sexta-feira, 28 de março de 2025

Desolação e torpor

(Para fins de "Eu conheço a estupidez humana por tempo o bastante", essa história é ficcional, nenhum elemento dela deve ser replicado no mundo real sem julgamento moral e racional prévio)


quinta-feira, 20 de março de 2025

Amargo na boca

    Faz muito tempo que os problemas da vida se tornaram um peso, dificultando meus passos, pressionando meu peito até o coração parar de bater. Sou como um livro de capa comum, ligeiramente amassado, que foi posto sob a pressão de umas dezenas de livros para que desamassasse, eu já estou corrigido, mas me esqueceram sob aquela torre de livros. Todos temos problemas, mas o amor é o que nos ajuda a suportá-los. Minha vida sem amor é como um café forte sem açúcar, comer gengibre ou pimenta puros, um grande sangramento sem sequer um band-aid ou uma enxaqueca infinita, sem alívio.

    Falta açúcar no meu café, um prato para dissolver o sabor do gengibre ou da pimenta, um torniquete para o sangramento, um remédio para dor de cabeça, que tirem os livros de cima de mim, pois já estou endireitado. Tal qual os problemas, o café se torna bem mais bebível quando se tem açúcar, leite ou outro atenuante do sabor. A minha vida é amarga, sinto este sabor, é tanto que pouco açúcar nem faz diferença, a lista de problemas é extensa.

    O sentimento é que me desgasto como um lápis numa lixadeira, queria um papel para escrever minha história, mas aqui estou, aos poucos me transformando em pó sem deixar nada para trás. A solidão é como um golpe de aríete, eu sou a usina hidrelétrica de Sayano-Shushenskaya, a falta de amor é como a chaminé de alívio insuficiente, pode-se passar desapercebido, mas uma hora a pressão é de mais, capaz de arrancar tudo à frente. E o rio da solidão assoreou-me até o pescoço.

    Amor é a pá que te desenterra, a escada que te tira do poço. Preciso de alguém que torne este café puro em cappuccino, que me dê motivos para aturar todas as pedras que são me atiradas. Garanto-lhe que apanharia com um sorriso se soubesse que, depois da tortura, voltaria a ver quem tanto amo e tanto quero bem, com toda a reciprocidade que se tem quando se ama. Pois esta é a única coisa a me erguer depois de todo abuso que a vida faz comigo.

    Que arranquem as teclas do meu teclado e o lápis de minhas mãos, mas não pararei de sentir o que sinto, apenas expresso e deixo impresso para que, talvez, alguém atenda minha súplica. Pois no dia que me calar, ou o problema sumiu, ou fui eu. Que o medo do julgamento alheio nunca me censure, que minhas lágrimas um dia sejam enxutas por alguém, pois cansei de ser pelo mesmo travesseiro que, depois molhado, ponho minha cabeça para dormir.

    Não há como apreciar a solidão estando em meu estado, pois já cansei dela. Esta deve ser consumida em pequenas doses para ter bons efeitos desejados, tal qual uma bebida alcoólica, o excesso rapidamente te torna em um caco, um zumbi sofrendo e implorando pelo alívio da morte, se arrependendo de estar neste estado. Pois a solidão que me assola é como puro álcool, mas nem tenho tempo de ressaca, pois acordo no outro dia só novamente, como uma rebatida, o pelo do cachorro que me mordeu.

    Tenho pena de qualquer um que se encontre no mesmo estado que eu, saber que você também está assim é entristecedor, me sinto pior de saber que não sou o único, pois nem o diabo merece de tal mal. Espero que o seu navio não afunde no mar das mágoas, pois o meu já está com a popa submersa. Se alguém puder tirar este amargo, que tire, pois amanhã há de vir mais um litro de café puro novamente.


Toinho Stark do Cangaço, 20/03/2025, 14:10-15:21

domingo, 16 de março de 2025

Eu espero por tua libertação

    Por que me encontro aqui neste estado? Gritando internamente em berço escuro, eu conheço a verdade, mas não estou livre, não fui libertado. A liberdade de uma pessoa é o amor, é ter alguém ao seu lado que seja o motivo, um impulso para viver, que te empurra da cama todo dia ao amanhecer. Quando acordo, não vejo sentido em me torturar levantando-me da cama para mais um dia, quero ficar sob o edredom até morrer de sede. Não há entusiasmo algum na vida que levo, se aqui fosse o show de Truman, eu seria um palhaço do amor. Alguém me dê um motivo para me levantar, pois acho que um dia ficarei em paralisia, na cama, até a morte. Quando este dia chegar, não quero que deem falta de mim, já que não deram-me motivos para levantar enquanto podiam. Se eu ainda me levanto para falar contigo, saiba que você ainda é um motivo, só não se culpe se um dia eu não mais me levantar.

    Que há amor neste mundo, em diversos lugares, eu sei, mas parece intangível, como uma viagem à Namíbia ou um avião cruzando o céu, deixando apenas um rastro de condensação por onde passa. O amor é como o Andromada que passa sobre os céus quando você sai de sua safehouse no GTA San Andreas, para aqueles como eu, que querem jogar limpo e honestamente, ele parece etéreo, da mesma forma que eu, quando criança, via tal avião e pensava se um dia poderia voar com ele. Hoje em dia, faço aparecer o mesmo avião dos sonhos a qualquer hora, apenas usando um programa, o que o faz perder o brilho, o valor, mesmo podendo materializar centenas dele, acabo por não trazer nenhum à tona. Agora que posso ter a hora que quero e onde quero, não tem mais valor, era só o desejo de ter o que não se tinha, mas não havia sentimento envolvido nisto. Quanto ao amor, porém, eu sei que há sentimento, há brilho após conseguir, há jornada após o destino.

    Me sinto como um pássaro numa gaiola, um peixe num aquário, um gêmeo sem seu irmão, um cachorro com focinheira, amarrado na coleira do meu próprio medo, crucificado por buscar amor num lugar que reina ódio. Não sou santo, nem digno de estar em morada alguma, mas me diga uma palavra, faça algo para me tirar daqui e serei salvo. Estou cansado e sobrecarregado, mas onde está meu descanso? Não quero usar de minha liberdade para dar vontade aos desejos carnais, mas sim para servir aos outros com amor. Este é parte de minha alma, de que adiantaria ganhar o mundo inteiro se não tivesse-a? Não quero ficar amarrado, mas não consigo desfazer os nós, preciso que alguém me faça esse favor. Este fardo pesa cada dia mais e mesmo pernas fortes podem ceder se a mente estiver fraca.

    Abandonaste a tua empatia por mim e está tudo bem, de certo estou acostumado. Não cobro que ninguém se importe comigo, apenas que nunca se arrependam do que não fizeram por mim, pois pessoalmente odiaria cada um que só pensou e fazer por mim quando eu não mais estava ali para receber. Se eu preciso entender mais tarde, talvez até lá seja tarde demais, de que adianta entender depois que não mais estarei lá para usufruir? A vida é de tempo, quanto mais você espera por algo, mais você gastou seu único recurso infungível. Não existe espera justificada por algo que podia se ter conseguido antes. A única que se justifica é aquela necessária para produzir algo, pois não estava lá antes da espera acabar. De resto, nada é justo esperar. Com isso tudo em mente, eu lhe pergunto: "Até quando esperar?". 


Toinho Stark do Cangaço, 16/03/2025, 15:45


    Este texto, ironicamente, foi escrito referenciando alguns trechos da bíblia, além de vindo de um sentimento forte que me corrói e dilacera há tanto tempo. Às vezes pedimos ajuda a todos, mas nem mesmo Deus ou qualquer entidade que habite a Terra e o Universo podem ou querem ajudar. Às vezes estamos abandonados à nossa própria sorte, que eu não sei, nunca vi.

    Não tem solução, pois os que podem resolver, não resolvem, os que não podem, não podem e os que resolveriam, fecham os olhos aos problemas. Meu sofrimento é só meu, então só eu hei de me importar, espero que em minha morte, somente eu sofra, somente eu chore.

    Quem se importa dos meus gostos? Da minha felicidade? Será que você vê meu choro? Será que quer ver a verdade mesmo que ela te machuque? Ou prefere um sorriso falso para agradar seu desejo?


Os trechos da Bíblia que eu incluí no texto:

"Ó Senhor, eu espero a tua libertação!" -Gênesis, 49:18
"E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará". -João, 8:32
"Senhor, não mereço receber-te debaixo do meu teto. Mas dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado." -Mateus, 8:8
"Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês." -Mateus 11:28
"Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor." -Gálatas, 5:13
"Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderá dar em troca de sua alma?" -Mateus, 26:13

sexta-feira, 14 de março de 2025

Tudo branco

    Estou decepcionado, talvez contrariado, aqui acabado em um canto de uma sala. As paredes são brancas, o teto é branco, o chão é de cerâmica branca e até mesmo a porta é branca, sem cor. Parece a definição que alguém daria ao paraíso, mas te asseguro, aqui está mais próximo do inferno. Talvez pareça com um hospital, mas é a minha casa, uma prisão onde ninguém sai curado, apenas insano. Se, para alguns, o vazio é representado pela cor preta, para mim é a cor branca, que me cerca neste vazio, um amplo nada ao meu redor. Mediante este cenário, reflito minha tristeza.

    Perto da parede, estou num estado que nem uma piada de Chaves me faria rir, me sinto depressivo, deitado ao chão, cuja cerâmica faz parecer mais frio que o resto do ambiente. Sinto meus olhos pesados, mas não consigo dormir, fechando-os apenas faço escapar algumas lágrimas. Olho uma garrafa com suco de acerola completamente congelada, não mais fria que meu coração, onde a umidade se congela e depois escorre aos poucos, mas não tão intenso quanto minhas lágrimas.

    Do fundo da sala, ou do poço, consigo ver o teto, que parece intangível, tal qual meus sonhos, amigos e minha felicidade. As paredes parecem uma estrada ao horizonte, mas a gravidade me lembra de que não há caminho possível ao etéreo lugar onde minha motivação está. A esse ponto, o suco já descongelou. Bem como o branco do gelo ao seu redor, minha esperança some pelo ar, sem deixar vestígios, com apenas a água que escorreu de sua face espalhada pelo solo, simpatizo. Por não verem a vida pelos meus olhos, as pessoas acreditam que a uma hora que eu me divirto junto a elas compensa as outras vinte e três horas que eu sofro nessa caixa.

    Meu penar é praguejado pela incompreensão alheia, que prefere me censurar ou criticar por piadas que faço ou comentários que teço sem entender que eu só consigo rir à força. Se alguém pusesse uma arma em minha cabeça e me obrigasse a ser feliz, me sentiria mais que alegre com a ideia de puxarem o gatilho, então fingiria tristeza com a mesma falsidade que finjo alegria diariamente. Enquanto muitos buscam motivo para chorar rodeados de razões para sorrir, eu, rodeado de vazio, choro buscando uma razão para me levantar.

    Fim.


Toinho Stark do Cangaço, 14/03/2025, 20:23


Ps.: Não, Ale, não estou falando mal de você.

domingo, 2 de março de 2025

Presidiário

    Eu não sei que crime cometi, nem pelo que fui condenado, mas estou aqui atrás de uma grade. Na verdade, por onde olho tem grades ou muros altos, isso já faz tanto tempo. Vim parar aqui quando tinha três anos de idade, vi esta grade ser erguida e até lembro de uma gota de cimento voar no meu olho, o que gerou um pânico de alguns minutos até lavarem. Desde então, começou a minha jornada como detento, os carcereiros eram os meus pais, com meu primo mais velho sendo o guarda que era acionado em caso de fuga. No começo era tão normal, eu só saía da prisão para ir à escola, que nada mais era que uma grande cela compartilhada, mas nem tudo era bonito lá, por mais que o ambiente fosse mais livre.

    Vivi alternando entre as duas prisões, mas lá na escola os carcereiros eram piores, uma abusava de mim, me arrastava pelo braço e trancava nas solitárias, enquanto isso, o chefe da prisão sabia de tudo, mas a defendia. Hoje em dia o chefe Alberto já descansa em paz, mas deixou seu legado. Da outra prisão, via da grade as crianças brincando na rua, mas eu só tinha direito a uma hora de pátio, o resto era tempo na cela. A diversão dos outros ecoava em meu coração, quase como se zombassem da minha condição, mesmo que eu chorasse, não teria mais tempo livre. Mesmo quando livre, estava sob o olhar do vigia, qualquer vacilo e eu era mandado mais cedo para a cela. Então os abusos dos carcereiros da escola foram desmascarados, assim pude transferir para outro presídio, um mais aconchegante, mas que tinha rebelião às vezes.

    A minha jornada continuou alternada entre escola e cadeia até 2015, ano em que mudei de escola, continuava sendo uma prisão, mas era nova, tinha até CAPSI, que não foi o bastante. Então eu não sabia como era o mundo lá fora, na verdade, mal sabia o que tinha além de duas esquinas da prisão, era território desconhecido. Sempre que precisava sair, para qualquer lugar, era acompanhado de pelo menos um carcereiro, que cuidava para que eu nunca me sentisse livre, tudo era meticulosamente vigiado e restrito. A única liberdade e regalia que eu tinha para uma prisão era o acesso à Internet, onde pude descobrir que as pessoas que brincavam na rua tinham rosto, não eram apenas uma forma de me humilhar pela liberdade que não tenho.

    Vida insalubre, ainda que com alimento e roupa, quem diria que o direito constitucional à liberdade não se estendia a mim. Pude me ver livre eventualmente quando entrei para a condicional, no caso, a faculdade em 2017, com dezessete anos de idade. Nos primeiros dias ainda fui escoltado pelos carcereiros, mas depois só tinha um requisito: Obedecer ao toque de recolher. Com isso, pude conhecer, finalmente, algo que não era uma cadeia, pude andar pelo Recife, um pouco a cada dia, mas não sabia o que fazer com essa liberdade, nunca tinha chegado a este ponto. Conhecia vagamente o conceito de festas ou encontros sociais, praças e afins, mas não sabia bem onde encontrar ou como usufruir, também nunca tive um guia. Ainda era preso, tinha de estar à tarde na cela ou corria o risco da polícia me procurar. Por experiências passadas, sabia que transgredir as regras levava a abusos físicos, trancarem-me na solitária ou duros sermões.

    Preso estive e continuo, ainda que agora em liberdade condicional, mas como posso me reabilitar à sociedade se passei a vida inteira excluído dela? Ninguém se importa de me guiar ou ensinar, me tratam como se eu já devesse saber, mas como? Estou tão acostumado à vida de presidiário que nem sei como é viver livre, continuo fazendo o que fazia quando era preso, só que agora a prisão deixou de ser física para se tornar a minha própria mente.


Toinho Stark do Cangaço, 03/03/2025, de 00:46 a 01:27