domingo, 29 de março de 2026

Um dia em Caruaru

    Um sábado de Sol, foi como tudo começou. Com um trajeto cheio de obras, na BR-232, que me atrasaram mesmo quando saí de casa mais de meia hora antes do normal. Perdi a conta de quantas borboletas se chocaram contra o para-brisas do carro no trajeto, mas sinto muito por elas. Passando por Vitória de Santo Antão, Pombos, Serra das Russas, Gravatá, Bezerros, Encruzilhada de São João e, finalmente, Caruaru. Foram mais de 130km de viagem até chegar no Pátio de Eventos Luiz Gonzaga. De lá, caminhei até a antiga estação ferroviária de Caruaru, ao qual essa história começa a ser contada por fotos.

    Dia tão diferente e único: Um sábado, 28 de Março. Pela primeira vez na vida fui encontrar alguém que nunca tinha visto pessoalmente, mas que tinha o poder de virar minha vida ao avesso. Eram, porém, 14:24 e ela não estava lá, combinamos às 14:00. Às 14:50 ela me avisa que ainda está no ônibus, que tinha demorado para passar, e que chegará em quinze minutos. Pacientemente esperei até que o Torino S número 3659, da Coletivo Transportes, chegasse à parada, sem nem saber em qual ônibus viria. A vi de azul e preto, vindo sorridente para me acompanhar, enquanto eu descia a escadaria. O alívio de saber que estava tudo certo era mais forte do que minha capacidade de conter o sorriso. Me oferecendo a mão, sorridente me olhava, esta pessoa que tanto me cativava e cujo semblante demonstrava empolgação. Ali começava uma jornada. Logo depois, me ofereceria também alguns chicletes e pirulitos, mas acabei, cordialmente, recusando.

    Para as escadarias do Monte do Bom Jesus nos dirigimos, enquanto ela jogava comigo uma adivinhação do meu nome verdadeiro. Conseguindo adivinhar numa das esquinas que dava no começo da subida. Subimos com algumas paradas para descanso, enquanto conversávamos sobre a vida e o dia. Ao chegarmos no topo, nos dirigimos ao mirante, que ficava à esquerda, enquanto comentávamos sobre como o lugar era propício para esquartejar alguém. Talvez nosso humor seja mesmo quebrado, mas e daí? Seguimos até lá, ainda de mãos dadas. Subimos uma escada apertada, dando um jeito de manter unidos os dedos. Lá conversamos e criamos coragem. Pude beijar sua bochecha e pedi que deitasse em meu colo. Pude acariciar seus cabelos, endurecidos por creme, com um cheiro adocicado que me cativava. Era como se o tempo parasse ali, até que outras pessoas chegaram e decidimos nos endireitar. Olhamos a vista, tirei algumas fotos e voltamos, eventualmente, para a frente da igreja. Já haviam sinais de chuva e nos apressamos para ver o cemitério que ficava do outro lado do morro.

    Se a chuva deu sinais, é porque ela vem. Nos molhando aos poucos, se tornando cada vez mais intensa. Corremos para a cobertura das árvores, que não podiam proteger por completo. Enxuguei seus braços com minha camisa e cuidei para que não se resfriasse. Quando a chuva acalmou, nos viramos para descer a escadaria enquanto eu cantava "Dia Branco" do Geraldo Azevedo para ti. Tomávamos cuidado com a água para não escorregar, enquanto descíamos lentamente, de mãos dadas. No caminho, enquanto ela ajeitava a calça que vivia caindo, peguei uma flor de uma das árvores, que já vinha tentando encontrar há um tempo, e dei a ela, para ter de recordação. Caminhamos e vimos um portão com uma escrita bem peculiar que talvez indicasse que era uma garagem, não tenho certeza, não ficou muito claro [ALÉRGICOS: Contém ironia]. Até que sentamos numa plataforma perto da estação, onde pudemos conversar e refletir bastante. Onde pude dizer a ela que os medos nos paralisam, nos impedem de viver e que a única coisa que devemos temer somos nós mesmos.

    Lembrar de tudo foi incrível, dali levantamos e fomos à parada de ônibus, onde esperei com ela até que a linha 136 passasse novamente. Com muita espera, conversa e mãos dadas, esperamos por mais de meia hora até que dois ônibus passassem, juntos, da mesma linha. Ela, ironicamente, acabou pegando o 3639, que era o que chegou atrás, mas não antes de me dar um beijo na testa de despedida. Dois, na verdade. Se ela tivesse pego o da frente, iria no mesmo ônibus que veio até aqui, mas as coincidências nem sempre acontecem. Com isso pude voltar para casa numa longa jornada, tentando processar tudo que aconteceu neste dia. Depois nos conversamos mais por chamada de voz, mas aí são outras águas, movendo outros moinhos.


Toinho Stark do Cangaço, 29-30/03/2026








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