domingo, 14 de setembro de 2025

Roldanas de papel

    Esta é mais uma carta que escrevo aos meus familiares, que jurei proteger lutando pela minha pátria. Um dia fui criança, vi paz, felicidade e cuidado dos meus pais, mas, conforme fui crescendo, a Nação começou a desmoronar ao meu redor. Tensões políticas, brigas e protestos rodeavam cada praça que passava, como se o som dos pássaros fosse substituído por balbúrdia. Aquilo que mais me agradava, agora era meu tormento, as pessoas que admirava, agora perderam o encanto, enquanto eu me tornava as pessoas que criticava.

    Guerra, foi o que derivou de tudo isso. Um mundo sem amor e respeito, onde ideais moveram tropas a marchar cegamente contra as outras. Eu, como Bocelli, fui até lá com um sorriso no rosto. Fui ensinado que este era meu dever e devo cumpri-lo acima de tudo, mas mal sabia até onde isto iria. Com isso, meu pequeno mundo de paz, assim como o de muitos outros, onde o Sol nos banhava de vida e os ventos acariciavam nosso rosto, se tornou frio, nublado e barulhento. E pensar que eu viria parar numa cidade que tanto quis visitar, mas não posso aproveitar meio segundo dela, veja, estou vivendo meu sonho, mãe.

    É que agora o mundo ganhou um novo rosto, com escombros pelas cidades e fogo pelas planícies. Onde antes tocava música, agora ecoam disparos e explosões, onde haviam crianças brincando, balões, algodão doce e animais correndo, agora se vê tensão, medo e arrependimento. Eu, que na paz tinha nome, família, amigos e liberdade, sou apenas um número dentre os diversos outros que me cercam. Me pergunto como vim parar aqui? Não lembro direito do caminho, somente da partida e do presente. Os estridentes disparos de artilharia que caem ao meu lado são substitutos às propagandas de televisão que me interrompiam, incomodando-me sem proposta alguma.

    Como chegamos a isto? Por que reinou desgraça ao mundo que florescia alegria? Nesta guerra, não vale mais a pena lutar, o que estamos ganhando? Avançamos e voltamos como peças num tabuleiro, mas continuamos presos nestas barreiras. É cansativo a rotina de ir e voltar sem ganhar nada, é desumano que este seja meu dia-a-dia. Não parece ter sentido toda esta luta, estou fazendo tudo isso para que alguém que nem conheço ganhe, é isto? É como se tudo que sustenta o peso dessa guerra fossem roldanas de papel, frágeis, mas prendendo-nos às cordas que nos levam para todos os lados, sem sair daquele caminho pré-determinado. Sinto que estou aqui apenas pelos outros, com valor insignificante, um coadjuvante. Só agrado aos que me veem, mas, de resto, não sou visto como humano.

    A situação neste caos é complicada, perdemos a cada dia o valor e sentido da vida, com cada morte pesando menos em nossos corações. Parece que nos acostumamos a perder, a tal ponto que até a vitória não significa mais nada, sabemos que depois haverá outra derrota. E, quem diria, ainda estou vivo, mas sinto como se fosse melhor eu ter saído com uma medalha de Coração Púrpura no peito, ao menos estaria longe desse inferno para sempre. A terra não tem mais vida, da forma que as coisas seguem, talvez até a Terra não terá mais vida, se é que não já a perdeu quando largou sua humanidade em prol deste cenário.

    Vida e morte se misturam como os escombros de onde, um dia, foram prédios. Cercado aqui por pessoas que viram o fim da guerra, me pergunto como é estar no lugar deles, queria ter a paz que eles têm. Às vezes rezo a quem quer que me ouça para que eu não acorde amanhã, que caia uma bomba em meu alojamento ou uma bala perdida me encontre, pois sei o que George Santayana disse. No estado em que me encontro, somente assim terei, novamente, felicidade.


Toinho Stark do Cangaço, 14/09/2025


(Nesta guerra, não vale mais a pena lutar, o que estamos ganhando? Avançamos e voltamos como peças num tabuleiro, mas continuamos presos nestas barreiras)

(É como se tudo que sustenta o peso dessa guerra fossem roldanas de papel, frágeis, mas prendendo-nos às cordas que nos levam para todos os lados, sem sair daquele caminho pré-determinado)

(Eu, que na paz tinha nome, família, amigos e liberdade, agora sou apenas um número)

(E, quem diria, ainda estou vivo, mas sinto como se fosse melhor eu ter saído com uma medalha de Coração Púrpura no peito, ao menos estaria longe desse inferno para sempre)

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

E se fosse o fim?

    Espero no sinal para atravessar, tentando voltar para casa após mais um dia. Mas hoje é diferente, coisas diferentes aconteceram e ainda marcam minha mente. Vejo cada Clio, Corsa, HB20, Celta e Corolla que passa na minha frente, cada rosto de cada motorista. Vejo os Millennium V da Mobibrasil, articulados, na linha 2480, vejo um Millennium V de 2023 fazendo a 2437, fito o rosto cansado do motorista e de cada passageiro na janela. Meu caminhar é bem mais lento que o habitual, este dia parece atípico, mas não para mim. Observo um Torino 2018 da Borborema fazendo a linha 331, voltando da Conde da Boa Vista, enquanto duas mulheres correm, lanche na mão, reclamando e rindo do inconveniente do ônibus ter se adiantado. Vejo mendigos no chão, olho cada detalhe dos trapos e roupas, até a bermuda verde com detalhes em azul e amarelo num deles, que dormia na parada. Chego na Agamenon e vejo o Xambá já parado no semáforo. Dou sinal e entro.

    Que será que se passa na cabeça do motorista do 515 da Caxangá? Que parece incomodado e irritado, mas sem explicar nada, respondendo por educação o meu "boa noite", mas parecendo me xingar nas entrelinhas. O Torino 2015 já demonstra sinais de desgaste, assim como eu. Ouço a escola de samba que se tornaram suas portas, janelas e seu elevador, sinais do tempo que afrouxa os parafusos e endurece as borrachas, um dia flexíveis. Tomo meu lugar no chão, no canto do ônibus, onde fica o espaço para deficientes, e começo a escrever um texto. Haviam cadeiras livres, mas hoje, me sento aqui. As pessoas conversam alto, riem, reclamam ou se calam em seus fones de ouvido. Logo estarei em Joana Bezerra, mas nada me entusiasma quanto a isso.

    Não muda a minha percepção quando chego na estação, tem um estande de brinquedos, várias pessoas vendendo água, pipoca, é como uma feira livre. Há um menino, uns 10 anos, com camisa do Sport e cheirando cola. No corredor polonês, salgados, pacotes e vendedores de passagem de metrô, são como atravessadores. Na tela, uma propaganda que nem me importei de ler, apenas sua luz verde me chamou a atenção. Na catraca, uma das máquinas com uma sacola por cima, significa que não funciona, até hoje tem um cavalete numa das passagens, que, por meses, não foi consertada. O guarda da estação já cansado, o chão um pouco molhado, a escada rolante sem funcionar, nada extraordinário. A plataforma cheia, sinal de que logo chegará o metrô. 

    Haja a experiência que for, ainda é de se surpreender com a condição precária dos metrôs da CBTU, o 15 chega para nos atender, em estado caquético e ar-condicionado quase sem funcionar. Normalmente, ninguém existiria ali, mas, hoje, eles existem, a mulher de pele morena e cabelos cacheados que conversa, rindo bastante, com a de pele clara e cabelos pretos lisos. O rapaz que aparenta voltar do trabalho, com barba rala, parece cansado, mas se mantém firme. O menino com camisa de escola pública que volta sozinho, sabe-se lá o porquê. O céu lá fora não tem estrelas, mas reparo tudo que posso, até na luz queimada de um poste.

    Amanhã pode não existir para certas pessoas, talvez seja a última vez que vejo estes rostos, carros, metrôs e prédios, essas ruas, calçadas e situações. Esta noite volto para casa, mas minha cabeça me preocupa. A vida é tão súbita, em segundos somos criados ou destruídos, não temos certeza de nada, exceto da morte. Meus passos lentos em direção ao meu lar é medo de ser a última vez que passo aqui, por isto, estou vendo cada detalhe, pessoa, animal, bola de futebol, luz acesa ou motociclista usando o celular, vivendo cada segundo como se fosse o último.


Toinho Stark do Cangaço, 03/09/2025

Este texto não é sobre a vida ser breve e vamos aproveitá-la, mas sim sobre um suicida voltando para casa sem saber se hoje ele terá coragem, por não aguentar mais tudo que tormenta sua cabeça. Pode-se ver que mesmo sendo rodeado de coisas e notando tudo, ninguém nota ele, nem darão falta se ele não estiver mais lá, o que contribui para seus pensamentos, que não são interrompidos por nada ou ninguém. 

Janela do Xambá

    Pelos passageiros do ônibus, existe desconforto misto, pela janela do Torino 2015 existe um protesto, pela minha mente passa uma dúvida e uma certeza. Pelas ruas movimentadas, pela Agamenon, há tanta gente e tantas vidas. Pelo chão que o carro passa, o povo pisa, o mendigo dorme e o guarda lamenta não ter paz em plena terça-feira, passa o pensamento, esmagado por eles. Pelo céu sem estrelas, pelos rostos celebrando, as bocas reclamando, as indignações a favor e contra cada ideia que ousou escapar, em meio ao país que as desincentiva, existe potencial reprimido.

    Olhos para cima, cravo minha dúvida, o que vai mudar com esse protesto? Será que vale a pena algo que foi feito? Olhos no chão, reflito uma certeza, nossas pessoas estão perdidas em devaneios. Lados políticos, brigas, lutas sem sentido, sem motivo, sem humanidade, é o que se tornaram pensadores em potencial, uma energia fluindo pelo terra. Todos têm seus motivos para fazer o que fazem e ser o que são, mas há hipocrisia em cada fala ou crítica que ousa ser tecida, em cada elogio proferido, em cada buzina, em cada rolar de olhos. Existem dois caminhos, o do pensamento e o que muitos trilham, os de sucesso na medicina, engenharia, advocacia, no mestrado e doutorado seguem o do pensamento, os de sucesso político, o outro.

    Da janela há um homem, com fome, catando os restos de uma lixeira. Há uma criança com barriga cheia de vermes e mente cheia de ideias, mas que podem acabar num simples engano ou numa bala perdida. Vejo pessoas invisível, camufladas na correria de números, protestos, gritos, pedidos e mentiras. Nenhum deles pensou nessas pessoas, nenhum dos lados, elas passam e passarão fome até quando? Pelo visto, o único que realmente trabalhou para aliviar a fome do povo foi a morte.

    Arrogância minha, talvez, não sei. Mas não parece haver lado bom, é como se todos os anos pares, tivéssemos que escolher se o tiro será na mão ou no pé. É uma tristeza revoltante, mas, sinceramente, não quero quebrar o País das Maravilhas que habita cada pessoa. Não quero ser hipócrita, porque também não fiz nada para sanar a fome do pobre velho vagando pelas ruas, mas se é para tercerizar nossas responsabilidades para alguém, que seja para todos que queiram mudar de verdade, não aqueles que se divertem defendendo causas.


Toinho Stark do Cangaço, 02/09/2025


Aos que querem me oferecer um panfleto político, por favor, dobrem e passem para o próximo.