Quando chega esta data, é difícil de esquecer seu significado. Não sou obrigado a falar sobre, nem mesmo escrever, então por que o faço? Se um dia eu parar, talvez eu superei, talvez me perdi de vez, quem sabe? Fazem cinco anos que isso aconteceu, mas ontem você estava aqui, ao menos em minha mente, enquanto dormia. Dizem que o que acontece nesse plano não passa para o mundo real, mas estas lágrimas, escorrendo no meu rosto quando acordei, discordam.
Me diga, você lembra quando tive aquele pesadelo? Que todos da minha família me incomodavam ou brigavam comigo e eu só queria fugir disso? Você foi a última pessoa que encontrei lá. Eu te pedia para sair deste inferno e você, com um semblante triste e abatido, me dava a chave que eu usava para abrir a grade da frente de casa e ir embora, para sempre. Hoje em dia concluo que você é a chave da minha libertação, sempre foi, mas como farás por mim agora? Como farei por você agora?
Libertarei estas dúvidas com certezas, você sempre andava com as chaves de todas as casas da família, até te apelidávamos de "São Pedro", mas, sinceramente, você é mais santa que todos venerados na igreja católica. Enfrentei os cinco estágios do luto pensando em você naquele dia sombrio de 2020, o último pôr-do-Sol. De vez em quando passo por eles de novo, porque é difícil acreditar que não compartilhamos mais o mesmo mundo. Como não lembrar quando me levavas para ver os caminhões na oficina? Para o campinho de futebol da prefeitura? Para a verdejante grama à frente da fábrica da São José? Para o terminal de ônibus de Massangana? Ou até para brincar com meus primos na casa deles?
Deste tempo, só nos resta os sonhos. Parece que sempre que sonho contigo, demoro para sequer perceber que você não está mais aqui, falo como se fosse 2019, é como se eu nunca tivesse perdido a esperança de te reencontrar, mesmo sabendo do óbvio. A saudade é um sentimento complicado, ou você mata-a ou ela te mata. Creio que o que sinto é um buraco que ninguém consegue tapar, uma dor fantasma, como alguém que perde um braço. Fico neste ciclo de lembrar que não estás mais aqui, sofrer, esquecer e recomeçar. Parte de você ainda vive, tal qual minha calculadora, o boneco do Scrat, do filme "Era do Gelo", os bonecos de jogadores de futebol e as garrafas em miniatura da Coca-Cola, que eram do seu irmão. Você me mostrou que o amor é altruísta, que quem ama está ao lado, sofre junto, briga junto e sorri junto. Também que quando vamos, sobram apenas os símbolos de uma era que não volta, como moedas de uma civilização antiga.
Ciclo da vida, como taças que se quebram e reciclam para novas peças de vidro. Somos frágeis, como o papel, aos poucos se decompondo e despedaçando. Somos apenas um bit de memória RAM neste mundo que não sente o peso de nossa partida, mas você era, para mim, o system32. Como diz Samuel Rosa, na música "Sutilmente": "Mas quando eu estiver morto, suplico que não me mate dentro de ti". Quanto a você, sua memória vive, espero que fique para sempre eternizada naqueles que um dia souberem de sua história, pois te considero alguém não só melhor que eu, como também a melhor do mundo. Anseio, espero o dia que o Universo me dará uma chance de te ver de novo, pois meus sonhos não são o bastante.
Toinho Stark do Cangaço, 02-06/11/2025
(O pesadelo em questão, que é citado no segundo parágrafo e não tem correlação com o sonho de ontem, eu acabei documentando no dia seguinte ao ocorrido, vou copiar o texto na íntegra, ainda que tenha erros gramaticais e seja meio confuso de entender. Dá para ver que ele foi escrito em 10/01/2023, às 02:15:
"Vejo minha vida consumida por tanto estresse e tantos problemas que me lembro de um pesadelo que tive, pois nem em sonho eu tenho paz ou amor, minha vida se tornou tal martírio que até quando alucino em meu sono, este martírio está presente.
Um pesadelo que tive na madrugada do dia 09 de Janeiro de 2023 era assim, eu estava em casa, era hora de ir para a faculdade, eu me preparava mas os problemas chegavam e se acumulavam, meu primo queria que eu imprimisse algo para ele, minha mãe estava louca com um sorriso perturbador enquanto ela criava um gatinho, ela criava alguns ratos na sala onde fica o computador enquanto ela deliberadamente deixava que o gato dilacere vivos os ratos, ela ri de maneira macabra enquanto assiste ao show, eu me traumatizo, tento convencê-la que isso é estranho, mas ela não liga, eu simplemsente aceito, cumpro meus deveres, ciente de que estou atrasado para a faculdade, vejo meu pai sem fazer nada, só reclamando, vejo minha tia, que já é falecida, sentada ao sofá, eu vou à pilastra onde têm vários molhos de chaves distintas, eu pego alguns e corro para o portão para que eu possa ir à faculdade, há uma fogueira sendo montada bem na porta de casa, algo que eu detesto é fumaça, não consigo acertar qual chave do molho é a correta para abrir o portão enquanto fico cada vez mais furioso, então minha tia, a única pessoa lúcida deste sonho, me entrega a chave com calma, como se este ato simbolizasse mais que isso, simbolizasse minha escapatória, mas ela não parecia feliz em me entregar esta chave, parecia meio tristonha, como se indagasse se era isso mesmo que eu queria fazer, eu pegava a chave e abria o portão com a única vontade de nunca mais voltar para casa, este é o fim deste pesadelo com todos os detalhes que lembro.
Simbologicamente sinto que isso significa que todos põem pressão em mim para que eu faça por eles, nunca se importando se sequer isso é justo, vejo minha mãe enlouquecendo sem sequer saber o que faz mais, apenas escapando da realidade em sua brincadeira de gato e rato, como se descontasse tudo neste show de estripamento de ratos, e mesmo comigo preocupado com sua saúde mental, não vejo saída, a simbologia é que minha única saída é fugir deles, daqueles que causaram esse mal desde o princípio, mas como? Então a chave, a chave entregue por alguém que já se foi, como se a chave para sair disso fosse a morte, e, mesmo que isso desconformasse aquela pessoa que me entregou a chave, ela entende e me deixa livre para escolher, assim, será que é isso? Será que até em sonho eu percebo que a morte é minha única escapatória, só que de maneira metafórica?")
(Eu anseio, espero o dia que o Universo me dará uma chance de te ver de novo, pois meus sonhos não são o bastante.)
(A saudade é um sentimento complicado, ou você mata-a ou ela te mata)
(Como diz Samuel Rosa: "Mas quando eu estiver morto, suplico que não me mate dentro de ti")