sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Auto memorando

    Que minha memória nunca me falhe, é minha maior súplica pois sei que é a única coisa que não podem roubar de mim. Por isso crio este memorando, para manter guardado uma boa parte do que valorizo. Deste modo asseguro que mantenha tudo nesta caixinha segura, fora da minha cabeça frágil e depressiva. Dizem que morremos duas vezes, uma quando nosso corpo falece e outra quando somos esquecidos, por isso não quero esquecê-las.

    Eu espero que nunca esqueça dos meus amigos, nem de fazer por eles sem esperar nada em troca. Mesmo se uma doença neurológica me impeça de lembrar, mesmo se, um dia, eu tiver uma esposa que seja meu mundo, mesmo se a distância entre nós impossibilitar a comunicação, que eu nunca esqueça o quão importantes vocês são. Desde o Ale, James, Hitomaru, PãoDeForma, Júlia, Italo, Mateus, Popeeye, Decinho e até o maluco do Hopkins, dentre outros. Sim, a maioria é de apelido na internet porque ou eu não sei o nome real, ou os conheço melhor por estes nomes. Pois eram eles com quem eu conversava e ainda converso quando me sinto sozinho, com quem joguei alguns jogos ou pude interagir de outras formas.

    Nunca quero esquecer o quanto minha mãe se sacrificou por mim, o quanto, mesmo errando e me prejudicando, ela sempre tentou fazer-me bem. Que eu lembre de quando ela me comprou queijo do reino e refrigerante de uva só porque, um dia, despretensiosamente, eu comentei que tinha vontade de comer. Ou quando ela cuidou de mim, tantas vezes doente, em hospitais, na cama, no sofá ou no banheiro, nunca me abandonou. Que eu lembre de todos os almoços e as jantas, roupas lavadas, casa limpa, os tapas, as vezes trancado no quarto enquanto eu surtava, as vezes que fui tratado como criança, mesmo sendo maior de idade. Também as vezes que ela me desencorajou dos meus sonhos por medo de que eles me levassem a um caminho ruim ou que me julgassem por isso. Das vezes que ela me levou à escola, me levou ao show do Roupa Nova, da banda Calcinha Preta, do Amado Batista, do Bloco da Saudade, da Elba Ramalho, do Marrom Brasileiro e do Lenine. E que eu lembre de quando eu lambia o desodorante dela, com três anos de idade, eu era tabacudo demais.

    Esqueça de tudo, mas não de Marileide, a melhor tia que uma pessoa poderia ter, uma segunda mãe, que, mesmo partindo, nunca deixei morrer dentro de mim. Que até 2020 fez parte diária de minha vida, cuidando de mim mais até do que minha mãe podia. Que eu não esqueça das vezes que ela me levou no campinho de futebol da prefeitura, na oficina para ver os caminhões, na fábrica da Vitarella, só porque eu pedi, ou em tantos outros lugares, me amando incondicionalmente, mesmo com todos os erros que eu cometia. Que eu lembre do quanto a fiz sofrer, inconsequentemente, para que eu pague por isso um dia, porque minha infantilidade me cegava. Que eu plante, em sua homenagem, dois pés de manga, com uma rede entre eles, do jeito que te prometi e te faça um bolo de prestígio quando nos vermos novamente em outro plano. Que eu continue te vendo nos meus sonhos, mesmo quando acordo chorando, pois é uma graça te ter tão perto depois que você foi para tão longe.

    O mais importante na vida de todas as pessoas é a educação. Espero lembrar dos meus professores, que são o motivo de eu ter chegado em algum lugar, o motivo de eu saber e buscar aprender mais. Não tem como nomear todos aqui, porque estudei em três escolas, mas vou tentar homenagear aqueles que ainda lembro: Vanda, Luciara, Valdemir, Isaias, Josélia, Conceição, Lucinaldo, Dudu, Wellington Batalha, Sebá, Mitchell, dentre outros que não lembro o nome, mas a feição me é familiar. Todos foram pilares na formação de minha vida e muitos outros.

    Que eu também me lembre das pessoas que me machucaram, não só os Pedros que me fizeram bullying ou bateram em mim. Mas também meu pai, que eu não esqueça que, ainda que ele tenha feito tantas coisas boas por mim, compensou com tantas ignorâncias, humilhações e incompreensões, pois, mesmo que não me batendo tanto quanto apanhou, definitivamente não poupou esforços em me ferir com palavras, como faca, atravessando meu corpo. Que eu não esqueça que sua arrogância e seu jeito com tom de superioridade ao qual sempre tratou a mim e minha mãe, pois o perdão não fecha as feridas que que foram abertas pelo perdoado.

    Importa dizer que muito mais pessoas fizeram parte da minha vida e que,  de verdade, se eu vivi um dia foi por conta de uma delas. Espero que eu evolua e avance na vida, que eu tenha uma esposa e filhos e possa ser feliz com eles da mesma forma que sejam comigo. Mas que eu nunca esqueça, por nenhuma força, todos que estiveram ao meu lado me ajudando a segurar as pontas, mesmo sabendo que eu posso desistir a qualquer momento.


Toinho Stark do Cangaço, 28/02/2026, 02:42-04:45


(Espero que nunca esqueça dos meus amigos nem de fazer por eles sem esperar nada em troca. Mesmo se uma doença neurológica me impeça de lembrar, mesmo se, um dia, eu tiver uma esposa que seja meu mundo, mesmo se a distância entre nós impossibilitar a comunicação, que eu nunca esqueça o quão importantes vocês são. Desde o Ale, James, Hitomaru, PãoDeForma, Júlia, Italo, Mateus, Popeeye e até o maluco do Hopkins, dentre outros. Sim, a maioria é de apelido na internet porque ou eu não sei o nome real, ou os conheço melhor por estes nomes)

(Que eu nunca esqueça o quanto minha mãe se sacrificou por mim, o quanto, mesmo errando e me prejudicando, ela sempre tentou fazer-me bem. Que eu lembre de quando ela me comprou queijo do reino e refrigerante de uva só porque, um dia, despretensiosamente, eu comentei que tinha vontade de comer. Ou quando ela cuidou de mim, tantas vezes doente, em hospitais, na cama, no sofá ou no banheiro, ela nunca me abandonou.)

(Que eu lembre de Marileide, a melhor tia que uma pessoa poderia ter, uma segunda mãe, que mesmo partindo, nunca deixei morrer dentro de mim. Que até 2020 fez parte diária de minha vida, cuidando de mim mais até do que minha mãe podia. Que eu não esqueça das vezes que ela me levou no campinho de futebol da prefeitura, na oficina para ver os caminhões, na fábrica da Vitarella, só porque eu pedi ou em tantos outros lugares, me amando incondicionalmente, mesmo com todos os erros que eu cometia. Que eu lembre do quanto a fiz sofrer, inconsequentemente, para que eu pague por isso um dia, porque minha infantilidade me cegava. Que eu plante, em sua homenagem, dois pés de manga, com uma rede entre eles, do jeito que te prometi e te faça um bolo de prestígio quando nos vermos novamente em outro plano.)

(Espero lembrar dos meus professores, que são o motivo de eu ter chegado em algum lugar, o motivo de eu saber e buscar aprender mais.)

domingo, 22 de fevereiro de 2026

50/50

    A vida parece tão incompleta do jeito que a levo. Sinto como se faltasse metade de mim, então vou explicar, aos mínimos detalhes, esta divisão. É como uma dor fantasma, machucando por ausência, pesando como uma barra, fazendo cair meus ombros. Berro e sangro pois amo algo que não tenho, desde sempre. Se algo faz falta por um mês, um ano ou uma década, imagine por vinte e seis anos? Desde sempre tive amigos, o maior tempo que fiquei sem foi cerca de um ano, começando quando um sumiu e terminando quando um novo apareceu. Não tive tempo o bastante para abstinência e acho que sofri mais por achar ter perdido o que sumiu do que realmente por não ter ninguém. Na época da escola, os amigos eram só para conversar, sempre durante o período escolar. Quando voltava para casa, ficava sozinho, jogando no computador pois meus pais não me permitiam brincar na rua. Me acostumei a jogar sozinho e buscar este tipo de diversão no modo single player. Mas namorada, amor romântico, beijos, dormir de conchinha, alguém sanar minhas inquietudes com um abraço ou cafuné, isto nunca tive. Não confio o suficiente nos meus pais para os contar dos meus problemas e meus amigos estão sempre tão longe. O céu bíblico parece tão perto quanto eles, algo bom, porém distante.

    Metade de meus sentimentos são dedicados a um tipo de relacionamento, enquanto a outra metade, ao outro. Nos cinquenta por cento de um lado, eu tenho meus amigos, minha família e conhecidos que fazem parte da minha vida. É um relacionamento de respeito, sem desejo sexual, às vezes sem presença física, com diversas limitações lógicas, que ambos concordam em ter. É neste lado que ficam as pessoas que interajo por um amor não romântico ou por coleguismo. Todas suprindo, mais ou menos, a mesma função, isto é: Nos divertirmos juntos em jogos, conversas, estudos ou eventos em grupo. Existe um certo intimismo, podemos debater sobre problemas pessoais, no caso de algumas pessoas, outras eu não confio tanto, como é o caso dos meus pais. Mas o retrato geral é que as pessoas deste grupo têm uma função de me ajudar e serem ajudadas por mim, se divertir juntos em certas atividades, enquanto nada podem fazer em outras. 

    Que sobra do outro lado? O amor romântico, desde o cafuné, os abraços e encontros, até o lado sexual, que, sendo bem franco, para mim não é tão importante assim. É a presença feminina, de traços que meus amigos não têm ou sentiriam vergonha de demonstrar. Este sorriso bobo ao cruzar olhares, este sentimento de vergonha no começo, que depois se torna desejo, estas flores que brotam na cabeça ao ver uma pessoa tão linda e gentil e saber que esta está em um relacionamento contigo. Esta pessoa doce e meiga que busca uma desculpa para me dar um carinho, tentando conseguir para si um pouco de felicidade e, em troca, me alegrando também. Um toque feminino nesta vida tão majoritariamente masculina, pois aprecio em demasia os traços tipicamente delas. Aprecio suas roupas, seus sapatos, seus estilos de cabelo, suas meias três quartos, sua cintura diferente, pescoço sem gogó, maxilar sutil e mãos menores, delicadas, sua elegância mesmo quando totalmente desarrumada. Pois a beleza feminina é agradável e única, algo que nenhum amigo meu tem e que não adianta minha mãe ter, já que não sou do Alabama.

    Me vem, porém, o problema, o lado romântico não tem ninguém, no máximo com uma desilusão que eu já sabia que daria errado antes mesmo de começar. O ponto é que este lado está, por completo, lutando contra mim, por estar vazio. Tal falta faz com que a única forma de manter esta balança equilibrada seria se todas as pessoas do outro lado estivessem, o tempo todo, agindo ao meu favor, sem nunca errarem ou fazerem algo que me deixe mal. O problema é que isto é impossível por dois motivos: O primeiro é que isto é inviável, todos têm suas vidas e seus problemas, seria até injusto cobrar que fizessem tanto por mim, além de ser egoísta e insensível com os problemas que eles também enfrentam; O segundo é que, mesmo se fossem dedicar tanto para equilibrar esta balança, nada impediria que somente uma destas pessoas fizesse algo que desbalanceasse tudo novamente, considerando a natureza falha humana. Inclusive, o segundo motivo já acontece bastante, com meu pai sempre dando um jeito de arruinar meu dia e minha paciência, com a faculdade me drenando emocional e fisicamente, com alguns amigos meus tendo, também, seus problemas e acabando por não poderem me suprir com suas amizades durante aquele tempo. Tudo isso é natural, inevitável.

    Falta uma ideia menos colossal, mais lógica. Então, a solução mais simples é achar alguém que preencha este outro lado, para que esta pessoa possa lutar junto de quem está do lado de cá em equilibrar a balança, tirando parte do peso que está no lado romântico, talvez até removendo-o por completo, de tal forma que ela conseguiria, sozinha, jogar a balança para o lado da felicidade, mesmo quando meus amigos não puderem nada me fazer. Mas, talvez, esta última expectativa seja tão irrealista quanto a de meus amigos serem suficientes para equilibrar esta balança, sozinhos. Queria que todos os meus amigos entendessem isso, que o motivo de eles não serem suficientes é porque realmente não dá, estão tentando fazer mais papéis do que qualquer pessoa seria capaz. Também queria que ninguém desmerecesse o quanto essa falta me machuca, que não "menosprezassem minha escolha de ir a uma faculdade de artes, querendo me prender a eles e me fazer desistir do meu sonho" (Quem assistiu "Look Back" sabe da cena que estou falando). Quando se tenta assumir papéis demais, não se faz nenhum bem.


Toinho Stark do Cangaço, 23/02/2026, 03:43-04:47


(Sinto como se faltasse metade de mim, então vou explicar, aos mínimos detalhes, esta divisão)

(Nos cinquenta por cento de um lado, eu tenho meus amigos, minha família e conhecidos que fazem parte da minha vida. É um relacionamento de respeito, sem desejo sexual, às vezes sem presença física, com diversas limitações lógicas, que ambos concordam em ter. É neste lado que ficam as pessoas que interajo por um amor não romântico, todas suprindo, mais ou menos, a mesma função, isto é: Nos divertirmos juntos em jogos, conversas ou eventos em grupo. Existe um certo intimismo, podemos debater sobre problemas pessoais, no caso de algumas pessoas, outras eu não confio tanto, como é o caso dos meus pais. Mas o retrato geral é que as pessoas deste grupo têm uma função de me ajudar e serem ajudadas por mim, se divertir juntos em certas atividades.)

(O ponto é que o lado do romance está, por completo, lutando contra mim, por estar vazio. Tal falta faz com que a única forma de manter esta balança equilibrada seria se todas as pessoas do outro lado estivessem, o tempo todo, agindo ao meu favor, sem nunca errarem ou fazerem algo que me deixe mal. O problema é que isto é impossível por dois motivos: O primeiro é que isto é inviável, todos têm suas vidas e seus problemas, seria até injusto cobrar que fizessem tanto por mim, além de ser egoísta e insensível com os problemas que eles também enfrentam; O segundo é que, mesmo se fossem dedicar tanto para equilibrar esta balança, nada impediria que somente uma destas pessoas fizesse algo que desbalanceasse tudo novamente, considerando a natureza falha humana. Inclusive, o segundo motivo já acontece bastante, com meu pai sempre dando um jeito de arruinar meu dia e minha paciência, com a faculdade me drenando emocional e fisicamente, com alguns amigos meus tendo, também, seus problemas e acabando por não poderem me suprir com suas amizades durante aquele tempo. Tudo isso é natural, inevitável.)

(Então, a solução mais simples é achar alguém que preencha este outro lado, para que esta pessoa possa lutar junto de quem está do outro lado em equilibrar a balança, tirando parte do peso que está no lado romântico, talvez até removendo-o por completo, de tal forma que ela conseguiria, sozinha, jogar a balança para o lado da felicidade, mesmo quando meus amigos não puderem nada me fazer. Mas, talvez, esta última expectativa seja tão irrealista quanto a de meus amigos serem suficientes para equilibrar esta balança, sozinhos.)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Só e acompanhado

    Está abafado hoje, parece que vai chover. Não quero, novamente, fazer analogias e metáforas com lágrimas e chuva, apenas constatar que este desconforto não me impediria de abraçar alguém que amasse, mesmo com tanto desconforto físico. Mas a distância ou inexistência dessas pessoas sim, consegue me impedir. 

    Tudo parece desconfortável quando estou sozinho, talvez por ter sido o estado que me encontrei por mais tempo na vida, algo que quero me afastar para sempre. A solidão é como uma "ex", que você encontra no caminho. Porém não consigo evitá-la, pois sua onipresença a faz tomar conta quando meus amigos não estão comigo. Deixando-me com frio mesmo aos 30°C. Parece que meu corpo é uma geladeira, quente por fora e frio por dentro.

    Bem forte, o sentimento toma conta de mim nesses hiatos que meus amigos não estão. É como se eu estivesse sempre no frio, numa rua, largado no chão. Algumas pessoas viessem e me aquecessem, mas fossem embora logo depois, o calor residual logo se perde, tornando a ser frio novamente. Agora a temperatura é mais desconfortável, porque saí do calor aconchegante ao frio dolorido, mas logo me acostumo e volto à geladura da vida. Agravada pelos problemas que "todo mundo tem", mas acredito que algo que todos estes também têm são motivos para continuar seguindo em frente e suportá-los.

    Eu sinto que os problemas são como cebola, quando misturados com diversas coisas boas e confortáveis, são um tempero que dá sabor à vida. Mas sinto que a minha é como comer a cebola pura, o que é algo que já fiz, em sentido literal, e nem parece ser tão ruim quando lidar com o que enfrento. A sensação de que é algo forte, sem ser diluído pelo carinho aconchegante de alguém. É como comer coentro puro, tomar Coca-Cola de 1990 pura ou empurrar um carro. Se você não entendeu, tudo bem, queria que você pudesse experimentar e me dizer como é passar por isso uma vez, depois refletir como é ter isso todos os dias.

    Acho que tem solução, na companhia de mais e mais pessoas até que não haja mais hiato em minha vida, assim, sem passar um segundo me sentindo só, sentindo frio. Espero que este dia chegue, que eu possa me libertar de tudo aquilo que me acorrenta ao chão. Espero que quando eu, no futuro, diga: "Não precisa mais se preocupar comigo", seja porque eu resolvi os problemas que me ardem a pele. Mas tenho medo de que só venha a falar tal frase quando for uma sutil despedida, um amuleto de minha desistência. Torça para que seja a reposta positiva, pois uma delas haverá.


Toinho Stark do Cangaço, 04/02/2026, 20:46-22:15


(O sentimento é como se eu estivesse sempre no frio, numa rua. Algumas pessoas viessem e me aquecessem, mas fossem embora logo depois, o calor residual logo se perde, tornando a ser frio novamente. Agora a temperatura é mais desconfortável, porque saí do calor aconchegante ao frio dolorido, mas logo me acostumo e volto à geladura da vida.)

(Espero que quando eu diga: "Não precisa mais se preocupar comigo", seja porque eu resolvi os problemas que me ardem a pele. Mas tenho medo de que só venha a falar tal frase quando for uma sutil despedida, um amuleto de minha desistência.)

(Os problemas são como cebola, quando misturados com diversas coisas boas e confortáveis, são um tempero que dá sabor à vida. Mas sinto que a minha é como comer a cebola pura, o que é algo que já fiz, em sentido literal, e nem parece ser tão ruim quando lidar com o que enfrento)