Em minha vida, todas as noites são escuras, porém algumas se sobressaem, em que o breu toma conta completamente do ambiente. São aquelas em que minha luz não brilha nem que seja fracamente. São as piores, quando a escuridão é tão intensa que se pode sentir seu toque. São nestas que minha insônia persiste em cobrir-me com seu véu. A Lua reflete na janela, seus raios não penetram a densa camada negra que cobre meu quarto. Até a aranha que estava no teto não pode ser vista.
Minha capacidade de ver é reduzida ao zero e só os pensamentos podem preencher o vazio restante. Quantos lúmens são necessários para alumiar este quarto? Não faço ideia, pois só meus fracos lampejos um dia o fizeram. Não percebo diferença se meus olhos estão abertos ou fechados, não é como se fosse mudar o que está à vista. Na verdade, com os olhos fechados talvez eu veja mais. É quando percebo o quanto tudo está tingido de preto, de tal forma que nem o nascer do Sol poderia clarear tal quarto.
Escuridão é onipresente nesta noite, mais que nas demais. Sua textura é densa, como se o ar pesasse uma tonelada. Aqui todos os sentimentos se desfazem e sobra apenas o vácuo perfeito, como se estivesse abandonado na borda do espaço observável. São nestas horas que me sinto o homem mais solitário do mundo. Ninguém pode me dizer o contrário, pois não estava lá para testemunhar. É tão isolado que sinto que se gritasse, nem mesmo um deus ouviria. Como se o niilismo fosse uma forma branda do lugar em que me encontro.
Diária a reflexão de que este lugar é o que mais se assemelha ao inferno. Pois calor e tortura já experienciamos no dia-a-dia com certa frequência e muitos toleram. Mas este vazio escuro, ao qual não vejo suas bordas, é onde um filho chora e a mãe não vê, nem ouve. Quem dera eu tivesse uma luz acesa aqui, nem que seja um abajur ou de emergência, nessas noites escuras, para que eu pudesse enxergar algo além das sombras que turvam minha visão, tornando o caminho à frente tão incerto que nem faz sentido arriscar um novo passo. Quem dera pudesse ver, novamente, o chão em que piso.
Toinho Stark do Cangaço, 27/08/2026, 04:32-04:52
(Quem dera eu tivesse uma luz acesa, nem que seja um abajur ou de emergência, nessas noites escuras, para que eu pudesse enxergar algo além das sombras que turvam minha visão, tornando o caminho à frente tão incerto que nem faz sentido arriscar um novo passo.)
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