Eu não sei que crime cometi, nem pelo que fui condenado, mas estou aqui atrás de uma grade. Na verdade, por onde olho tem grades ou muros altos, isso já faz tanto tempo. Vim parar aqui quando tinha três anos de idade, vi esta grade ser erguida e até lembro de uma gota de cimento voar no meu olho, o que gerou um pânico de alguns minutos até lavarem. Desde então, começou a minha jornada como detento, os carcereiros eram os meus pais, com meu primo mais velho sendo o guarda que era acionado em caso de fuga. No começo era tão normal, eu só saía da prisão para ir à escola, que nada mais era que uma grande cela compartilhada, mas nem tudo era bonito lá, por mais que o ambiente fosse mais livre.
Vivi alternando entre as duas prisões, mas lá na escola os carcereiros eram piores, uma abusava de mim, me arrastava pelo braço e trancava nas solitárias, enquanto isso, o chefe da prisão sabia de tudo, mas a defendia. Hoje em dia o chefe Alberto já descansa em paz, mas deixou seu legado. Da outra prisão, via da grade as crianças brincando na rua, mas eu só tinha direito a uma hora de pátio, o resto era tempo na cela. A diversão dos outros ecoava em meu coração, quase como se zombassem da minha condição, mesmo que eu chorasse, não teria mais tempo livre. Mesmo quando livre, estava sob o olhar do vigia, qualquer vacilo e eu era mandado mais cedo para a cela. Então os abusos dos carcereiros da escola foram desmascarados, assim pude transferir para outro presídio, um mais aconchegante, mas que tinha rebelião às vezes.
A minha jornada continuou alternada entre escola e cadeia até 2015, ano em que mudei de escola, continuava sendo uma prisão, mas era nova, tinha até CAPSI, que não foi o bastante. Então eu não sabia como era o mundo lá fora, na verdade, mal sabia o que tinha além de duas esquinas da prisão, era território desconhecido. Sempre que precisava sair, para qualquer lugar, era acompanhado de pelo menos um carcereiro, que cuidava para que eu nunca me sentisse livre, tudo era meticulosamente vigiado e restrito. A única liberdade e regalia que eu tinha para uma prisão era o acesso à Internet, onde pude descobrir que as pessoas que brincavam na rua tinham rosto, não eram apenas uma forma de me humilhar pela liberdade que não tenho.
Vida insalubre, ainda que com alimento e roupa, quem diria que o direito constitucional à liberdade não se estendia a mim. Pude me ver livre eventualmente quando entrei para a condicional, no caso, a faculdade em 2017, com dezessete anos de idade. Nos primeiros dias ainda fui escoltado pelos carcereiros, mas depois só tinha um requisito: Obedecer ao toque de recolher. Com isso, pude conhecer, finalmente, algo que não era uma cadeia, pude andar pelo Recife, um pouco a cada dia, mas não sabia o que fazer com essa liberdade, nunca tinha chegado a este ponto. Conhecia vagamente o conceito de festas ou encontros sociais, praças e afins, mas não sabia bem onde encontrar ou como usufruir, também nunca tive um guia. Ainda era preso, tinha de estar à tarde na cela ou corria o risco da polícia me procurar. Por experiências passadas, sabia que transgredir as regras levava a abusos físicos, trancarem-me na solitária ou duros sermões.
Preso estive e continuo, ainda que agora em liberdade condicional, mas como posso me reabilitar à sociedade se passei a vida inteira excluído dela? Ninguém se importa de me guiar ou ensinar, me tratam como se eu já devesse saber, mas como? Estou tão acostumado à vida de presidiário que nem sei como é viver livre, continuo fazendo o que fazia quando era preso, só que agora a prisão deixou de ser física para se tornar a minha própria mente.
Toinho Stark do Cangaço, 03/03/2025, de 00:46 a 01:27
Nenhum comentário:
Postar um comentário