sexta-feira, 28 de março de 2025

Desolação e torpor

(Para fins de "Eu conheço a estupidez humana por tempo o bastante", essa história é ficcional, nenhum elemento dela deve ser replicado no mundo real sem julgamento moral e racional prévio)



    Consegui, finalmente, por atingir uma fortuna de um bilhão de dólares. Muitos sacrifícios fiz nestes sete anos como empresário, mas aqui estou, com uma riqueza inestimável, o topo do mundo. Além de uma mansão, empregadas domésticas, carros e o que mais o dinheiro pode comprar, posso só estalar os dedos que tudo está feito. Me aposentei completamente de mover um músculo senão para aproveitar a vida que me resta. Quem diria que aos trinta já tenho tudo e mais um pouco. Mas minha paz não parece que durará muito, há uma semana que tenho este dinheiro e já tenho más notícias.

    Algo no noticiário fala sobre um meteoro colossal, o maior que impactará a Terra em toda história. Não me preocupo tanto, sinceramente, pois tenho um bunker que, de certo, resistirá ao seu impacto. Lá não dispõe de tantos recursos, então me salvarei sozinho, apenas junto ao meu dinheiro, claro. Com isto, dirijo-me ao abrigo no dia da catástrofe, estoquei muitos mantimentos e tudo de valor que consegui guardar, ficarei lá sozinho até ser seguro para sair novamente. Tranco-me e espero, sinto o impacto mas aguardo o dia seguinte para ver o resultado, sempre checando o rádio, que logo após o estrondo para de receber sinal. Assim, no próximo dia, saio para averiguar.

    Mas devo dizer que é bem pior do que eu imaginava. Não consigo ver uma construção de pé, parece que tudo acima do nível do mar foi devastado, com apenas alguns escombros em seu lugar. Meus empregados estão desaparecidos, provavelmente mortos, mas creio que posso encontrar novos em breve. Daqui me viro com os recursos que tão cuidadosamente guardei enquanto exploro o que sobrou, porém são poucas pessoas que ainda vagam, como mortos-vivos, este chão. É difícil acreditar no que vejo, mas logo a percepção de que isto não será o maior dos problemas começa a chegar em meus miolos.

    De certo modo, me preparei bem para sobreviver ao fim do mundo, mas não contava que o papel higiênico fosse a primeira coisa que iria acabar, durando apenas dois meses. Agora temos uma nova jornada, comprar este tão preciosos recurso. "Será que houve muita inflação desde os eventos passados? Não sei nem quanto de dinheiro levar para pagar". Este pequeno pensamento me fez cair em um poço tão profundo que nem a Alice sobreviveria e agora tenho perguntas muito mais importantes. Onde é que eu vou comprar? Já explorei milhas e não vi uma loja de pé, galpões, nada. Com isso pergunto a um senhorzinho que vaga pelas ruas por informações, mas ele apenas ri de minha cara e responde: "Se você achar um sabugo de milho para se limpar, já está com sorte". Uma informação assustadora.

    Que eu posso viver sem papel higiênico, até posso, mas a comida que tenho não é infinita, aos poucos me vejo em afogamento. Não consegui gastar um mísero dólar até agora, pois ninguém o aceita como moeda de troca mesmo quando oferecido um valor generoso pelo que tem. Tenho medo, mas ele é combustível do desespero e do pensamento. Converso com um homem bem mais velho, acho que é a primeira vez que deixo alguém me ensinar algo desde a escola, então ele me convida para sua tenda e me mostra o novo mundo que vivemos, onde o dinheiro não vale de nada e precisamos nos esforçar para cada recurso que queremos. Me mostra o fogo que o aquece neste começo de inverno, uma pequena plantação e uma arma para se defender. Ali percebo que finalmente entendi o mundo, com tal luz irradiando em meus olhos e a mútua ajuda de outras cinco pessoas, aquele pequeno grupo alcançava algo grandioso, que os lobos solitários jamais chegariam perto.

    Serve agora como combustível de fogueira cada dólar que um dia eu juntei, sendo seu peso em papel o único valor que lhe restou. Mesmo após tanto trabalho para consegui-lo, digo com convicção que todo dinheiro que tenho não vale de nada. De que serve se em nada posso gastar? Se nada ganho por tê-lo? Agora, junto com minha visão pequena e materialista do mundo, meu dinheiro se torna cinzas e desfaz pelo ar, deixando espaço para um novo recurso, muito mais valioso, ocupar seu lugar: A companhia daqueles que nos fazem bem.



Toinho Stark do Cangaço, 29/03/2025, 02:46-03:28


    Quando alguém me pergunta sobre as coisas que consegui e como não consigo me sentir bem com isso, me sinto da mesma forma que este personagem. Toda a inteligência, todo o conhecimento, o dinheiro, os amigos, tudo que consegui e não posso usar para meus objetivos, pois por mais que tudo aquilo tenha valor hipotético e fui ensinado que isso me levaria aonde quero chegar, ter isso não mudou minha distância dos meus sonhos.

    Vou ser breve nestes comentários pós-escrita, até porque estou escrevendo-os antes de escrever a história principal. Sinto que se eu for milionário, dono de tudo nesse mundo e com milhões de amigos, mas não tiver comigo um amor de alguém que esteja ao meu lado nos meus piores momentos, eu não terei nada, de que adianta tudo isso se eu continuo sofrendo num canto solitário?

    Conseguir amor na vida é a coisa mais importante que alguém pode ter, todos dependem de alguma forma de amor, seja romântica ou não. Com isso em mente, já parou para pensar o quanto eu sou carente de amor romântico? Um carinho, um cafuné, um abraço, um ombro para chorar, um bom dia com meus olhos sonolentos ou um sorriso? Se isso existe fora da ficção e você tem, sua vida está melhor que a minha.

(Sinceramente, tudo que eu escrevo vem de algum sentimento que me acomete no momento e eu passo para o texto, mas tento aumentar a empatia que alguém teria por tal ao usar de situações mais fáceis de associar que aquelas que passo. Pode-se dizer que são todos analogias aos meus sentimentos e, até, minha vida)

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