A nostalgia que tenho é diferente dos demais, pois quando penso em minha infância, lembro-me de vagar pelo YouTube em busca de informações novas ou conhecimentos aleatórios, quando não estava jogando sozinho algo que tinha tanta emoção quanto bolachas água e sal, mas lá estava eu, me divertindo com isso. Era divertido? Claro que não, mas estava sedento por emoções doces, para fugir do amargor da vida cotidiana. Por isso, saber de tudo era uma meta utópica, o que passei toda a infância e adolescência fazendo. Talvez você se pergunte o porquê, então devo dissecar este assunto como uma uva.
Minha infância foi como entrar na União Soviética, cheio de proibições, restrições e punições que não faziam sentido. Não podia brincar na rua, não necessariamente por causa do perigo ou das más influências das pessoas, mas sim porque quando eu era liberto, não queria mais voltar para casa. Era um animal em cativeiro experienciando a liberdade pela primeira vez, só queria que os raios de Sol e o sereno da noite me cobrissem de algo que não vivia. Então era perseguido pelo meu primo para ser posto para dentro, ou ameaçado pelo meu pai, assim eu era forçado a voltar ao lar, doce lar. Era tão raro que eu fosse liberto que não sabia se veria a rua sem as grades no próximo mês, era etéreo estar nela todos os dias. Chegou tal ponto que eu, com uns sete anos de idade, disse à minha mãe que se ela me deixasse sair mais vezes, eu não daria tanto trabalho para entrar. Até mesmo eu, ainda criança, conseguia perceber a ideia de que se eu fosse livre para fazer algo, conseguiria ter moderação com isso, mas este pedido foi negado.
Vida é uma palavra muito forte, representa um aproveitamento positivo de nosso tempo na terra, enquanto sobreviver representa o tempo integral que passamos aqui. Estar sozinho fez tanto parte de mim que explorei todas as possiblidades, como comer todos os dias a mesma comida, você pode colocar ketchup, tempero, açúcar ou o que for, mas chega um ponto que você já consumiu todas as combinações umas quinze vezes e não aguenta mais isso, este sou eu com a solidão. Sabe quando você tinha a opção de sair com seus amigos, se divertir, brincar, ir num lugar que te faz bem, interagir com as outras pessoas? Você podia ter ficado em casa, estudando coisas aleatórias e jogando sozinho, em modos single player, mas você foi à outra opção. Eu não tinha essa escolha, só podia ficar em casa, vendo aleatoriedades, estudando, jogando sozinho, brincando sozinho. Não pude interagir com as pessoas na rua, formar laços, aprender relações humanas ou aproveitar meu tempo. Minhas únicas amizades foram na escola, mas eram poucas, com interesses distintos, mal tínhamos o que conversar, não gostávamos das mesmas brincadeiras, então apenas interagíamos quando dava. Com doze anos de idade, eu já criava skins para mods no GTA San Andreas, já até dirigia um Fiat Uno na vida real, dado o tédio que tinha, era só o que me restava. Imagine se sua vida fosse tão tediosa que a melhor atividade que você poderia fazer fosse estudar, ver coisas aleatórias ou jogar o mesmo jogo, com só vinte fases, por dez anos? Pois é, eu não preciso imaginar, eu fui isso.
Foi uma jornada que eu vivi e você não viveu. Quando almejamos ter algo que o outro tem, queremos magicamente chegar até aquilo, mas não é assim que a vida funciona, existem sacrifícios e você, provavelmente, sempre pode se esforçar para chegar onde aquela pessoa chegou, mas escolheu focar em outras atividades e não há nada de errado com isso. É normal querer ter uma vida diferente, mas é incomum entender que o que aquela pessoa teve de positivo foi alcançado sacrificando coisas que você teve e/ou tem. No entendimento popular, todo mundo viveu as mesmas experiências positivas que você, mas os outros têm coisas que não tens, quando, na verdade, eles sacrificaram muito do que tens para ter o que não tens. É uma troca, pois o tempo marcha só avante, se você gasta tempo com uma coisa, não pode gastar o mesmo tempo com outra. Você podia saber o que eu sei, mas precisaria sacrificar todos os bons momentos que um dia teve, não existe meio termo, ou você viveria uma realidade ou a outra, o tempo não para, logo você não poderia ocupar dois espaços ao mesmo tempo. Sua escolha foi feita, porque seguiste o caminho que te faria feliz e te invejo dessa tua liberdade. Você teve a opção de viver a vida que tenho e decidiu não fazê-la, isso diz muito sobre o quão bom ela é.
Numa situação dessas, ainda preciso seguir em frente como se soubesse de tudo, mas acho que sou a pessoa mais burra do planeta, todos viveram enquanto dediquei meu tempo a um conhecimento que nada me trouxe de felicidade. Porém seria eu estúpido apenas se fosse minha escolha, o que claramente não foi. Sei que sempre é tempo para mudanças, mas falar de mudar é fácil, fazê-lo é o difícil. Como mudar? O que mudar? Por onde começar? Por que mudar isso? Será que esta mudança realmente trará algo? É uma decisão que precisa ser minha, mas como poderia eu ser capaz de decidir sobre o que não entendo? Ninguém me ensinou como interagir com as pessoas, começar conversas ou o que fazer nos lugares, nem me deram amigos que pudessem ter este papel. Por ter me tornado um adulto, não posso mais errar como podia quando criança, pois todos esperam que eu já saiba fazer algo que nunca foi-me passado. Então é como se eu fosse aprender a dirigir sem nunca ter entrado num carro, sem alguém para ensinar e sem poder errar. Preciso fazer um misto quente, sem pão, sem queijo e sem presunto. Só tem água na geladeira, por sinal, precisa ser grátis e crackeado.
Cela ou liberdade? Hoje em dia tanto faz, de tão acostumado estou de ficar preso, podes abrir o portão, eu não sairei por ele. Tenho liberdade todos os dias, sempre a almejei, mas quando finalmente consegui, não sabia o que fazer com ela, então fico estagnado. Vejo pessoas não dando valor às coisas que eu tão sonharia em ter ou ter tido, enquanto desejam ter meu conhecimento, que já perdeu total valor para mim. A questão de ter as coisas diariamente é que elas perdem o valor tátil. Meu conhecimento não parece tão valioso pois mal consigo utilizá-lo para algo que me dê vantagem no que quero, é como se fosse mais um troféu, que simboliza muito, mas não tem funcionalidade alguma. Na vida, temos muitas coisas que não damos valor por estarem cotidianamente ali. Você já agradeceu ao vendedor da feira? Às pessoas que te ajudam todos os dias? Ao produtor rural responsável pela comida na sua mesa? Ao policial que garantiu que você estivesse seguro? Aos garis, motoristas de ônibus, de caminhão, médicos, enfermeiros, advogados, engenheiros, pedreiros, guardas de trânsito, professores, jornalistas, bombeiros e dentre outros que fazem parte da sua vida de maneira discreta? Não só uma vez, pois eles fazem por você todos os dias. Eu entendo que não tenha, eu também não agradeço sempre, mas sabe o motivo? Porque nós temos a certeza de que eles estarão lá, mas já pensou se não estivessem? Essa certeza desvaloriza tudo, se você tem comida na mesa todos os dias, é como se aquilo fosse cotidiano, algo garantido, mas é o sonho de muita gente. Gente essa que, caso tivesse comida garantida para o resto da vida, também a desvalorizaria com o tempo. Você tem minha presença como garantido, mas e se eu não mais estivesse lá? Pense, pois isso, um dia, se tornará realidade.
Toinho Stark do Cangaço, 31/08/2025
(Sabe quando você tinha a opção de sair com seus amigos, se divertir, brincar, ir num lugar que te faz bem, interagir com as outras pessoas? Você podia ter ficado em casa, estudando coisas aleatórias e jogando sozinho, em modos single player, mas você foi à outra opção. Eu não tinha essa escolha, só podia ficar em casa, vendo aleatoriedades, estudando, jogando sozinho, brincando sozinho.)
(Estar sozinho fez tanto parte da minha vida que eu explorei todas as possiblidades, como comer todos os dias a mesma comida, você pode colocar ketchup, tempero, açúcar ou o que for, mas chega um ponto que você já comeu todas as combinações umas quinze vezes e não aguenta mais isso, este sou eu com a solidão)
(Você podia saber o que eu sei, mas precisaria sacrificar todos os bons momentos que um dia teve, não existe meio termo, ou você viveria uma realidade ou a outra, o tempo não para, logo você não poderia ocupar dois espaços ao mesmo tempo. Sua escolha foi feita, porque seguiste o caminho que te faria feliz e te invejo dessa tua liberdade. Você teve a opção de viver a vida que tenho e decidiu não fazê-la, isso diz muito sobre o quão bom ela é.)
(Quando almejamos ter algo que o outro tem, queremos magicamente chegar até aquilo, mas não é assim que a vida funciona, existem sacrifícios e você provavelmente sempre pode se esforçar para chegar onde aquela pessoa chegou, mas escolheu focar em outras atividades e não há nada de errado com isso.)
(A questão de ter as coisas diariamente é que elas perdem o valor tátil. Meu conhecimento não parece tão valioso pois mal consigo utilizá-lo para algo que me dê vantagem no que quero, é como se fosse mais um troféu, que simboliza muito, mas não tem funcionalidade alguma.)
(Você já agradeceu ao vendedor da feira? Às pessoas que te ajudam todos os dias? Ao produtor rural responsável pela comida na sua mesa? Ao policial que garantiu que você estivesse seguro? Aos garis, motoristas de ônibus, de caminhão, médicos, enfermeiros, advogados, engenheiros, pedreiros, guardas de trânsito, professores, jornalistas, bombeiros e dentre outros que fazem parte da sua vida de maneira discreta? Não só uma vez, pois eles fazem por você todos os dias. Eu entendo que não tenha, eu também não agradeço sempre, mas sabe o motivo? Porque nós temos a certeza de que eles estarão lá, mas já pensou se não estivessem? Essa certeza desvaloriza tudo, se você tem comida na mesa todos os dias, é como se aquilo fosse cotidiano, algo garantido, mas é o sonho de muita gente. Gente essa que, caso tivesse comida garantida para o resto da vida, também a desvalorizaria com o tempo)
(Ninguém me ensinou como interagir com as pessoas, começar conversas ou o que fazer nos lugares, nem me deram amigos que pudessem ter este papel. Por ter me tornado um adulto, não posso mais errar como podia quando criança, pois todos esperam que eu já saiba fazer algo que nunca foi-me passado. Então é como se eu fosse aprender a dirigir sem nunca ter entrado num carro, sem alguém para ensinar e sem poder errar. Preciso fazer um misto quente, sem pão, sem queijo e sem presunto. Só tem água na geladeira, por sinal, precisa ser grátis e crackeado.)