sábado, 24 de janeiro de 2026

Mendicância

    Mendigo, é como me encontro agora, na Conde da Boa Vista, belo nome para uma rua, pena que não sei ler direito para saber o nome das outras. Fico aqui sentado na calçada tentando resistir às tormentas do mundo. Vivo livre, mas não tem sentido caminhar daqui, para onde vou? Só tento sobreviver, sem saber o motivo, pois não tenho ninguém para me acolher aqui, apenas pessoas que passam, dão um trocado e se vão. Mesmo assim, parece que eles estão mais tristes que eu, cada um com suas lutas, eu diria.

    Um momento de beleza no céu, mas não posso aproveitar, quem dera pudesse desbravar este mundo tão bonito, mas me falta alimento e tenho que me preocupar com o essencial para estar aqui de novo. Mas por que estou aqui? Mesmo se estiver vivo amanhã, não mudará nada da minha vida. Vivo na esperança de que um dia posso andar como as pessoas que passam por aqui, mas parece que nem elas estão felizes também.

    Amor e carinho são demonstrados por casais na rua, bem como sacolas cheias de compras, pessoas tomando sorvete ou raspadinha, comendo e até derrubando um pouco no chão. Não faz diferença para eles, têm em abundância. Conversam com seus amigos ou reclamam do clima, imagina se estivessem aqui neste papelão, sobre o chão?

    Na rua, observo aquelas pessoas com roupas limpas e novas, todas bem alimentadas, não tem como não me sentir mal por estar aqui largado, esquecido por todos, como se pagasse uma penitência sem ter cometido um crime. Enquanto elas esbanjam todas essas riquezas, não quero tomar isso delas, apenas queria também ter o que elas têm, será que é pedir de mais? Por que todos que vejo têm, menos eu e um grupo tão pequeno de outros indivíduos, que compartilham da mesma dor?

    Vida tão diferente, como fizeram para chegar onde chegaram? Por que eles têm e eu não? Por que não me ajudam a ter também? Não quero tirar o que é seu, apenas estar no mesmo nível. Por que fico condenado aqui na sarjeta enquanto eles podem ter o que eu preciso para viver com tanta facilidade que talvez nem saibam o valor que tem?


Toinho Stark do Cangaço, 24/01/2026, 22:46-23:01


(E não, este texto não é só para falar da vida de um mendigo, mas aí cabe a você entender o que mais ele fala. Não sou mendigo, mas, talvez, tenha conexão comigo, quem sabe?)

domingo, 18 de janeiro de 2026

As cores e sons do...

    Silêncio, é o que resta após acabar a chamada de voz com os amigos. Os jogos, as conversas e os comentários vão, aos poucos, esmaecendo em minha mente, de maneira não tão abrupta quanto o fim do nosso entretenimento, que se encerra com um "boa noite" ou "até mais". Depois da tempestade, sempre chega a calma, mas o que não te contam é que depois da felicidade, chega a tristeza, sorrateiramente tomando o lugar ocupado, outrora, pela alegria compartilhada. Pois ela deixou livre uma vaga de estacionamento num shopping lotado.

    Inunda, lentamente, minha mente de pensamentos. Não é de minha vontade, apenas vêm, são como o vento, que sopra independente de você ter fechado a janela. Metaforicamente e literalmente, abro tal janela quando a chamada acaba, pois agora posso desabafar o cômodo por não precisar mais de isolamento acústico. Nem mesmo o calor desconfortável pode me incomodar quando estou com eles, mas a brisa mais fria e seca que entra pode ser suficiente para derramar lágrimas.

    Lentamente, a solidão de um quarto tão vazio começa a pesar, como um pequeno furo num navio, deixando as emoções que nos põem para baixo se alojarem em nós. Não sei o que eles sentem, sinceramente, dado que eles não estarão sós quando acabar, terão namorada, bichinhos de estimação ou outros amigos para interagir, então, talvez, nem sabem como é estar na minha pela. Suas imaginações mais férteis não os colocam na ponta do iceberg que faz meu Titanic afundar.

    Êxtase é substituída por exílio, nada voluntário. Eles não têm mais o que fazer por mim, pois, diferente de mim, têm vida a cumprir, tal vida que os trazem, dentre outros sentimentos, um pouco de felicidade. Eu, por outro lado, postergo compromissos e faço tarefas inúteis para passar o tempo, se não ocupar minha mente em um minuto ou menos, é capaz de eu pensar o suficiente para não querer mais estar neste mundo. Queria ter mais tempo para eles, mas, infelizmente, também tenho compromissos, chatos e incômodos, que me fazem questionar onde está o equilíbrio? Aquilo que se contrapõe a estes momentos tão ruins e tediosos.

    Nociva esta relação que tenho com meu próprio tempo, ainda mais sabendo que eles nada podem fazer para me ajudar, já fazem muito. Inclusive, não avisarei a ninguém que postei este texto, se você leu, me manda uma mensagem dizendo que o fez, queria ficar sabendo. Pode ter certeza de que esta mensagem terá muito significado para mim, talvez até mais que toda a nossa amizade. 

    Corta meu sofrimento de uma vez, por favor. Eu imploro, por medo do que está por vir, me deixa aflito ter que acordar amanhã, tenho muito medo do homem no espelho, acho que ele quer me matar. Os estalares dos móveis, o preto que tinge as paredes brancas na madrugada, o descolorir da sombra, são coisas que me marcam nas madrugadas, andando lentamente pela casa como se me despedisse, sei lá de que.

    Indelével, é como eu descrevo estas nuvens cinzas pairando sobre minha cabeça. Queria ser menos de um peso aos meus amigos, que se preocupam com minha saúde mental, e mais um amigo de verdade, que te faz bem, mas acho que não há muito o que fazer. Por que sou tão atrasado em tudo? Parece que sempre que eu acho uma solução para um problema, algo que estava perfeitamente normal decide se tornar num novo obstáculo.

    Ociosidade, a corda que, lentamente, aperta o pescoço, o vermelho que pulsa de minhas veias e o metal que dilacera os sentimentos. É meu maior inimigo, uma mente que quer correr presa a um corpo que quer se manter inerte. A ofegante respiração, minhas mãos bagunçando meu cabelo em um misto de raiva e tristeza, as gotas que caem em meu colo não são de chuva, é o que ouço em mais uma longa madrugada. 


Toinho Stark do Cangaço, 19/01/2025, 03:47-04:28


(Inclusive, não avisarei a ninguém que postei este texto, se você leu, me manda uma mensagem dizendo que leu, queria ficar sabendo. Pode ter certeza de que esta mensagem terá muito significado para mim, talvez até mais que todo a nossa amizade)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Se o mundo inteiro me pudesse ouvir

    Tenho que confessar meu cansaço, principalmente comigo mesmo. Não é porque estou doente, nem porque minha rinite está a mais de uma semana atacada, sem trégua, nem porque eu não tenho uma namorada ou alguém que possa estar afetivamente ao meu lado para me dar um abraço ou uma demonstração de afeto que não recebo desde quando não sabia falar ou por que não posso ter apoio emocional dos meus pais, já que "isso é mente fraca" ou "é falta de uma namorada" são as respostas menos imbecis que eu recebo. É porque eu não sei mais o que fazer, cada momento que fico sem fazer nada ou calado é capaz de me aproximar de Deus... ou do Diabo, seja lá quem me receberá.

    Resistido à moda antiga, é o que costumo fazer, mas a ociosidade me joga, aos poucos, de volta àqueles sentimentos que tinha antigamente, que tanto tentei esconder ou suprimir, mas que nunca foram resolvidos. Enquanto a máscara mostra um sorriso, nos bastidores, aqueles problemas não se resolveram, além dos novos que surgem. Mas sabe, não estou pedindo que resolvam, Bob Esponja tentava ajudar Lula Molusco, mas as coisas pioravam porque ele nunca entendia o problema dele, por isso não sabia como ajudar. Devo confessar que não comi desde a janta e nem sinto vontade de comer de novo, acho que devo deixar comida para alguém mais útil no mundo.

    Isto é a ponta do iceberg, mas existem sentimentos que me fazem questionar se vale a pena. Eu até queria pedir para fazer algo junto aos meus amigos, mas nem sei o que, sinceramente. Sempre penso em algo que irá os agradar, já que fico satisfeito com isso, mas nem sempre este algo irá me agradar. Ainda assim, apenas aproveito da companhia, sem prestar atenção no que estou fazendo, esboçar reação ou falar, quando é algo que não me interessa, apenas estou ali. Quero estar ao lado deles, apoiar, mesmo que precise ficar em silêncio, com minha ensurdecedora mente gritando para que eu faça outra coisa, mas já decidi, meus sentimentos não importam. Não quero perdê-los, logo, não quero me tornar um incômodo ou algo unilateral onde só eu protagonizo as coisas. Que ironia, porque quero tornar isso unilateral ao favor deles. Talvez eu deveria ser sincero com o DeepSeek e pedir a ele que faça a minha vontade, já que não consigo pedir aos outros, mas acho que sentimentos são coisas que máquinas ainda engatinham enquanto eu já tenho pós-doutorado.

    Sem rumo, fico divagando nesse mar, escrevendo textos que, provavelmente, ninguém lerá. Às vezes me sinto como os reels que mando para o James, esquecidos no canto, ou como os momentos que passo calado em call com o Ale, talvez isso diz muito. Estou me importando convosco, lembrando de vós, estou mantendo o que disse, que estaria do lado de vocês para apoiar. Me desculpa se eu falhar em estar presente, se eu não for um bom amigo, estou tentando o que posso. Vocês têm valor para mim porque me trataram feito humano, não uma máquina criada para atender os prazeres dos outros.

    Ter tantos textos escritos por mim pode até soar como algo bom, mas todas as coisas boas que escrevi são apenas a vontade de estar em um lugar melhor, todas as coisas tristes são representações cruas de meus sentimentos. Pois, se estivesse vivendo as coisas boas que escrevo, vocês não saberiam, estaria aproveitando aquele momento, não perdendo meu tempo escrevendo sobre. É uma maldição de todo escritor, estar triste ou inconformado no momento de sua escrita.

    Esperança é como um farol, num porto, algo que escritores tentam ter quando escrevem suas fantasias de mundos perfeitos, mas acabam somente pondo os outros nesta utopia, continuando vazios em seus mundos reais. Sinto que tento ser um farol na vida das pessoas, tentando guiá-las até os bons momentos e lugares que tanto ansiavam, enquanto trabalho por isso incessantemente, por medo de perder minha utilidade. Mas sei que só haverá um dia que vão tentar os problemas ao meu redor e entender o que se passa aqui, no dia em que a luz do farol se apagar. 


Toinho Stark do Cangaço, 08/01/2026, 03:42-04:43


Ah, e feliz aniversário, James.


(Eu até queria pedir para fazer algo junto aos meus amigos, mas nem sei o que, sinceramente. Sempre penso em algo que irá os agradar, já que fico satisfeito com isso, mas nem sempre este algo irá me agradar. Ainda assim, apenas aproveito da companhia, sem prestar atenção no que estou fazendo, esboçar reação ou falar, estou ali. Quero estar ao lado deles, apoiar, mesmo que precise ficar em silêncio, com minha ensurdecedora mente gritando para que eu faça outra coisa, mas já decidi, meus sentimentos não importam. Não quero perdê-los, logo, não quero me tornar um incômodo ou algo unilateral onde só eu protagonizo as coisas. Que ironia, porque quero tornar isso unilateral ao seu favor.)

(Talvez eu deveria ser sincero com o DeepSeek e pedir a ele que faça a minha vontade, já que não consigo pedir aos outros, mas acho que sentimentos são coisas que máquinas ainda engatinham enquanto eu já tenho pós-doutorado)

(Não comi desde a janta e nem sinto vontade de comer de novo, acho que devo deixar comida para alguém mais útil no mundo)

(Sinto que tento ser um farol na vida das pessoas, tentando guiá-las até os bons momentos e lugares que tanto ansiavam, enquanto trabalho por isso incessantemente, por medo de perder minha utilidade. Mas sei que só haverá um dia que vão tentar os problemas ao meu redor e entender o que se passa aqui, no dia em que a luz do farol se apagar.)

(Às vezes me sinto como os reels que mando para o James, esquecidos no canto, ou como os momentos que passo calado em call com o Ale, talvez isso diz muito. Estou me importando convosco, lembrando de vós, estou mantendo o que disse, que estaria do lado de vocês para apoiar.)