estruturas metálicas que seguravam a mesa, os canos dobrados, a cor branca deles. Minha mãe demorou para descobrir as punições, pois eles me tiravam do castigo antes dela chegar, mesmo quando descobriu, demorou uma semana, me vendo punido todos os dias, para fazer algo. Já perto do fim da Primeira Série, eu, que sempre amei ir à escola, me trancava no quarto para não ir, fazia de tudo para não chegar neste caos que minha vida se tornou. No começo, ela achava que eu estava sendo desobediente e birrento, mas minha tia e uma vizinha, ao qual ela foi pedir conselhos, a alertaram, uma semana depois de eu ter feito esse escândalo diário, de que talvez alguém estivesse mexendo comigo na escola. Só então ela clareou a mente e intercedeu por mim. O diretor, porém, sabia de tudo e jogava a culpa nas crianças, não na professora, nitidamente com distúrbios mentais. Com isso, minha mãe esperou que eu terminasse o ano letivo e me colocou noutra escola. Quando cheguei na outra instituição, a professora quis pegar no meu braço, sem nenhuma intenção ruim, apenas para me guiar, mas isso me fez sacodir o braço violentamente e gritar: "NÃO ENCOSTA EM MIM!". Então elas perceberam o que eu passei.

    Te digo que não sei suas motivações para me tratar tão mal, porém tenho teorias em conjunto com minha mãe. Ela tinha dado aula ao meu primo alguns anos antes, este sim foi um terror e causou o caos na escola, talvez ela esperava que eu fosse do mesmo jeito e queria descontar em mim tudo que não conseguiu descontar nele, que já não estudava mais lá. De certa forma, eu perdoo a professora em questão, pois ela, nitidamente, tinha distúrbios psicológicos e não respondia bem por si. Aquele que não posso perdoar é o diretor, que, alegadamente, sadio, sabia das atrocidades que ocorriam em sua escola e ainda acobertava-as, colocando a culpa nos alunos. Pois crianças de quatro a oito anos de idade são perfeitamente responsáveis pelos seus atos, enquanto adultos e idosos não, segundo sua mentalidade impecável. Ele já faleceu e não, não foi por minhas mãos, não sou esse tipo de pessoa. Imagino quem foi o próximo bode expiatório quando eu saí daquele inferno. Sinceramente, hoje, só de imaginar que pessoas sofrem coisas piores que isso me dá vontade de vomitar, como as pessoas conseguem ser tão cruéis a este ponto? Ou pior, acobertar tal crueldade? A ignorância é uma dádiva apenas quando ela não nos afeta. Depois, disso tudo, ainda experienciei muitas prisões, desta vez em meu quarto, pois minha mãe fazia isso quando não queria me bater, mas também não queria me deixar impune. Eu já lutava pela minha liberdade nesta época, jogando meu ombro contra a porta e colocando todo o meu peso para tentar quebrá-la, sem sucesso. Pensava até em pular da janela, que ficava no primeiro andar, e cair dos cinco metros de altura no chão para escapar do cárcere. Nada disso me livrava de ficar lá, naquele vazio branco, preso, até minha mãe voltar, passando horas ali assim como passei na escola, quem diria.

    Ajudar a superar, nada vai, porém meço hoje os impactos de tais ações. Na época, eu era só uma criança, na minha visão, não existia certo ou errado, apenas real, essa era a minha realidade. Eu não sabia que o que ela fazia era errado, nem que ela não tinha esse direito, afinal, minha mãe também me punia de diversas formas quando eu fazia algo que a desagradava, mesmo que eu não entendesse o motivo. Hoje em dia, ainda sinto as consequências dessa realidade, se alguém segurar forte no meu braço, é capaz de levar um soco ou uma reação violenta de mim, é automático, fora do meu controle. Ainda consigo ouvir os gritos dela em meus ouvidos, ecoando nos meus pesadelos. Com isso, acabei por perder toda aquela vontade e energia que eu tinha, me tornando frio e contido, inerte talvez, agora sou punido por isso, pelo mundo que deixa para trás aqueles sem atitude ou iniciativa. Hoje tenho dificuldades de tomar decisões sem a comprovação dos outros, como se ainda temesse ser punido por agir naturalmente, fora dos padrões da sociedade. Tenho medo de magoar as pessoas, talvez porque penso que elas virão até mim e farão o mesmo que ela fez. Quando era pequeno, fui punido por ser muito ativo, energético e alegre, hoje sou punido por ser inerte, quieto e triste. Afinal, o que preciso fazer para não ser punido? Qual versão de mim consegue viver em paz? Pois, ao que o mundo me mostrou, nenhuma.



Toinho Stark do Cangaço, 03-08/06/2025

(Eu era só uma criança, na minha visão, não existia certo ou errado, apenas real)

(Quando era pequeno, fui punido por ser muito ativo, energético e alegre, hoje sou punido por ser inerte, quieto e triste. Afinal, o que preciso fazer para não ser punido? Qual versão de mim consegue viver em paz? Pois ao que o mundo me mostrou, nenhuma.)

(Sinceramente, hoje, só de imaginar que pessoas sofrem coisas piores que isso me dá vontade de vomitar)

(Eu perdoo a professora em questão, pois ela, nitidamente, tinha distúrbios psicológicos e não respondia bem por si. Aquele que não posso perdoar é o diretor, que, alegadamente, sadio, sabia das atrocidades que ocorriam em sua escola e ainda acobertava-as, colocando a culpa nos alunos. Pois crianças de quatro a oito anos de idade são perfeitamente responsáveis pelos seus atos, enquanto adultos e idosos não, segundo sua mentalidade impecável.)

(Então, acabei por aprender técnicas para dificultar seu trabalho, dentre elas, bati no braço dela que me segurava, entendi como fazer meu corpo parecer mais pesado, me arrastando pelo chão, nem sabia de atrito, mas já usava seus conceitos, tentei pular e me debater para todos os lados, me segurei na porta e em qualquer coisa que conseguisse agarrar para que ela não me levasse, até pedir por favor e me demonstrar submisso, cada dia testando uma técnica diferente, mas nada me salvou do destino, como se cada dia fosse uma repetição e eu tentasse achar um novo jeito de fugir dela)

segunda-feira, 2 de junho de 2025

O fim das traduções no blog

    Calma, baixa essa arma, vamos conversar. Depois de muito tempo, decidi tomar uma medida drástica. Não haverão mais traduções de músicas neste blog. O motivo? Eu estou criando um blog só para postar essas traduções, assim fica bem mais fácil de acompanhar as postagens que não são de música das de música. Então, lhes apresento as Traduções do DTUPA, onde você poderá acompanhar tudo que eu já traduzi e as novas traduções também. Novas traduções só serão postadas lá.

    Foi eterno enquanto durou, foi sincero nosso amor, mas chegou ao fim. Como já dizia Bell Marques.

domingo, 1 de junho de 2025

Translation: Lenine - O último pôr-do-Sol

    I love this song, the melody, the lyrics, everything is so catchy and perfect. I had to translate it to english as it's another masterpiece by the brazillian singer and composer Lenine, and I love his work, not only because we were born in the same state (Pernambuco), but also because he's such a talented singer, player and composer. His messages need to be appreciated by the whole world and there's no better way to do it than by translating it all to english. The song's name means "The last sunset", and it indeed feels like it.

    The lyrics are showing the melancholy of the lyrical subject after a break up, expressing his sorrow whilst everything around him is a reminder of his beloved one. That feeling that the World is all gone and you feel abandoned, alone amidst a crowd, unimportant. The lyrical subject is clearly missing that beloved one, feeling like the last man in the world, on the day that "the Sun" (The light that illuminates his heart) died.

    This song gives me goosebumps when I hear. Also, there's a great play on words that can't work that well in englsih, so I'll explain it here: "A Lua nascendo por entre os fios dos teus cabelos, por entre os dedos da minha mão passaram certezas e dúvidas". The hard part of translating it is that there are several messages within the same string of lyrics. Literally, it means "The Moon rising between the wires/strands of your hair, between the fingers in my hands, passed certanties and doubts". But there are several sentences in subtext, like: "The Moon rising between the (pole) wires", "The Moon rising between the strands of your hair", "The Moon rising between my fingers", "The strands of your hair between my fingers", "Between my fingers passed certanties and doubts", "Between the strands of your hair passed certanties and doubts". That is a mastery of words that I'm yet to get close to, but I admire profoundly.

    With no further ado, let's translate:


Literal translation:

The wave still breaks at the beach

Sea foam mixes with the wind

On the day that you went away

I kept on missing what wasn't even gone

Even remembering what I didn't live

Thinking on the two of us


On the day that you went away

I kept on missing what wasn't even gone

Even remembering what I didn't live

Thinking on the two of us


I remember the shell in your ears

Bringing the sound of the sea on the sand

On the day that you went away

I stayed alone, watching the Sun die

Between the ruins of Santa Cruz*

Remembering the two of us


On the day that you went away

I stayed alone, watching the Sun die

Between the ruins of Santa Cruz*

Remembering the two of us


The abandoned buildings

The empty roads

Burnt oil, the beams on the sand

The Moon rising between the strands of your hair

Between the fingers on my hand

Certanties and doubts passed 


'Cause on the day that you went away

I stayed alone in this world, without having anyone else

The last man on the day that the Sun has died

'Cause on the day that you went away

I stayed alone in this world, without having anyone else

The last man on the day that the Sun has died

'Cause on the day that you went away

I stayed alone in this world, without having anyone else

The last man on the day that the Sun has died



Translation to sing:

The wave still breaks at the beach

Sea foam mixes with the wind

On the day that you went away

I kept on missing what wasn't even gone

Remembering even what I hadn't lived

Thinking on us


On the day that you went away

I kept on missing what wasn't even gone

Remembering even what I hadn't lived

Thinking on us


I remember the shell in your ears

Bringing the sound of the sea on sand

On the day that you went away

I stayed alone, watching the Sun die

Between the ruins of Santa Cruz*

Remembering us


On the day that you went away

I stayed alone, watching the Sun die

Between the ruins of Santa Cruz*

Remembering us


The buildings all abandoned

The roads with no one

Burnt oil, the beams on the sand

The Moon rising between the strands of your hair

Between the fingers on my hand

Passed certanties and doubts


'Cause on the day that you went away

I stayed alone in this world, without having anyone

The last man on the day that the Sun has died

'Cause on the day that you went away

I stayed alone in this world, without having anyone

The last man on the day that the Sun has died

'Cause on the day that you went away

I stayed alone in this world, without having anyone

The last man on the day that the Sun has died



*It is (probably) refering to the Fort Orange (Also known as "Fort of Santa Cruz de Itamaracá", but popularly called "Fort Orange"), it's located in the island of Itamaracá, Pernambuco, Brazil. The structure was abandoned for a long time until reformed recently, still in a partially ruined state. It's a historical fort that played an important role during the dutch invasions of the portuguese colonies, in the XVII century, recaptured by brazillinas eventually.


Lyrics: Lenine / Lula Queiroga

Translation: Toinho Stark do Cangaço, 01/06/2025

Tradução: Andrea Bocelli - Con te partirò

    Esta é uma das óperas mais lindas de se ouvir. Eu não podia, simplesmente, deixar de traduzir um romance tão belo e puro, interpretado por uma das melhores vozes contemporâneas, que é o Andrea Bocelli.

    Não só passei muita roupa ao som dessa música, como cantei bastante. Sonhando com uma amada me acolhendo nos braços, enquanto nós, num navio, cortávamos os mares até o infinito azul que nos cerca, tão perfeito. Enfim, fugindo das minhas fantasias de "Liebestraum" (Que é o nome de uma música do Liszt, "Liebestraum no. 3", significa "Sonho de amor" e é uma composição belíssima, se quiser ouvir, não tem letra, então não precisa de tradução. Apenas sinta a emoção), devo dizer que os sentimentos dessa música são ímpares, composta por Francesco Sartori e Lucio Quarantotto, e expressa na perfeita voz de Bocelli. Apenas apreciem.

    Sobre Andrea Bocelli, ele tem um glaucoma congênito. Desde seu nascimento, seu nervo ótico se deteriorava. Aos 12 anos, ficou completamente cego após uma partida de futebol. Independente das dificuldades, seguiu em frente, na mesma idade em que ficou completamente cego, venceu a primeira competição musical, ganhando o prêmio Margherita d'Oro, interpretando "O sole mio". Desde então, tem uma carreira promissora e está nos seus 66 anos de idade.

    Estou colocando uma tradução para cantar como se alguém tivesse talento suficiente para ousar tentar, mas enfim, está aí, caso queira.

    Sem mais delongas, à tradução:


Tradução literal:

Quando estou sozinho

Sonho com o horizonte

E fico sem palavras

Sim, eu sei que não há luz

Num quarto quando falta o sol

E você não está aqui comigo, comigo


Acima, nas janelas

Mostra a todos o meu coração

Que acendestes

Fechado dentro de mim

A luz que

Você encontrou pela estrada


Contigo partirei

A países que eu ainda não

Vi e vivi com você

Agora os viverei

Contigo partirei

Em navios pelo mar

Que eu sei

Não, não, não existem mais

Contigo eu os viverei


Quando estás distante

Sonho com o horizonte

E fico sem palavras

E eu, sim sei

Que estás comigo, comigo

És minha lua, tu estás aqui comigo

Meu sol, tu estás aqui comigo, comigo

Comigo, comigo


Contigo partirei

A países que eu ainda não

Vi e vivi com você

Agora os viverei

Contigo partirei

Em navios pelo mar

Que eu sei

Não, não, não existem mais

Contigo eu os viverei

Contigo partirei

Em navios pelo mar

Que eu sei

Não, não, não existem mais

Contigo eu os viverei

Contigo partirei

Eu, contigo!


Tradução para cantar:

Quando estou sozinho

Sonho com o horizonte

E fico sem palavras

Sim, eu sei que não há luz

Num quarto quando falta o sol

E aqui não estás tu comigo, comigo


Acima, nas janelas

Mostra a todos o meu coração

Que acendestes

Preso dentro de mim

A luz que

Encontraste pela estrada


Com ti, partirei

A países que eu ainda não

Vi e vivi com você

Agora os viverei

Com ti, partirei

Em navios pelo mar

Que eu sei

Não, não, não existem mais

Contigo eu os viverei


Quando estás distante

Sonho com o horizonte

E fico sem palavras

E eu, sim sei

Que estás comigo, comigo

Tu és minha lua, estás aqui comigo

Meu sol, estás aqui comigo, comigo

Comigo, comigo


Com ti, partirei

A países que eu ainda não

Vi e vivi com você

Agora os viverei

Com ti, partirei

Em navios pelo mar

Que eu sei

Não, não, não existem mais

Contigo eu os viverei

Com ti, partirei

Em navios pelo mar

Que eu sei

Não, não, não existem mais

Contigo eu os viverei

Com ti, partirei

Eu, contigo!


Letra: Francesco Sartori / Lucio Quarantotto

Tradução: Toinho Stark do Cangaço, 01/06/2025